1. INTRODUÇÃO Historicamente nossa formação profissional foi referenciada no deslocamento dos objetos de seus contextos, na divisão dos territórios do conhecimento por disciplinas, na unificação do que é múltiplo, na simplificação do complexo, na exclusão do que é incerto ou contraditório, ocasionando o aparecimento de relações inumanas, deterministas, formalistas e quantitativas que dissolvem tudo o que subjetivo, livre, afetivo e criador (MORIN, 2003). No campo da saúde esta situação é mais agravante uma vez que a formação mecanicista cartesiana predominou toda a cultura médico-assistencialista pautada no cuidado da doença e não no Ser doente. Com o início da Reforma Sanitária no Brasil, a partir da Reforma Constitucional de 1988, é criado o Sistema único de Saúde – SUS o qual apresenta três níveis de atenção à saúde: promoção, proteção e recuperação e três níveis de complexidade da assistência: atenção básica, média e alta complexidade. Os documentos legais de constituição do SUS definem ser atribuição do mesmo, o ordenamento da formação para a área, ou seja, o SUS deve interferir pela orientação da formação em coerência com as diretrizes e princípios constitucionais da saúde. Assim, a formação para a área da saúde deveria ter como objetivos a transformação das práticas profissionais e da própria organização do trabalho e estruturar-se a partir da problematização do processo de trabalho e sua capacidade de dar acolhimento e cuidado às várias dimensões e necessidades em saúde das pessoas, dos coletivos e das populações. A melhor síntese para esta designação à educação dos profissionais de saúde é a noção de integralidade, pensada tanto no campo da atenção, quanto no campo da gestão de serviços e sistemas (BRASIL, 2004). A integralidade da atenção à saúde supõe, entre outros aspectos, a ampliação e o desenvolvimento da dimensão cuidadora. Ou seja, formar profissionais mais capazes de acolhimento, de vínculos com os usuários das ações e serviços de saúde e, também, mais sensíveis às dimensões do processo saúde-doença não inscritas nos âmbitos tradicionais da epidemiologia ou da terapêutica. Assim, conhecer o território onde as pessoas vivem e como vivem passou a ser condição prioritária para aprendizagem do cuidado em saúde. Destarte, a Faculdade de Ciências, Cultura e Extensão do Rio Grande do Norte – FACEX ousou lançar um curso de graduação em enfermagem, pautado no referencial do pensamento complexo. O Curso foi estruturado pelo sistema semestral de ensino, organizou o seu currículo de forma seqüencial e gradativa, respeitando a progressividade do conhecimento através de eixos temáticos a partir de Unidades Programáticas que rompem com a lógica disciplinar. O artigo pretende relatar a experiência vivenciada com o uso do Sandplay – jogo de areia como uma das metodologias ativas que visa aprendizagem significativa na formação para o cuidado em saúde do curso de enfermagem da FACEX o qual neste estudo é aplicado mais especificamente, no âmbito da aprendizagem sobre o território de saúde como norteador das práticas de saúde no âmbito da Atenção Básica..
2. CENÁRIOS DE APRENDIZAGENS SIGNIFICATIVAS COM O SANDPLAY Para uma atividade educativa humanescente, não é suficiente corporalizar a ação, torna-se necessário luminescer o processo: saber brincar; saber criar; saber sentir, saber pensar, saber humanescer (CAVALCANTI, 2005). Não podemos separar nossas emoções das nossas ações, nosso afeto dos pensamentos, das autopercepções, das imagens e do ambiente. A interação desses potenciais define nossos níveis energéticos e, portanto nosso equilíbrio e nossa aprendizagem. Formar profissionais com uma visão ampliada de saúde exige, necessariamente, começar aprendendo sobre seu território de vida. Busca-se então, valorizar no processo educativo as questões culturais e sociais visando uma aprendizagem significativa, nela educador e estudante têm papéis diferentes dos tradicionais. Na nossa vivência o professor não é mais a fonte principal da informação (conteúdos), mas o facilitador do processo ensino-aprendizagem, que deve estimular o aprendiz a ter postura ativa, crítica e reflexiva durante o processo de construção do conhecimento. Destarte, os conteúdos trabalhados devem ter potencial significativo (funcionalidade e relevância para a prática profissional) e, também, responder a uma significação psicológica, de modo a valorizar elementos pertinentes e relacionáveis dentro da estrutura cognitiva do estudante (conhecimentos prévios). É neste contexto das práticas de ensino que surge o Sandplay – Jogo de areia como uma opção didática para promover aos alunos do curso de enfermagem da FACEX uma aprendizagem significativa no âmbito do território de saúde. O Sandplay surgiu nos anos 60, inicialmente, como uma modalidade terapêutica desenvolvida por Dora Kalff a partir de terapias usadas na Suíça para diagnóstico psiquiátrico infantil e da cosmovisão psíquica de Carl Gustav Jung, que foi seu professor. A técnica foi inspirada na World Technique de Margareth Lowenfeld a qual oportuniza a espontaneidade e criatividade. No Brasil, as primeiras técnicas nesta área foram apresentadas pela analista junguiana suíça Ruth Ammann (2004). Hoje, diferentes experiências estão sendo desenvolvidas no campo terapêutico. Vieira (1998) utiliza-se da Caixa de Areia como material lúdico em estudo sobre a capacidade da criança em expressar sua subjetividade. Já Zimmermann (1996) apresenta a Caixa de Areia como técnica facilitadora de integração de processos simbólicos e como instrumento facilitador para a orientação profissional. Silva e et al. (2001) obteve resultados bastante favoráveis a partir da utilização do Jogo de Areia num contexto de instituição hospitalar, especificamente de enfermaria cirúrgica, permitindo uma reflexão sobre possibilidades ampliadas e criativas de expressão e relação psicoterapêutica em um ambiente onde não é apenas o corpo concreto que pede atenção. Na nossa pesquisa, estamos adaptando de forma inovadora o jogo de areia a uma prática da Pedagogia Vivencial Humanescente, já que, historicamente este sempre foi um método terapêutico de caráter psicológico. A vivência foi organizada como uma didática interativa utilizada com alunos e professores do Curso de Enfermagem a qual oportuniza, no processo de aprendizagem sobre o território de saúde na Atenção Básica, a imaginação, a reflexão e a criação na prática transformadora. A técnica consiste na manipulação criativa de miniaturas em uma caixa-de-areia. A caixa de madeira tem formato retangular rasa com a seguinte dimensão: 72 × 50 × 7 cm. A base da caixa tem cor azul claro, para possibilitar a simbolização da água no fundo e do horizonte nas laterais. Montamos kits de miniaturas com diferentes categorias, tais como: pessoas; profissionais da saúde; móveis de mobília; plantas; animais; construções; brinquedos; armas; materiais médico-cirúrgicos, instrumentais de enfermagem; remédios; pedras; figuras típicas; meios de transporte e objetos, que são disponibilizados em uma mochila, e do lado do caixão, colocamos uma cestinha para facilitar o processo de escolha dos elementos indicadores do cenário a ser construído. Estas miniaturas são os elementos lúdicos que permitem fluir a criatividade dos participantes na atividade de montagem das cenas que partem do imaginário para a representação de um real simbólico. O processo metodológico foi organizado didaticamente em cinco momentos vivenciais: 1º Encontro se organizou a partir de trabalhos em grupos. Foi um momento de construção simbólica através do imaginário usando a técnica de montar cenários com as miniaturas no caixão de areia (Sandplay). O grupo expressou no "instrumento 1” (de nossa autoria) as significações e percepções prévias a respeito do que seria uma comunidade e um território; 2º Encontro: Houve uma reflexão sobre as produções simbólicas e suas significações, uma reaproximação com os cenários simbolicamente (Fotos e descrição) construídos no “Instrumento 1” e a partir dele uma discussão para sua caracterização através do “Instrumento 2” (nossa autoria) 3º Encontro: É feita uma exposição dialogada com a apresentação das diferentes ferramentas possíveis de serem utilizadas para um reconhecimento territorial, na lógica do conceito ampliado de saúde e com suporte de referenciais teóricos. 4° Encontro: Baseou-se na visita a comunidade para registro de informações (Estimativa Rápida) e observações da realidade (Fotorreportagem) identificadas naquele território de saúde, através da utilização das ferramentas aprendidas (Mapeamento vivencial). 5ºEncontro: os grupos apresentam os cenários do reconhecimento territorial por eles realizados. É feito um amplo debate sobre o sentido e vivido na experiência.
3. BREVES CONSIDERAÇÕES FINAIS Inserir o Sandplay-Jogo de Areia num contexto de implantação do curso de enfermagem, especificamente de uma proposta que tem como referencial o pensamento complexo e didaticamente a Pedagogia Vivencial Humanescente, permitiu, de forma lúdica a reflexão sobre possibilidades ampliadas e criativas de expressão das concepções sobre a importância do território de saúde no planejamento do cuidado. Adaptado como uma ferramenta didática na formação em enfermagem, o Jogo de Areia mostrou-se um instrumento bastante favorável para o trabalho com alunos e professores na perspectiva de uma Pedagogia Vivencia Humanescente. Sua inserção como opção metodológica possibilitou uma vivência pedagógica que foi descrita pelos alunos e professores como uma didática prazerosa, facilitadora e motivadora do processo de aprendizagem, considerando ser uma possibilidade de expressão de seus conteúdos por uma via lúdica que oportuniza a relação imaginário-teórico-real. Pode-se afirmar que o Sandplay-Jogo de Areia é uma possibilidade didática que desencadeia movimentos corporais cognitivos, sensitivos e até contemplativos na produção do conhecimento. É a superação da aprendizagem linear, ou seja, mobilizando todas as dimensões do Ser Humano, possibilitando o vivenciar na tomada de decisão para a ação não só valorizando a razão, mas também as emoções, os sentimentos e os pensamentos.
REFERENCIAS: AMMANN. R. A Terapia do jogo de areia: imagens que curam a alma e desenvolvem a personalidade; [tradução de Mário Serpa]. 2ª Ed. São Paulo: Paulus, 2004. BRASIL. Constituição, 1988. Constituição: República Federativa do Brasil. Brasília, Senado Federal, 1988. BRASIL. Leis, etc. Decreto nº 1.232 de 30 de agosto de 1994: dispõe sobre a transferência regular de recursos do Fundo Nacional de Saúde para os Estados, municípios e Distrito Federal.
BRASIL, HumanizaSUS : Política Nacional de Humanização A Humanização como Eixo Norteador das Práticas de Atenção e Gestão em Todas as Instâncias do SUS. Textos Básicos de Saúde, Brasília – DF Ministério da Saúde, 2004. CAVALCANTI. K. B. Pedagogia vivencial humanescente. In mímeo. Natal/RN: UFRN, 2005. MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 8. ed. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2003. SCOZ. B. (org). Por uma educação com alma: A objetividade e a subjetividade nos processos de ensino/aprendizagem.Petrópolis, RJ:Vozes, 2000. SILVA, S. C. et al. A inserção do jogo de areia em contexto psicoterapêutico hospitalar em enfermaria cirúrgica: um estudo exploratório. Divisão de Psicologia, Instituto Central do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2001. VIEIRA, A. G. O brinquedo simbólico como uma narrativa. Psicologia: Reflexão e Crítica, 11(2), 1998. ZIMMERMANN, E. B. Dança meditativa e caixa de areia associadas a analise verbal como técnica facilitadora de integração de processos simbólicos. Tese de doutorado, Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, 1996.




2 comments
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Humanescência!
Uma Educação Quântica!
Vamos construir uma concepção quântica para a educação.
Que a reunião em Recife seja muito proveitosa!
Um abraço,
Katia
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