Na minha infância freqüentei uma escola cheia de cores, novidadeira e ao mesmo tempo séria, dita “atrasada”. Lá me ensinaram o be-a-bá. Ensinaram-me que Ivo viu a uva e até que O boi babá. Ah! Eu já sabia que o boi babava, só não sabia ainda por esse conhecimento num papel cheio de letrinhas. Não sabia transformar o meu feijão com arroz de todos os dias, num banquete.
Nessa escola me ensinaram isso, e, também me ensinaram a arte de fazer-de-conta que era o Dom Pedro, a Princesa Izabel… Se eu não tivesse aprendido o be-a-bá, não saberia escrever ao meu primo da cidade sobre:
o A bala de coco que comi no aniversário da Bia;
o A beleza da chuva no telhado;
o O bezerro que nasceu;
o A biloca que ganhei do Beto;
o O biscoito de polvilho da minha mãe;
o A bola de gude que achei sábado;
o A bota colorida do meu tio;
o A buzina do trem que me leva à escola todos os dias.
E, quando foi passear nas férias do ano passado na casa dos avós, Ivo viu a uva. Viu que a uva pode ser branca, rosa ou vermelha. Que a uva dá em cachos. Quando a gente põe um bago na boca e dar uma mordida, a casca se rompe e explode sobre a língua, traz um gosto muito diferente. Às vezes é azedo, mas geralmente é bem docinho. Não dá vontade de parar de comê-la.
Já o tio do Beto tem um boi branquinho que o alimentam na mão. Um dia o tio deu melado com farinha ao boi. Fiquei com nojo porque o boi babou na mão dele. Mas, Beto disse que aquela baba poderia sair muito, bem bastaria lavar com água e sabão.
Por causa da escola, ainda passava dias decorando datas, poemas, “trejeitos” e demais textos que deveriam ser recitados diante de uma platéia. Nessa escola fui preparada a usar os diversos recursos lingüísticos em situações diferentes do cotidiano de uma sala de aula porque a escola me ensinou que comer esse feijão com arroz todos os dias me fazia crescer forte e saudável. E a escola também me alimentou com leite em pó, sopa de bugó/trigo, doce de abóbora…
Assim, continuei comendo, devorando esses pratos ora à brasileira ora à estrangeiro, recheados de tantas mãos. Estava preparando-me por mais alguns anos para assumir o papel de uns dos cozinheiros. E, ainda há quem diga que panela que muito mexe ou fica insossa ou salgada. Se não houvesse sido preparado a tantas mãos, o prato não teria tão bom sabor. Uma pitada de cores emprestadas entre si coloriu o meu prato a cada manhã na escola.
Tornei-me, portanto, mais uma dessas mãos no auxílio da preparação do já famoso feijão com arroz que havia aprendido muito bem. Até que veio um mestre dos cozinheiros dizendo que feijão com arroz que eu pensava que sabia fazer, enjoa, que não dá sustância nenhuma, que não tinha cor nenhuma e, que poderia causar indigestão. Mandando-me cozer novos pratos embora que fossem descoloridos. Bastava serem inusitados, ousados. Que deveria esvaziar a dispensa, jogar tudo fora e comprar novos mantimentos.
Joguei tudo fora e, fui comprar novos ingredientes para compor outro cardápio. Então, fiquei num mato sem cachorros. Eu tinha novos ingredientes, excelentes, muitas cores, mas, não sabia o que fazer com eles. Desaprendi tudo que tinha aprendido sobre feijão com arroz. O que eu sabia cozinhar não poderia ser cozido. E os mestres dos cozinheiros, esses também não sabiam o que poderia fazer parte dessas novas refeições. Só sabiam dizer que o feijão com arroz estava errado e que era terminantemente proibido ser feito e degustado. Havia até quem fizesse o feijão com arroz por baixo de sete capas, contrariam todo paradigma proposto para efetivar tais mudanças ousadas.
Esses mestres não sabiam que o feijão com arroz é a base de uma dieta equilibrada. Que com o feijão com arroz, posso fazer uma feijoada carioca, preparar uma dobradinha, compor um baião de dois ou um rubacão… Dependendo da região poderia ainda montar um acarajé, fazer um ensopado de bacalhau, liquidificar uma sopa, fazer uma farofa de cuscuz, e até uma tortilha.
Eles não sabiam que eu poderia acrescentar cores ao prato, dando um toque de personalidade. Não sabiam que eu poderia emprestar cores ao arroz com uma salsinha, com uma cenoura ralada, com uma ervilha, com uma uva-passa, com um bacon torrado, com um pouco de urucum… Há tantas possibilidades de colorir esse feijão com arroz!?
Eu, com feijão e arroz, poderia produzir um banquete cheio de cores e tantos sabores com as mais finas iguarias, digno de um rei. Poderia ainda convidar alguns amigos para partilhar esse prato, tornando a degustação mais interessante e divertida. Que com feijão e arroz iria inquietar a mais quieta das curiosas criaturas ansiosas para se lambuzarem com tão gostosa iguaria. Porque quem nunca come melado quando come se lambuza.
É mais prazeroso ver estes indivíduos se lambuzando com o feijão com arroz do que degustar novas iguarias. Embora, eu seja muitíssimo curiosa e esteja procurando ver outros novos sabores e coloridos a serem acrescentados ao cardápio, acredito piamente que não é um prato novo que despertara o prazer. Mas, um prato bem posto, acompanhado de boas energias colhidas na horta ou direto do gostar de fazer do cozinheiro, da motivação do menino ao querer comê-lo que faz um prato aparentemente tão simples ficar diferente e apetitoso.
Está cientificamente comprovado que o nosso feijão com arroz brasileiríssimo alimenta e faz bem. Que o feijão com arroz compõe uma refeição completa. Que o feijão com arroz associados a alimentos de cores amarelas, aumenta a absorção dos nutrientes. Que o feijão com arroz pode e devem ser consumidos todos os dias. Mas, comprovaram também que quanto mais colorido o prato, mais minerais e vitaminas ingerimos. Ou seja, nada é proibido de fato. É aconselhável sim, comer com moderação! É aconselhável ainda que devemos fazer um prato bem colorido porque antes comemos com os olhos, com o olfato e por último com o tato e o paladar. É aconselhável utilizar os muitos temperos para acrescentar cor e sabor ao tão falo feijão com arroz. Porque é aconselhável fazer uma festa com os sentidos registrados na nossa memória dos sentimentos. E, é aconselhável ainda despertar e festejar as emoções do querer, do sonhar antecipadamente e do gostar.
Quanto aos grandes mestres dos cozinheiros, é muito bom que continuem experienciando novas composições de cardápios elaborados em busca de soluções para o preparo das sopas de letrinhas. Esses mestres existem e precisam existir senão como se formariam os tantos cozinheiros necessários aos tantos degustadores ávidos por criar, recriar e manipular as palavrinhas? Como eu iria saber que esse ou aquele tempero foi acrescentado em excesso ou que foi esquecido de ser acrescentado? Como se iria controlar os desmandos de alguns cozinheiros desavisados se não existissem esses mestres? Por tudo isso, eu, um desses cozinheiros desse universo das sopas de letrinhas, decreto que a escola pode abusar das cores multifacetas para a preparação do bom e velho feijão com arroz, essa singular refeição nobre e rica, sem jamais deixar de visitar à horta ou à quitanda para comprar novos ingredientes que surjam.
Outrossim, é extremamente proibido PROIBIR!
O discurso contemporâneo busca soluções rebuscadas para enfrentar a problemática da escola em busca da reinvenção da roda. A roda já foi inventada. Precisamos aprender a usá-la adequadamente em benefício próprio de forma que esta torne-se leve de conduzir. O que se percebe é um buscar constante por algo novo quando temos várias rodas que estão precisando apenas receber um olhar cor de rosa. Que seja reinventada na forma de apresentação. Às vezes precisa apenas de um bom colorido e temos uma outra forma na mesma forma.
Este artigo de opinião foi produzido no meu laboratório pessoal interno e externo. Após ler alguns autores e participar de muitos eventos de formação, fui (re)elaborando minha autoformação e, conclui que na maioria dos discursos ditos contemporâneos estamos trocando seis por meia dúzia, rodando sem ir alugar algum.
2 comments
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no mundo
parabéns !
Vivências
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