Artemisa de Andrade e Santos

BACOR - PPGED/UFRN

Edmilson Ferreira Pires

DEF- BACOR - PPGED/UFRN

Katia Brandão Cavalcanti

BACOR-PPGED/UFRN

Resumo

Este estudo é uma releitura referente ao contexto de uma Educação Estética no processo de formação e autoformação de um educador, diretor e maestro da Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte, buscando revelar momentos de sua trajetória de vida e os sentidos desta formação nos percursos vividos por sua corporeidade musical. O enfoque autopoiético corporalizada nas experiências do Maestro-Educador traz contribuições do seu envolvimento, mas também a necessidade no recriar oportunidades de contínuo crescimento pessoal e profissional. A metodologia utilizada caracteriza-se como uma abordagem autobiográfica que focaliza a História de Vida, privilegiando a temática da experiência estética. O desafio deste estudo possibilita uma relação entre o processo educativo e as experiências estéticas do Maestro-Educador para a formação e autoformação humana, considerando os momentos de ensaios como experiências de beleza, de suavidade, de tensão, de intenções e de troca. É importante destacar as experiências, as vivencialidades, as redescobertas do envolvimento corporal, a relação com o outro e a apropriação dessa corporeidade sempre em construção potencializa e valoriza a trajetória de vida do Maestro-Educador.

Palavras-chave: Formação Humana; Educação Esteticopoiética; Transdisciplinaridade; Corporeidade;

 

 

Este estudo é uma releitura referente ao contexto de uma Educação Estética entendida como processo de formação e autoformação de um educador, diretor e maestro da Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte, buscando revelar momentos de sua trajetória de vida e os sentidos desta formação nos percursos vividos por sua corporeidade musical.

O enfoque para o processo de formação e autoformação a partir das experiências do maestro-educador traz contribuições do seu envolvimento, mas também a necessidade no recriar oportunidades de contínuo crescimento pessoal e profissional.

A metodologia utilizada caracteriza-se como uma abordagem autobiográfica que focaliza a História de Vida, privilegiando a temática da experiência estética.

O Maestro-Educador é professor pertencente ao corpo docente da Escola de Música da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, sendo escolhido de forma intencional, na condição de ser professor de regência da referida instituição, além de atuar com maestria conduzindo a Orquestra Sinfônica do Estado.

Enquanto pesquisadora, discuto questões relacionadas ao envolvimento do ser em diferentes formas da prática educativa. Nessa perspectiva, considero encantador a desenvoltura no processo de formação que o Maestro-Educador pode contribuir para uma Educação Estética pautada no significado, no desejo, no sentido e no dinamismo que pressupõe mudanças e transformações que exigem novos desafios e posicionamentos deste ser.

O desafio deste estudo possibilita uma relação entre o processo educativo e as experiências estéticas do maestro-educador para a sua formação e autoformação humana, considerando os momentos de ensaios como experiências de beleza, de suavidade, de tensão, de intenções e de troca.

 

“É como a primeira dança com a pessoa apaixonada. Aliás, talvez seja essa a sensação que mais sinto: a de que vou dançar! Nessa dança devo conduzir várias pessoas, cada uma com a demanda de gesto adequada à sua necessidade” (MAESTRO-EDUCADOR, 2008).

 

Conforme o depoimento do Maestro-Educador é a partir da implicação entre o processo educativo e o fazer musical que as experiências estéticas precisam ser recriadas para serem efetivamente vividas, portanto, uma educação que contemple a sensibilidade de acordo com a diversidade humana. Por isso, dialogar sobre as experiências estéticas implica a necessidade de uma compreensão do processo de formação humana para uma Educação Estética Corporalizada, musicalizada, semeada a partir da perspectiva vivencial, existencial, ou seja, uma Educação Esteticopoiética (CAVALCANTI, 2008).

Pensar a construção do conhecimento musical a partir de uma compreensão ampla de formação e autoformação humana implica referenciar uma educação rica em sentido existencial e experiências máximas de auto-realização e autotranscendência.

 

“A primeira vez que conduzi um grupo de músicos com o gesto de regência, recordo que foi uma das experiências mais tocantes da minha vida. Não consegui pensar em outra coisa e, então, tomei uma decisão era música que eu queria fazer. Foi avassalador!” (MAESTRO-EDUCADOR, 2008).

 

Esta é uma sintonia necessária para se compreender percursos de vida dentro do conjunto de possibilidades de um ser em processo de contínua reconstrução: Uma vivência educativa que compõe e ressignifica a vida humana através do sensível, quando as emoções se entrelaçam com pautas de beleza e revelam um novo olhar sobre si, sobre a sua corporeidade.

As experiências vividas pelo Maestro-Educador trazem um repertório mediado pelo ouvir, pelo gesto, pela linguagem e pela visão que despertam o pensamento, os sentimentos, as emoções, a imaginação e a criação. De acordo com Maturana (1999), a linguagem explica toda a realização humana. Além disso, Moraes e La Torre (2002), em sintonia com Maturana (1999), enfatizam que o gesto, a fala, o som, a postura emergem no fluir recursivo de coordenações consensuais, ou seja, conversações que constituem a linguagem. Sendo estas conversações tecidas como redes de ações coordenadas pela dinâmica relacional para as realizações humanas.

A experiência estética incita o sentido de autopoiese que compreende a criação de si, constituir-se e transformar-se. Portanto, aponta para a possibilidade de um processo de formação e de autoformação poiética. Autopoiese é a condição necessária e suficiente para que um sistema vivo seja considerado vivo. A Teoria Autopoiética explica esta dinâmica de uma auto-organização que constitui a organização dos seres vivos (MATURANA e VARELA, 1980; MATURANA e REZEPKA, 2000).

É na experiência individual ou coletiva que a riqueza das percepções ordenadas pela sensibilidade do Maestro-Educador está inserida. Onde a percepção dos fenômenos estéticos é produzida pela emoção e pela sensação:

 

“O ato individual é uma totalização sintética de um sistema social [...] a narrativa de um acontecimento ou de uma vida é, por sua vez, um ato, uma totalização sintética de experiências vividas e de uma interação social” (FERRAROTTI, 1988, p. 27).

 

Byington (2004, p. 9) defende que a educação vem do sentir, “o que realmente se fixa na memória é o que se vive e precisa de emoção”. Assim, o aparente conflito entre racionalidade e emoção incorpora-se:

 

“Lidar com a música assemelha a uma tempestade que me emociona! No momento em que existe racionalidade e o emocional dentro da construção da concepção musical, não é simples precisar onde começa um ou onde termina o outro” (MAESTRO-EDUCADOR, 2008).

 

O processo de formação é assegurado pela própria experiência do Maestro-Educador, responsável por potencializar as habilidades geradoras de uma nova realidade. Nessa perspectiva, a Educação Estética aparece como eixo fundamental do processo educativo, pois compreende o cuidar da sensibilidade.

Ressaltamos que a Educação Estética apresenta-se como educação de si mesmo e de suas relações com os outros e com o mundo mediado pela beleza. Não é apenas aprender a ouvir uma música, a observar uma pintura, a dançar, mas é ser o que cada um é.

É importante destacar as experiências, as vivencialidades, as redescobertas do envolvimento corporal, a relação com o outro e a apropriação dessa corporeidade sempre em construção que potencializa e valoriza a trajetória de vida do Maestro-Educador:

 

“É fascinante o processo de formação; é dinâmica como a atividade de regência. É tentando descobrir e melhorar a ação do outro, mas na realidade está tentado é se melhorar. É onde está realmente o processo de formação e autoformação. As pessoas com a sua experiência de vida podem contribuir e tornar consciente nossas próprias ações” (MAESTRO-EDUCADOR, 2008).

 

É, portanto, no experienciar, no vivido e no estar atento ao movimento do mundo que o ser humano encontra as relações de sentido entre seus pensamentos e suas ações, tornando-se consciente de sua autopoiese, de autocriação.

Tais experiências estéticas, portanto, contribuem para uma educação ancorada na criação de si, sugerindo que o processo de formação possa depender da maneira como a consciência se organiza durante o seu desempenho, como o corpo se comporta como a atenção é focalizada e, acima de tudo, de que maneira entram em ações as imagens mentais no tocante à memorização da partitura, da construção musical e da incorporação do personagem.

Ao apropriar-se conscientemente das experiências estéticas, o Maestro-Educador se modifica e ressignifica valores formativos com coragem para transformar-se, realizar mudanças e para envolver-se em novos desafios. Neste percurso criativo, a música se revela inovadora:

 

“A música nunca se repete da mesma forma. É impossível! Apesar de buscar uma unidade de pensamento na construção do contexto musical, é preciso recriar, enfim, talvez em cada recriação da execução musical encontremos o lúdico” (MAESTRO-EDUCADOR, 2008).

 

Para Duarte Júnior (1988), a educação é um ato carregado de características lúdicas e estéticas. Com base nesta afirmação, no sentido de vivenciar, percebe-se que a experiência estética requer uma ação criativa, que compreende uma atividade intensa (DEWEY, 1949). Envolver-se nesse processo de criação é um investimento constante na autonomia, no prazer e na alegria de enfrentar os desafios e prosseguir buscando novas oportunidades para melhor representar suas habilidades como profissional e como ser humano:

“A música para mim é um enorme prazer! É preciso emocionar-se para passar por esse desafio ou jamais sairá boa coisa, então, acredito que no dia que deixar de sentir prazer em subir no palco, vou ter que realmente mudar de vida” (MAESTRO-EDUCADOR, 2008).

 

Entender a Educação Estética nessa perspectiva é revelar o processo de formação sensível, de possibilidades e de capacidade crítica.

No trilhar regencial do Maestro-Educador, constatamos experiências com a música, com o processo de formação e de autoformação que melhor exprimem as oportunidades, os sentimentos e as emoções para descrever com propriedade às experiências estéticas intensificadas pela inteireza humana, expressas em sua corporeidade.

No encontro com o Maestro-Educador e suas experiências estéticas ficou evidenciado a influência no processo de formação e o entendimento em defesa da arte para uma Educação Estética corporalizada, musical e autopoiética. Ainda é possível sonhar, sentir e construir valores que realmente auxiliem o ser humano à sua liberdade de fazer escolhas, de criar e melhorar sua existência.

Na tentativa de aproximar a vivência artística ao processo de formação do Maestro-Educador, resgatamos seus depoimentos de forma não linear e assimétrica nos diferentes percursos de sua trajetória de vida. Diante desses recortes, percebemos que o seu envolvimento com a música e a regência fortalece laços sociais e resolve conflitos intrapessoais pela via das emoções.

Este estudo mostrou o valor autopoiético da Educação Estética e a importância de se construir conscientemente as experiências estéticas para tornar possível uma formação de beleza, de plenitude e significado existencial.

Reconstruir a história de vida, valorizar as vivências, perceber a riqueza da trajetória vivida pelo Maestro-Educador são informações que constituem uma fonte diferenciada para a construção da memória do fluir com a música.

No decorrer do trabalho realizado com o Maestro-Educador, trouxemos particularidades e diferentes visões e interpretação da cumplicidade com a música e a regência. A experiência de vida do maestro-educador traduz essa unicidade entre o momento histórico, a forma peculiar de filtrar e vivenciar a sensibilidade, o prazer, o criativo, o fluxo, os conflitos, os sentimentos, os desejos e os sonhos. É pensar uma Educação Estética regida pela humanescência e pelas experiências estéticas vividas poeticamente. É repensar uma educação a partir do resgate ao processo de formação e autoformação humana capaz de provocar experiências estéticas de fluxo, significativas e transformadoras. É ir além do que se é. Portanto, poderíamos avançar para uma Educação Esteticopoiética alimentada pelo desejo de experimentar o mundo a partir das experiências estéticas.

 

Referências

BYINGTON, Carlos Amadeu B. Emocionar para Ensinar. Revista VIVER Psicologia, 134 (XII), 8-11, 2004.

CAVALCANTI, Katia Brandão. Comunicação pessoal, 8 de julho de 2008.

DEWEY, J. A arte como experiência. São Paulo: Abril Cultural, 1949. (Coleção Os Pensadores).

DUARTE JÚNIOR, João Francisco. Fundamentos estéticos da educação. 2. ed. Campinas: Papirus, 1988.

FERRAROTTI, Franco. Sobre a autonomia do método biográfico. In: Nóvoa, António; Finger, Mathias. O método (auto)biográfico e a formação. Lisboa: MS/DRHS/CFAP, 1988.

MATURANA, Humberto. A ontologia da realidade. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1999.

MATURANA, Humberto; REZEPKA, Sima Nisis de. Formação humana e capacitação. Petrópolis: Vozes, 2000.

MATURANA, H.; VARELA, F. Autopoiesis and cognition: the realization of the living. Dordrecht: Riedel, 1980.

MAESTRO-EDUCADOR. Comunicação pessoal, 22 de junho de 2008.

MORAES, M. C.; TORRE, S. L. Sentipensar bajo la mirada autopoiética o cómo reencantar creativamente la educación. Creatividad y sociedad, Universidad Autonoma de Madri, v. 02, 2002. (versão 9/4/2002).

MUNIZ NETO, José Viegas. A comunicação gestual na regência de orquestra. 2. ed. São Paulo: Annablume, 2003.

PAREYSON, Luigi. Estética: teoria da formatividade. Tradução de Ephraim Ferreira Alves. Petrópolis: Vozes, 1993.