Artemisa de Andrade e Santos

andradeesantos@yahoo.com.br

 

O enfoque para o processo de criação a partir do Jogo de Areia traz contribuições de experiências estéticas vividas por cantores que compreendem o significado da fascinante beleza de recriar o canto, o fazer musical e o reconhecimento de si mesmo para emocionar o espectador. Este reconhecer-se propicia resgatar a música como um laço de unidade entre o ser, suas experiências estéticas e suas possibilidades de criação e transformação.

Na tentativa de apontar as percepções das experiências estéticas desenvolvidas no trabalho com o grupo de cantores, o objetivo deste estudo é apresentar o Jogo de Areia como uma técnica de intervenção vivencial que pode contribuir para dar forma a essas experiências estéticas. No contexto de uma educação estética entendida como processo de criação, buscou-se aprofundar o estudo no campo musical dentro de uma proposta que aproxima às diferentes dimensões para a educação do sentimento.

Nesta investigação melódica e criativa foi utilizada uma abordagem qualitativa privilegiando a corporeidade em relação ao canto e a fruição na construção de cenários que se revelam como indicativos da subjetividade desses cantores. Os cenários do fluir no Jogo de Areia fundamentam-se no método terapêutico da psicologia analítica que trabalha o percurso de criação com miniaturas reconstruindo acontecimentos marcantes e enfatizando o envolvimento do corpo e a sua adversidade em relação ao estado desse corpo (AMMANN, 2002; KALFF, 1966).

As criações na caixa de areia com o grupo de cantores foram elaboradas por meio de uma seqüência de encontros vivenciais previamente definidos que podiam ser reformulados de acordo com a fluidez do processo. Conforme Ammann (2004: 22-23):

 

“O método do jogo de areia se baseia no princípio de que, por meio da criação com as mãos, as forças que atuam nas profundezas da alma se tornam visíveis e reconhecíveis, e que através das mãos o interior e o exterior, o espírito e a matéria se unem”.

 

O grupo de cantores é constituído por estudantes e professores que pertencem ao Madrigal da Escola de Música de uma Universidade Pública, sendo escolhido de forma intencional, na condição de serem cantores da referida instituição. Procuramos estabelecer articulação entre as informações coletadas por meio de registros fotográficos, entrevista e o referencial teórico do estudo, respondendo assim ao problema central da investigação: Como a Técnica do Jogo de Areia pode oferecer aos cantores a oportunidade para re-significar suas experiências estéticas vividas com o canto?

De modo surpreendente o Jogo de Areia exerce nuanças à criação lúdica, ao jogo, ao movimento espontâneo e à linguagem significativa da corporeidade vivida. Não apenas de um momento específico, mas das experiências estéticas com a música ao longo da vida como encontros considerados intensos e de fluxo. Tais experiências constituem atividades desafiadoras que exigem respostas apropriadas e avaliação do próprio desempenho após a ação realizada (CSIKSZENTMIHALYI, 1999).

Quanto ao movimento espontâneo que o Jogo de Areia pode provocar, compreendemos que essa dinamicidade provém de valores e processos próprios do ser humano que o impulsionam para dar forma e representar o seu mundo. De acordo com González Rey (2003: 226), a dinâmica que ocorre nesse processo “[...] se produz sempre dentro de um sistema de sentido, que é precisamente o que define sua extraordinária importância para o desenvolvimento do sujeito”.

O interesse com relação às diferentes formas de recurso expressivo como via de acesso ao simbólico e ao imaginário pode contribuir para uma educação estética pautada no significado, no desejo, no sentido e no dinamismo que pressupõe mudanças e transformações desveladas e que exigem novos desafios e posicionamentos deste ser. O aspecto vivencial deste trabalho configura-se, segundo Castro (1999: 3), como:

 

Um conhecimento e uma experiência com outros recursos que auxiliem na transformação das rotinas e ordem estabelecidas, e em oferecer às pessoas instrumentos que sejam para seu próprio uso, permitindo crescimento pessoal, autonomia, interação social e a inclusão cultural.

 

Trata-se, portanto, não apenas de uma concepção do significado de um determinado símbolo, mas a sua possibilidade de veicular uma experiência, ou seja, uma vivência (SAFRA, 1999: 23).

Assim, a forma simbólica apresentada no Jogo de Areia se materializa facilitando o contado emocional e real dos cantores com as experiências estéticas vividas, estruturando o reconhecimento e o significado enquanto ser humano musical e criativo. Diante deste reconhecimento, a partir dos sentidos e dos simbolismos, ou seja, de forma não-verbal, acrescenta Langer (1979: 106) que “amplia a nossa concepção de racionalidade para muito além das fronteiras tradicionais [...] o próprio sentimento precisa de algum modo participar do conhecimento e entendimento”.

Quanto às experiências estéticas dos cantores investigados, reconhecemos como Vasquez (1978), ser uma forma específica de relação humana com o mundo, sem restrição e importante para o desenvolvimento de qualquer sujeito. Acrescenta Mendonça (2006), “A experiência estética não se desvincula das experiências individuais e coletivas dos sujeitos, é reverberada no cotidiano”.

De fato, o canto compreende uma ação possível de promover a auto-realização do cantor, de um ser em processo de contínua reconstrução do sensível movido pela intencionalidade. Por intencionalidade entendemos como Husserl (1986) que pressupõe congregar o sujeito com o objeto de maneira que a consciência deve estar no mundo e não apartada dele. Cantar proporciona uma vivência educativa que integra e ressignifica à vida humana por meio do sensível, quando as emoções se entrelaçam com pautas de beleza e revelam um novo olhar à sua corporeidade. Para Schiller (1995:131), “A beleza é certamente obra da livre contemplação, e com ela penetramos o mundo das idéias”.

Mas que essa “livre contemplação” possa incitar o sentido de autopoiese que compreende a criação de si, constituir-se e transformar-se (MATURANA e VARELA, 1980; MATURANA e REZEPKA, 2000). Portanto, aponta para a possibilidade de um processo de transformação em que a emoção, de certo modo, ganha forma especial na vivência com o Jogo de Areia. Santos (2007) descreve esta experiência da seguinte maneira:

 

“A experiência estética é capaz de criar interações transformadoras e reflexivas. Implica compreender a recepção prazerosa do objeto estético com um olhar intensificado, sensível capaz de conduzir ao fluxo”.

 

Quando se cria artisticamente ou tornamos algo significativo, explica Pitta (2005), “corpo, alma, sentimentos, sensibilidade, emoções são impulsos oriundos do ser completo”. Trazemos Heidegger (1991:27) para argumentar que “as criações artísticas são expressões dessa trama de significados tecida no contato do homem com o mundo”. Reconstruir as experiências estéticas, valorizar as vivências, perceber a riqueza dos cenários na caixa de areia são informações que constituem uma fonte diferenciada para a construção da memória do fluir com a música. Segundo Galeffi (2006:3), somos seres estéticos diferentes e, desta forma, a educação estética é orientada pela “multiplicidade da potência humana e não pela uniformidade de suas modulações”.

Experimentar uma nova emoção ao cantar é muito especial porque essas emoções estão associadas às experiências estéticas que surgem e permanecem sem forma ou não-constituídas pelo cantor. Assim, o trabalho realizado com o Jogo de Areia trouxe forma para essas emoções, particularidades, diferentes olhares e interpretação da cumplicidade com a música, propiciando um processo significativo de transformação e de reconhecimento da potencialidade humana. Fato que modifica e reconsidera a importância de ampliar vivências a cada encontro estabelecido com o grupo de cantores. Nessa perspectiva, a vivência continuou com entusiasmo, pois a intensificação do sentimento em poder partilhar as experiências de cada um, mobilizou a dinâmica da atividade para facilitar a relação vivencial com o que é prazeroso, criando condições do fluir no jogo ao jogar.

A entrega aos desafios do Jogo de Areia aflora um envolvimento capaz de transformar e de sensibilizar quem joga, traduz uma unicidade entre o momento vivido para a forma peculiar de filtrar a sensibilidade, o prazer, o criativo, o fluxo, os conflitos, os sentimentos, os desejos e os sonhos. Percebe-se a força desse envolvimento na alteração da respiração, na modificação das cores, no brilho da voz, no sorriso espontâneo, nas expressões faciais e na dança das mãos ao falar. Desse modo, os cantores cantam no mundo de acordo com as suas experiências vividas. Criam e ampliam os espaços em que convivem com outras pessoas, repensam uma educação estética a partir do resgate do processo de transformação de si.

Podemos afirmar que o Jogo de Areia ofereceu aos cantores um momento de reconstrução de suas experiências estéticas envolvendo diferentes formas de contato consigo e com o mundo. Entendemos que a prontidão de todos os cantores ao jogar faz emergir do corpo uma linguagem expressiva e de inteireza humana própria, expandindo a corporeidade e dando significado ao outro. Esse trabalho buscou aprofundar o estudo no campo musical dentro de uma proposta que aproxima a Educação Estética às diferentes dimensões da Educação do Sentimento, integrando emoção, sensações, linguagem corporal, sentimentos e imaginação. Consideramos esse processo conectado com o criativo, o campo musical e com a educação estética. A força desta proposta consiste essencialmente na harmonia de experiências marcantes, sistemáticas e fundamentadas no vivido para viabilizar no Jogo de Areia o fluir de cenários criativos de experiências estéticas dos cantores. Para Duarte Jr. (2002), quando acontece a experiência estética, seja num evento musical, dança ou teatro, “retornamos àquela percepção anterior à percepção condicionada pela discursividade da linguagem”.

Diante dos recortes inspirados no Jogo de Areia vivido pelos cantores é necessário destacar o estudo no campo musical motivando o reconhecimento vivencial na percepção, nas experiências estéticas e no significado da criação sensível dos investigados. Compreendemos que o Jogo de Areia desperta e resgata valores enlaçados ao sentimento de liberdade do jogo íntimo e imagético. A experiência com o Jogo de Areia mobilizou o sentido de religação da vida e da alegria de viver.

A riqueza nos momentos de criação transforma a nossa própria experiência de cantora e pesquisadora aprofundando a percepção para a expressividade da emoção em conduzir grupos com vivências expressivas. Os cenários construídos na caixa de areia revelaram o mundo re-significado, o olhar fascinado pelo colorido das miniaturas, portanto, cenários que configuram o fluir da criação a partir das experiências estéticas do grupo de cantores. Consideramos que o Jogo de Areia transforma valores e faz emergir sonhos, fantasias, imaginações e realidade, aflorando o lúdico e o criativo para as diferenças internas e para a relação com o mundo.

 

Referências

 

AMMANN, Ruth. A terapia do jogo de areia: imagens que curam a alma e desenvolvem a personalidade. Tradução Marion Serpa. São Paulo: Paulus, 2002.

_________. A Terapia do Jogo de Areia: imagens que curam a alma e desenvolvem a personalidade. Tradução Marion Serpa. São Paulo: Paulus, 2004.

CSIKSZENTMIHALYI, Mihaly. A psicologia da felicidade. São Paulo: Saraiva, 1992.

_________. Contexts of optinal growth in childhood. Daedalus, 1993.
_________. The evolving self: A psychology for the third millennium. New York: Harper Collins, 1993.

_________. Creativity. New York: HarperCollins, 1996.

_________. Creativity: Flow and the psychology of discovery and invention. New York: Harper Perennial, 1997.

_________. A descoberta do fluxo: a psicologia do envolvimento com a vida cotidiana. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

CASTRO, Paulo Teixeira. Vibrações de Luz e Som. (artigo de revisão bibliográfica; no prelo), 1999.

GALLEFFI, Dante. Estética e Formação Docente: uma compreensão implicada. Artigo. Disponível em < http://www.faced.ufba.br/rascunho_digital/textos/275.htm>

DUARTE JÚNIOR, J. F. Educação Estética, ou a Educação do Sensível. In: 16º Seminário Nacional de Arte e Educação, 2002. Montenegro, RS. Anais do 16º Seminário Nacional de Arte e Educação, 2002.

GONZÁLEZ-REY, Fernando. Sujeito e subjetividade. São Paulo: Thomson, 2003.

HEIDEGGER, Martin. Carta Sobre o Humanismo. Trad. Rubens Eduardo Frias. São Paulo: Editora Moraes, 1991.

HUSSERL, E. A idéia da fenomenologia. Lisboa: Ed. 70, 1986.

Kalff, D. Sandplay: A psychotherapeutic approach to the psyche. Santa Monica, CA: Sigo Press, 1980.

LANGER, Susanne K. Ensaios filosóficos. São Paulo: Cultrix, 1971.

MATURANA, Humberto. A ontologia da realidade. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1999.

MATURANA, H; NISIS, S. Formación humana y capacitación. Santiago: Dólmen ediciones, 1997.

MATURANA, Humberto; REZEPKA, Sima Nisis de. Formação humana e capacitação. Petrópolis: Vozes, 2000.

MATURANA, H.; VARELA, F. Autopoiesis and cognition: the realization of the living. Dordrecht: Riedel, 1980.

PITTA, Danielle Perin Rocha. Iniciação à teoria do imaginário de gilbert durand. Rio de Janeiro: Atlântica Editora, 2005.

SAFRA, G. A face estética do self. São Paulo: Ed. Unimarco, 1999.

SCHILLER, Friedrich. A educação estética do homem. São Paulo: Editora Iluminuras, 1995.

VASQUEZ, Adolfo Sanchez. Ética. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.