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O desafio de uma formação Transdisciplinar Humanescente
April 22, 2010 - 6 commentsFragmentação, ruptura, divisão, racionalismo sustentaram os modelos assistenciais curativistas no Brasil. A reforma Sanitária iniciada a partir de 1988 exige um novo pensar e um novo fazer no âmbito da formação e do cuidado em saúde. A Faculdade de Ciências Cultura e Extensão do Rio Grande do Norte-FACEX se propôs a superar esta lógica através da implantação de um Curso de Enfermagem que rompe com a perspectiva tradicional, pautado no pensamento complexo e que tem a Pedagogia Vivencial como o percurso metodológico para uma formação humanescente que prioriza o sentipensar. Esta realidade está sendo vivenciada, desde julho de 2005, através da implantação de um currículo transdisciplinar.
Discutir práticas educativas nos remete a reflexões críticas dessa contemporaneidade ontológica. Associamos-nos a preocupação de Morin (2003) quando afirma que necessitamos de novas bases teóricas e de novas práticas pedagógicas que favoreçam não apenas o desenvolvimento da inteligência humana, mas, sobretudo que colaborem com a reforma do pensamento humano. Pensamentos que nos ajudem a não mais dissolver o ser, a existência, a sociedade e a vida, mas a compreender o ser, a existência, a sociedade e a vida.
Sobre a reforma do pensamento, Moraes (2003) alerta que não pode estar separada da abertura do coração, do saber olhar o outro, do escutar, do entender, ou seja, de uma multidimensionalidade humana.
Cientes da complexidade desse humano (Homo) e da influência da cultura, dos sentimentos e das emoções no seu cotidiano em evolução, ousamos adotar no nosso curso a concepção de “humanescência” ao invés de “humanização”. Humanescência entendida como processo de expansão da essência humana que irradia luminosidade, beneficiando outros seres, a natureza, a sociedade e o planeta. Ou seja, um processo evolutivo que possibilita o despertar das essências humanas adormecidas pela coisificação do processo civilizacional e que prevalece na contemporaneidade da espécie homo sapiens. Assim, a saúde como um campo vivencial para humanescência necessita de uma educação humanescente (CAVALCANTI, 2005).
A formação humanescente se fundamenta na educação do ser humano, na integralidade de suas dimensões práticas e teóricas, ou seja, uma pedagogia voltada para a formação integral do ser, para o desenvolvimento da sua inteligência, de seu pensamento, de sua consciência e de seu espírito. Para isso, devemos possibilitar além dos saberes tradicionalmente disciplinares, o fluir de novos saberes, os saberes humanescentes, os quais emergem do interior do ser, da essência do humano, do belo, do sensível, do fluir, do deixar transparecer, do experienciar (CAVALCANTI, 2006).
POR UMA EDUCAÇÃO PULSANTE: APRENDIZAGEM SIGNIFICATIVA COM O SANDPLAY
April 22, 2010 - 2 comments1. INTRODUÇÃO Historicamente nossa formação profissional foi referenciada no deslocamento dos objetos de seus contextos, na divisão dos territórios do conhecimento por disciplinas, na unificação do que é múltiplo, na simplificação do complexo, na exclusão do que é incerto ou contraditório, ocasionando o aparecimento de relações inumanas, deterministas, formalistas e quantitativas que dissolvem tudo o que subjetivo, livre, afetivo e criador (MORIN, 2003). No campo da saúde esta situação é mais agravante uma vez que a formação mecanicista cartesiana predominou toda a cultura médico-assistencialista pautada no cuidado da doença e não no Ser doente. Com o início da Reforma Sanitária no Brasil, a partir da Reforma Constitucional de 1988, é criado o Sistema único de Saúde – SUS o qual apresenta três níveis de atenção à saúde: promoção, proteção e recuperação e três níveis de complexidade da assistência: atenção básica, média e alta complexidade. Os documentos legais de constituição do SUS definem ser atribuição do mesmo, o ordenamento da formação para a área, ou seja, o SUS deve interferir pela orientação da formação em coerência com as diretrizes e princípios constitucionais da saúde. Assim, a formação para a área da saúde deveria ter como objetivos a transformação das práticas profissionais e da própria organização do trabalho e estruturar-se a partir da problematização do processo de trabalho e sua capacidade de dar acolhimento e cuidado às várias dimensões e necessidades em saúde das pessoas, dos coletivos e das populações. A melhor síntese para esta designação à educação dos profissionais de saúde é a noção de integralidade, pensada tanto no campo da atenção, quanto no campo da gestão de serviços e sistemas (BRASIL, 2004). A integralidade da atenção à saúde supõe, entre outros aspectos, a ampliação e o desenvolvimento da dimensão cuidadora. Ou seja, formar profissionais mais capazes de acolhimento, de vínculos com os usuários das ações e serviços de saúde e, também, mais sensíveis às dimensões do processo saúde-doença não inscritas nos âmbitos tradicionais da epidemiologia ou da terapêutica. Assim, conhecer o território onde as pessoas vivem e como vivem passou a ser condição prioritária para aprendizagem do cuidado em saúde. Destarte, a Faculdade de Ciências, Cultura e Extensão do Rio Grande do Norte – FACEX ousou lançar um curso de graduação em enfermagem, pautado no referencial do pensamento complexo. O Curso foi estruturado pelo sistema semestral de ensino, organizou o seu currículo de forma seqüencial e gradativa, respeitando a progressividade do conhecimento através de eixos temáticos a partir de Unidades Programáticas que rompem com a lógica disciplinar. O artigo pretende relatar a experiência vivenciada com o uso do Sandplay – jogo de areia como uma das metodologias ativas que visa aprendizagem significativa na formação para o cuidado em saúde do curso de enfermagem da FACEX o qual neste estudo é aplicado mais especificamente, no âmbito da aprendizagem sobre o território de saúde como norteador das práticas de saúde no âmbito da Atenção Básica..
2. CENÁRIOS DE APRENDIZAGENS SIGNIFICATIVAS COM O SANDPLAY Para uma atividade educativa humanescente, não é suficiente corporalizar a ação, torna-se necessário luminescer o processo: saber brincar; saber criar; saber sentir, saber pensar, saber humanescer (CAVALCANTI, 2005). Não podemos separar nossas emoções das nossas ações, nosso afeto dos pensamentos, das autopercepções, das imagens e do ambiente. A interação desses potenciais define nossos níveis energéticos e, portanto nosso equilíbrio e nossa aprendizagem. Formar profissionais com uma visão ampliada de saúde exige, necessariamente, começar aprendendo sobre seu território de vida. Busca-se então, valorizar no processo educativo as questões culturais e sociais visando uma aprendizagem significativa, nela educador e estudante têm papéis diferentes dos tradicionais. Na nossa vivência o professor não é mais a fonte principal da informação (conteúdos), mas o facilitador do processo ensino-aprendizagem, que deve estimular o aprendiz a ter postura ativa, crítica e reflexiva durante o processo de construção do conhecimento. Destarte, os conteúdos trabalhados devem ter potencial significativo (funcionalidade e relevância para a prática profissional) e, também, responder a uma significação psicológica, de modo a valorizar elementos pertinentes e relacionáveis dentro da estrutura cognitiva do estudante (conhecimentos prévios). É neste contexto das práticas de ensino que surge o Sandplay – Jogo de areia como uma opção didática para promover aos alunos do curso de enfermagem da FACEX uma aprendizagem significativa no âmbito do território de saúde. O Sandplay surgiu nos anos 60, inicialmente, como uma modalidade terapêutica desenvolvida por Dora Kalff a partir de terapias usadas na Suíça para diagnóstico psiquiátrico infantil e da cosmovisão psíquica de Carl Gustav Jung, que foi seu professor. A técnica foi inspirada na World Technique de Margareth Lowenfeld a qual oportuniza a espontaneidade e criatividade. No Brasil, as primeiras técnicas nesta área foram apresentadas pela analista junguiana suíça Ruth Ammann (2004). Hoje, diferentes experiências estão sendo desenvolvidas no campo terapêutico. Vieira (1998) utiliza-se da Caixa de Areia como material lúdico em estudo sobre a capacidade da criança em expressar sua subjetividade. Já Zimmermann (1996) apresenta a Caixa de Areia como técnica facilitadora de integração de processos simbólicos e como instrumento facilitador para a orientação profissional. Silva e et al. (2001) obteve resultados bastante favoráveis a partir da utilização do Jogo de Areia num contexto de instituição hospitalar, especificamente de enfermaria cirúrgica, permitindo uma reflexão sobre possibilidades ampliadas e criativas de expressão e relação psicoterapêutica em um ambiente onde não é apenas o corpo concreto que pede atenção. Na nossa pesquisa, estamos adaptando de forma inovadora o jogo de areia a uma prática da Pedagogia Vivencial Humanescente, já que, historicamente este sempre foi um método terapêutico de caráter psicológico. A vivência foi organizada como uma didática interativa utilizada com alunos e professores do Curso de Enfermagem a qual oportuniza, no processo de aprendizagem sobre o território de saúde na Atenção Básica, a imaginação, a reflexão e a criação na prática transformadora. A técnica consiste na manipulação criativa de miniaturas em uma caixa-de-areia. A caixa de madeira tem formato retangular rasa com a seguinte dimensão: 72 × 50 × 7 cm. A base da caixa tem cor azul claro, para possibilitar a simbolização da água no fundo e do horizonte nas laterais. Montamos kits de miniaturas com diferentes categorias, tais como: pessoas; profissionais da saúde; móveis de mobília; plantas; animais; construções; brinquedos; armas; materiais médico-cirúrgicos, instrumentais de enfermagem; remédios; pedras; figuras típicas; meios de transporte e objetos, que são disponibilizados em uma mochila, e do lado do caixão, colocamos uma cestinha para facilitar o processo de escolha dos elementos indicadores do cenário a ser construído. Estas miniaturas são os elementos lúdicos que permitem fluir a criatividade dos participantes na atividade de montagem das cenas que partem do imaginário para a representação de um real simbólico. O processo metodológico foi organizado didaticamente em cinco momentos vivenciais: 1º Encontro se organizou a partir de trabalhos em grupos. Foi um momento de construção simbólica através do imaginário usando a técnica de montar cenários com as miniaturas no caixão de areia (Sandplay). O grupo expressou no "instrumento 1” (de nossa autoria) as significações e percepções prévias a respeito do que seria uma comunidade e um território; 2º Encontro: Houve uma reflexão sobre as produções simbólicas e suas significações, uma reaproximação com os cenários simbolicamente (Fotos e descrição) construídos no “Instrumento 1” e a partir dele uma discussão para sua caracterização através do “Instrumento 2” (nossa autoria) 3º Encontro: É feita uma exposição dialogada com a apresentação das diferentes ferramentas possíveis de serem utilizadas para um reconhecimento territorial, na lógica do conceito ampliado de saúde e com suporte de referenciais teóricos. 4° Encontro: Baseou-se na visita a comunidade para registro de informações (Estimativa Rápida) e observações da realidade (Fotorreportagem) identificadas naquele território de saúde, através da utilização das ferramentas aprendidas (Mapeamento vivencial). 5ºEncontro: os grupos apresentam os cenários do reconhecimento territorial por eles realizados. É feito um amplo debate sobre o sentido e vivido na experiência.
3. BREVES CONSIDERAÇÕES FINAIS Inserir o Sandplay-Jogo de Areia num contexto de implantação do curso de enfermagem, especificamente de uma proposta que tem como referencial o pensamento complexo e didaticamente a Pedagogia Vivencial Humanescente, permitiu, de forma lúdica a reflexão sobre possibilidades ampliadas e criativas de expressão das concepções sobre a importância do território de saúde no planejamento do cuidado. Adaptado como uma ferramenta didática na formação em enfermagem, o Jogo de Areia mostrou-se um instrumento bastante favorável para o trabalho com alunos e professores na perspectiva de uma Pedagogia Vivencia Humanescente. Sua inserção como opção metodológica possibilitou uma vivência pedagógica que foi descrita pelos alunos e professores como uma didática prazerosa, facilitadora e motivadora do processo de aprendizagem, considerando ser uma possibilidade de expressão de seus conteúdos por uma via lúdica que oportuniza a relação imaginário-teórico-real. Pode-se afirmar que o Sandplay-Jogo de Areia é uma possibilidade didática que desencadeia movimentos corporais cognitivos, sensitivos e até contemplativos na produção do conhecimento. É a superação da aprendizagem linear, ou seja, mobilizando todas as dimensões do Ser Humano, possibilitando o vivenciar na tomada de decisão para a ação não só valorizando a razão, mas também as emoções, os sentimentos e os pensamentos.
REFERENCIAS: AMMANN. R. A Terapia do jogo de areia: imagens que curam a alma e desenvolvem a personalidade; [tradução de Mário Serpa]. 2ª Ed. São Paulo: Paulus, 2004. BRASIL. Constituição, 1988. Constituição: República Federativa do Brasil. Brasília, Senado Federal, 1988. BRASIL. Leis, etc. Decreto nº 1.232 de 30 de agosto de 1994: dispõe sobre a transferência regular de recursos do Fundo Nacional de Saúde para os Estados, municípios e Distrito Federal.
BRASIL, HumanizaSUS : Política Nacional de Humanização A Humanização como Eixo Norteador das Práticas de Atenção e Gestão em Todas as Instâncias do SUS. Textos Básicos de Saúde, Brasília – DF Ministério da Saúde, 2004. CAVALCANTI. K. B. Pedagogia vivencial humanescente. In mímeo. Natal/RN: UFRN, 2005. MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 8. ed. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2003. SCOZ. B. (org). Por uma educação com alma: A objetividade e a subjetividade nos processos de ensino/aprendizagem.Petrópolis, RJ:Vozes, 2000. SILVA, S. C. et al. A inserção do jogo de areia em contexto psicoterapêutico hospitalar em enfermaria cirúrgica: um estudo exploratório. Divisão de Psicologia, Instituto Central do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2001. VIEIRA, A. G. O brinquedo simbólico como uma narrativa. Psicologia: Reflexão e Crítica, 11(2), 1998. ZIMMERMANN, E. B. Dança meditativa e caixa de areia associadas a analise verbal como técnica facilitadora de integração de processos simbólicos. Tese de doutorado, Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, 1996.
O sonho de um sistema de saúde humanescente
April 22, 2010 - 6 commentsA formação em saúde exerce um importante papel social no atual modelo de atenção, considerando os princípios que regem a Reforma Sanitária Brasileira. Educar o sujeito cognoscente para ser um futuro profissional da saúde significa ir além do preparo para assistência à doença; necessita mexer com sua estrutura humana interna, promovendo autoconhecimento e a auto-organização. Somente educando na biologia do amor poderemos formar profissionais para exercerem o cuidado integral, na busca da autonomia e do direito à saúde e à vida.
Fritjof Capra (2000), quando aborda a teoria quântica, nos mostra a condição para perceber o universo não como uma coleção de objetos físicos, mas sim como uma complexa teia de relações entre as várias partes de um todo unificado, onde todas as partículas são dinamicamente compostas umas das outras de uma maneira autoconsistente, e, neste sentido, pode-se dizer que uma contêm uma a outra. A teoria dos sistemas vivos nos mostra uma visão unificada da mente, da matéria viva e da vida, a visào de um sistema integrativo que evolui do simples para o complexo, ou seja, uma “teoria dinâmica de sistemas”, “teoria da complexificação”, “dinâmica não-linear”.
Recuperar a dimensão humana no processo de formação em saúde é certamente o diferencial para uma formação humanescente, transdisciplinar que compreende a complexidade das relações entre o ser cuidador e o ser cuidado no contexto do seu ambiente sócio político, cultural e afetivo. Estamos certos que o desafio das instituições de ensino superior que formam profissionais para o SUS é encontrar caminhos para uma nova formação na lógica de um novo cuidado, trabalhar a alma do educador, a essencia de seu ser e criar espaços de aprendizagens humanescentes que visem uma aprendizagem significativa. A Pedagogia Vivencial Humanescente possibilita diferentes ferramentas para uma formação humana autopoiética.
Desta forma, o SUS, pautado nos princípios da integralidade, da equidade e da participação da comunidade, exige uma formação integral, ou seja, um ressignificar no fazer educativo para o cuidado, pois se baseia na conplexidade do ser, na sua multidimensionalidade e na qualidade das relações do sujeito com o meio e com o universo. É o desafio do reencantar o processo educativo!



