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PEDAGOGIA DA AUTONOMIA...capt.: 3.9

October 16, 2009, by Maria Auxiliadora de Medeiros - 2 comments

“ENSINAR EXIGE QUERER BEM AOS EDUCANDOS” Paulo Freire… Livro:PEDAGOGIA DA AUTONOMIA…capt.: 3.9

“E o que dizer, mas, sobretudo que esperar “E o que dizer, mas, sobretudo que esperar de mim, se, como professor, não me acho tomado por este outro saber, o de que preciso estar aberto ao gosto de querer bem, à coragem de querer bem aos educadores e à própria prática educativa de que participo. Esta abertura ao querer bem não significa, na verdade, que porque professor me obrigo a querer bem a maneira que tenho de autenticamente selar o meu compromisso com os educandos, numa prática específica do ser humano. Na verdade, preciso descartar como falsa a separação radical entre seriedade docente e afetividade. Não é certo, sobretudo do ponto de vista democrático, que serei tão melhor professor quanto mais severo, mais frio, mais distante e “cinzento” me ponha nas minhas relações com os alunos, no trato dos objetos cognoscíveis que devo ensinar. A afetividade não se acha excluída da cognoscibilidade. O que não posso obviamente permitir é que minha afetividade interfira no cumprimento ético de meu dever de professor no exercício de minha autoridade. Não posso condicionar a avaliação do trabalho escolar de um aluno ao maior ou menor bem querer que tenha por ele. A minha abertura ao querer bem significa a minha disponibilidade à alegria de viver. Justa alegria de viver, que, assumida plenamente, não permite que me transforme num ser “adocicado” nem tampouco num ser arestoso e amargo. A atividade docente de que a discente não se separa é uma experiência alegre por natureza. É falso também tomar como inconciliáveis seriedades docentes e alegria, como se a alegria fosse inimiga da rigoridade. Pelo contrário, quanto mais metodicamente rigoroso me torno na minha busca e na minha docência, tanto mais alegre me sinto e esperançoso também. A alegria não chega apenas no encontro do achado, mas faz parte do processo da busca. E ensinar e aprender não pode dar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria. O desrespeito à educação, aos educandos, aos educadores e às educadoras corrói ou deteriora em nós, de um lado, a sensibilidade ou a abertura ao bem querer da própria prática educativa de outro, a alegria necessária ao que fazer docente. É digna de nota a capacidade que tem a experiência pedagógica para despertar, estimular e desenvolver em nós o gosto de querer bem e o gosto da alegria sem a qual a prática educativa perde o sentido. É esta força misteriosa, às vezes chamada vocação, que explica a quase devoção com que a grande maioria do magistério nele permanece, apesar da imoralidade dos salários. E não apenas permanece, mas cumpre, como pode, seu dever. Amorosamente, acrescento. Mas é preciso, sublimo, que, permanecendo e amorosamente cumprindo o seu dever, não deixe de lutar politicamente, por seus direitos e pelo respeito à dignidade de sua tarefa, assim como pelo zelo devido ao espaço pedagógico em que atua com seus alunos. É preciso, por outro lado, reinsistir em que não se pense que a prática educativa vivida com afetividade e alegria, prescinda da formação científica séria e da clareza política dos educadores ou educadoras. A prática educativa é tudo isso: afetividade, alegria, capacidade científica, domínio técnico a serviço da mudança ou, amentavelmente, da permanência do hoje. É exatamente esta permanência do hoje neoliberal que a ideologia contida no discurso da “morte da História” propõe. Permanência do hoje a que o futuro desproblematizado se reduz. Daí o caráter desesperançoso, fatalista, antiutópico de uma tal ideologia em que se forja uma educação friamente tecnista e se requer um educador exímio na tarefa de acomodação ao mundo e não na de sua transformação. Um educador com muito pouco de formador, com muito mais de treinador, de transferidor de saberes, de examinador de destrezas. Os saberes de que este educador “pragmático” necessita na sua prática não são os de que venho falando neste livro. A mim não me cabe falar deles, os saberes necessários ao educador “pragmático” neoliberal, mas, denunciar sua atividade anti-humanista. O educador progressista precisa estar convencido como de suas conseqüências é o de ser o seu trabalho uma especificidade humana. Já vimos que a condição humana fundante da educação é precisamente a inconclusão de nosso ser histórico de que nos tornamos conscientes. Nada que diga respeito ao ser humano, à possibilidade de seu aperfeiçoamento físico e moral, de sua inteligência sendo produzidos e desafiados, os obstáculos o seu crescimento, o que possa fazer em favor da boniteza do mundo como de seu enfeamento, a dominação a que esteja sujeito, a liberdade por que deve lutar nada que diga respeito aos homens e às mulheres pode passar despercebido pelo educando progressista. Não importa com que faixa etária trabalhe o educador ou a educadora. O nosso é um trabalho realizado com gente, miúda, jovem ou adulta, mas gente em permanente processo de busca. Gente formando-se, mudando, crescendo, reorientando-se, melhorando, mas, porque gente, capaz de negar os valores, de distorcer-se, de recuar, de transgredir. Não sendo superior nem inferior a outra prática ‘profissional, a minha, que é a prática docente, exige de mim um alto nível de responsabilidade ética de que a minha própria capacitação científica faz parte. É que lido com gente. Lido, por isso mesmo, independentemente do discurso ideológico negador dos sonhos e das utopias, com os sonhos, as esperanças tímidas, às vezes, mas às vezes, fortes, dos educandos. Se não posso, de um lado, estimular os sonhos impossíveis, não devo, de outro, negar a quem sonha o direito de sonhar. Lido com gente e não com coisas. E porque lido com gente, não posso, por mais que, inclusive, me dê prazer entregar-me à reflexão teórica e crítica em torno da própria prática docente e discente, recusar a minha atenção dedicada e amorosa à problemática mais pessoal deste ou daquele aluno ou aluna. Desde que não prejudique o tempo normal da docência, não posso fechar-me a seu sofrimento ou à sua inquietação porque não sou terapeuta ou assistente social. Mas sou gente. O que não posso, por uma questão de ética e de respeito profissional, é pretender passar por terapeuta. Não posso negar a minha condição de gente de que se alonga, pela minha abertura humana, certa dimensão terápica. Foi convencido disto que, desde jovem, sempre marchei de minha casa para o espaço pedagógico onde encontro os alunos, com quem comparto a prática educativa. Foi sempre como prática de gente que entendi o que fazer docente. De gente inacabada, de gente curiosa, inteligente, de gente que pode saber, que pode por isso ignorar, de gente que, não podendo passar sem ética se tornou contraditoriamente capaz de transgredí-la. Mas, se nunca idealizei a prática educativa, se em tempo algum a vi como algo que, pelo menos, parecesse com um que fazer de anjos, jamais foi fraca em mim a certeza de que vale a pena lutar contra os descaminhos que nos obstaculizam de ser mais. Naturalmente, o que de maneira permanente me ajudou a manter esta certeza foi a compreensão da História como possibilidade e não como determinismo, de que decorre necessariamente a importância do papel da subjetividade na História, a capacidade de comparar, de analisar, de avaliar, de decidir de romper e por isso tudo, a importância da ética e da política. É esta percepção do homem e da mulher como seres “programados, mas para aprender” e, portanto, para ensinar, para conhecer, para intervir, que me faz entender a prática educativa como um exercício constante em favor da produção e do desenvolvimento da autonomia de educadores e educandos. Como práticas estritamente humanas jamais puderam entender a educação como uma experiência fria, sem alma, em que os sentimentos e as emoções, os desejos, os sonhos devessem ser reprimidos por uma espécie de ditadura reacionalista. Nem tampouco jamais compreendi a prática educativa como uma experiência a que faltasse o rigor em que se gera a necessária disciplina intelectual. Estou convencido, porém de que a rigosidade, a séria disciplina intelectual, o exercício da curiosidade epistemológica não me faz necessariamente um ser malamado, arrogante, cheio de mim mesmo. Ou, em outras palavras, não é a minha arrogância intelectual a que fala de minha rigorosidade científica. Nem a arrogância é sinal de competência nem a competência é causa de arrogância. Não nego a competência, por outro lado, de certos arrogantes, mas lamento neles a ausência de simplicidade que, não diminuindo em nada seu saber, os faria gente melhor. “Gente mais gente.”



TERCEIRO ENCONTRO VIVENCIAL

October 16, 2009, by Maria Auxiliadora de Medeiros - No comments yet

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO LINHA DE PESQUISA: CORPOREIDADE E EDUCAÇÃO PPE0452ATELIÊ DE PESQUISA: ABORDAGENS METODOLÓGICAS PARA REENCANTAR A EDUCAÇÃO – Turma: 01 (2009.2)

TERCEIRO ENCONTRO VIVENCIAL EDUCADOR: “AMOROSO”

MARIA AUXILIADORA DE MEDEIROS

NATAL/RN 2009 EDUCADOR: “AMOROSO” Segundo Saint-Exupéry o essencial ao humano é invisível aos olhos, com essa frase inicio o relato do terceiro encontro vivencial do Ateliê de Pesquisa: Abordagens Metodológicas para Reencantar a Educação. Como explicar a energia que atraiu os 06 pesquisadores para compor o grupo? Como explicar a sintonia vivenciada pelo grupo? Como explicar a interação, o cuidado e o afeto que o grupo apresentou uns com os outros? Basicamente, são questões que dispensam respostas, pois o essencial ao humano é invisível aos olhos. Nessa sintonia, iniciamos a atividade que norteou a manhã, a partir dos relatos escritos das aulas anteriores (04 relatórios), fazendo um CHECK LIST na qual pontuaríamos os aspectos descritivos dos cenários construídos pelos 06 participantes do grupo. Em 03 listas distintas, identificaríamos os seguintes aspectos: A- O querer bem na vida pessoal, B- O querer bem na vida profissional, C- As condições criadas para o querer bem pessoal. Trabalhar com as produções dos colegas seria se mal direcionado, uma atividade difícil de concretizar. Entretanto essa atividade proporcionou prazer, alegria, vida ao ser desenvolvida, sentimentos que foi partilhado com todos do grupo. Entre risos e devaneios, foi criado o personagem que chamasse “Sr. Amoroso”, esse personagem possui caracteristicas que contemplou os 06 representantes do grupo, a proposta sugeria uma narrativa em grupo a partir dos aspectos formadores do eixo norteador que gerou o personagem (CHECK LIST) e com essa narrativa vislumbrada, elaborou-se uma apresentação de movimentação coreográfica. Assim seria a atividade da manha, iniciaríamos o trabalho com o grupo no momento vivencial e a posteriore encontraríamos (os participantes do grupo) para dar encaminhamento a narrativa. O grupo foi formado por Hunna Way, Lígia, Jean, Viviane, Edileuza e eu (Auxiliadora), na construção do CHECK LIST ficou evidenciado a sintonia de pensamentos quando o grupo apresentou a partir da subjetividade ou pelas descrições imagéticas, os aspectos referentes a cada listagem, mesmo com nomes diferenciados, o sentido era basicamente o mesmo ou completava a idéia. Busca de fazer, vivenciar, intencional, natureza, cuidado, amorosidade, alegria de viver, relação interpessoal, simplicidade, determinação, novas maneiras de comportamento, afetividade, ousadia, linguistica, cognição, enfim, fluia a sintonia de idéias e o grupo em meio a diversidade (alguns se conheciam e outros não), consolidava a união que o trabalho em grupo requer para ter êxito. Ao finalizarmos o CHECK LIST e criarmos o personagem Sr. Amoroso que é um educador com caracteristicas pessoal tais: alegre, aberto, atencioso, atento a escuta, estimulador, curioso, amoroso, ousado, solidário, acolhedor, provocativo e perceptivo. Vislumbramos nele um educador alegre, esperançoso como afirma Freire : Há uma relação entre a alegria necessária à atividade educativa e a esperança. A esperança de que professor e alunos juntos podemos aprender, ensinar, inquietar-nos, produzir e juntos igualmente resistir aos obstáculos à nossa alegria. Na verdade, do ponto de vista da natureza humana, a esperança não é algo que a ela se justaponha. A esperança faz parte da natureza humana (PAULO FREIRE, 1996, p. 72).

O educador no seu ato de ensinar deve ser alegre e transmitir esperança para seus alunos como sendo a esperança algo que faz parte da natureza humana, é importante mostrar que pode haver uma mudança em suas vidas através do conhecimento, da alegria e da esperança. O educador “Amoroso” esta aberto para ouvir o outro, respeita as particularidades dos educandos, percebe que cada um é único, dispensando a idéia da massificação do ser, o educador “Amoroso” sabe que o melhor ensinamento é apresentado pela vivência pessoal, pois só as palavras, sem exemplos reais, se perdem no tempo. Morales (2006 p.29), afirma que a prática educativa, o educador e o educando devem estar abertos ao diálogo, o educador deve estar aberto ao novo, pois ele não é dono de toda verdade e nem detentor de toda sabedoria, é preciso reconhecer que somos limitados de toda verdade e de todo conhecimento e que vivemos em um círculo de cultura, círculo este que exige uma relação de igualdade e reciprocidade, relação esta que deve ser medida e limitada e que é de fundamental importância para a prática docente. A movimentação coreográfica teve inicio com a fala da professora/pesquisadora Edileuza, a mesma alerta que para ser um educador “Amoroso” o mesmo necessita de raízes da terra e nada mais justo que resgatarmos nossas raízes indigenas para representar o educador que será narrado em movimentos e escrita. Sendo assim, a dança escolhida para representar o educador “Amoroso” passa pelo processo da introspecção, ou seja o auto-exame dos pensamentos, impressões, sentimentos próprios e consciência; observação e análise dos processos da própria mente que levou a considerar que uma dança circular indígena significaria ou apresentaria o momento pelo qual estávamos vivenciando. O processo de criação dos passos, bem como a sonorização da música, foi algo que surgiu em rápida sintonia do grupo, para o ensaio, uma dica era o bastante para que o grupo assimilasse a ação. As idéias se complementavam, e em pouco tempo tínhamos a coreografia produzida. A música de fato foi algo que muito chamou a minha atenção, pois quando criança gostava de escrever em códigos e brincar com as letras. De repente me vejo brincando novamente com as letras, já que a criação da música consiste em recitar as vogais do nome. A dança circular consistia em ficarmos ajoelhados sobre uma manta, na qual a mesma representava a proteção da Mãe – Terra para conosco ou a segurança uterina, um a um, cada componente da dança circular projetava-se e chamava as vogais do próprio nome por 03 vezes para que o mesmo ecoasse, assim depositávamos no planeta nossa energia (alusão ao nascimento), após recitarmos as vogais dos nomes, voltávamos para proteção da manta. Com o recital individual finalizado, deu-se inicio ao recital coletivo, todos do grupo chamavam as vogais do nome em alusão as busca que a vida nos propicia, no momento dos chamados, o grupo deslocava-se em movimentos circulares sincronizados (03 passos para a direita e 03 passos para a esquerda), o grupo posicionou-se de pé, de costas para os componentes do mesmo e de frente para o mundo, pois no momento não era de busca coletiva, era o momento da construção de identidade. Por fim, o grupo vira o corpo para o centro e une os braços direito, ainda segurando a manta, e com o braço esquerdo colocado em forma de concha na orelha esquerdo vai lentamente recita as vogais em solfejo e agachando-se, e segue acomodando as cabeças nos ombros dos companheiros e silenciando o solfejo. CONSIDERAÇÕES FINAIS Consideramos que para o bom desenvolvimento de uma atividade, necessariamente deverá ter por trás um ótimo direcionamento, assim se deu o desenvolvimento e resultado do terceiro momento vivencial. A sincronicidade do grupo, o empenho, dedicação e liberdade fizeram com que aquele momento atingisse o cume de uma experiência positiva em minha vida. Essa vivencia para mim foi significativa, prazerosa e alegre, sentir inclusa na teia da vida através da ludicidade, criatividade e sensibilidade é algo novo desafiador, porém encantador. Entender a interdependência ecológica significa entender relações. Isto determina as mudanças de percepção que são características do pensamento sistêmico – das partes para o todo, de objetos para relações, de conteúdos para padrão. Uma comunidade humana sustentável está ciente das múltiplas relações entre seus membros. Nutrir a comunidade significa nutrir essas relações (CAPRA, 1996, p. 232). Pautada nessa percepção, considero válidos os resgates que fazemos em busca de nossas raízes, em busca de nosso ser, conhecer para mudar, mudar para conhecer, esse trocadilho nos favorece a reflexão do pensamento sistêmico que nos permiti mudar em quanto é tempo.

REFERÊNCIAS CAPRA, A Teia da Vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. Tradução Newton Roberval Eichemberg. São Paulo: Cultrix, 1996. 256 p. Título Original: the web of life: a new scientific understanding of living systems. FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. MORALES, Pedro. A relação professor-aluno. o que é, como se faz: Tradução Gilmar Saint’Clair Ribeiro. 6ª ed. São Paulo. Loyola, 2006. SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. O Pequeno Príncipe. 48. ed. Trad. Dom Marcos Barbosa. Rio de Janeiro: Agir, 2006.



RELATÓRIO DO MOMENTO VIVENCIAL INDIVIDUALIZADO

October 15, 2009, by Maria Auxiliadora de Medeiros - No comments yet

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO – PPGED

ATELIÊ DE PESQUISA: ABORDAGENS METODOLÓGICAS PARA CORPORALIZAR A EDUCAÇÃO

RELATÓRIO DO MOMENTO VIVENCIAL INDIVIDUALIZADO

COMO ESTOU CRIANDO AS CONDIÇÕES PARA A MINHA AUTOFORMAÇÃO HUMANESCENTE?

MARIA AUXILIADORA DE MEDEIROS

NATAL/RN 2009 COMO ESTOU CRIANDO AS CONDIÇÕES PARA A MINHA AUTOFORMAÇÃO HUMANESCENTE? MARIA AUXILIADORA DE MEDEIROS Resumo Este relatório tem como objetivo responder ao questionamento: COMO ESTOU CRIANDO AS CONDIÇÕES PARA A MINHA AUTOFORMAÇÃO HUMANESCENTE? Para auxiliar nas reflexões recorremos alguns teóricos que respaldaram a idéia apresentada no texto, a partir das filosofias por estes defendidas, tais: Paulo Freire, Humberto Maturana, Edgar Morin. Por meio do jogo de areia (sandplay), nos foi possibilitado à reflexão sobre a pergunta acima citada e consequentemente respondida em um cenário composto de miniaturas (representação interna do mundo), areia, pensamentos e sentimentos que emergiram com a construção do mesmo. Esta ação transcorreu no interior de nossos lares com alcance intrapessoal. Assim, o jogo de areia constituído enquanto ação ludopoiética possibilitou um ir e vir de analises e reflexões sobre o fazer e ser humanescente. Palavras-Chave: Brincar – Reflexão – Resposta – Sentimento – Subjetividade

Introdução

COMO ESTOU CRIANDO AS CONDIÇÕES PARA A MINHA AUTOFORMAÇÃO HUMANESCENTE? Essa pergunta deu encaminhamento para a 2ª atividade do Ateliê de pesquisa em Corporeidade, Ludicidade e Educação, esta seria realizada em um momento vivencial não presencial e individual a ser desenvolvida em nossos respectivos lares. Objetivando auxiliar na investigação para possíveis respostas, foi solicitada a construção por meio do Sandplay – jogo de areia, um cenário que possibilitasse a autoreflexão por meio da ludicidade, criatividade e sensibilidade. O sandplay – Jogo de Areia possui o cunho metodológico que favorece nos processos investigativos, bem como nas intervenções educacionais, sendo esse a ferramenta adequada para utilizarmos no processo reflexivo que a pergunta exige. O sandplay – Jogo de Areia é utilizado pelos alunos/pesquisadores da Linha de Pesquisa Corporeidade e Educação de Pós-Graduação em educação da UFRN em meio a outras metodologias vivenciais. Segundo Maturana e Verden-Zoller (2004, p. 245 apud CAVALCANTI, 2008): “o jogo da areia traz uma possibilidade de beleza para a formação humana Ludopoiética. Nesse jogo, “Amar e brincar” como fundamento do humano não pode cair no esquecimento”. A pergunta desencadeia uma série de análises que fomenta um pensar do passado em detrimento ao futuro. Nesse percurso passamos por vários pontos que até então estavam adormecidos em nossos pensamentos. Como disse Saint Exupéry: ” O que é importante não se vê…” Sendo assim, sentir seria o primeiro passo para responder ao questionamento da aula, deixar os pensamentos aflorarem, permitir-se chorar, rir, cantar. Reconhecer que castramos nossos sentimentos em função de uma coletividade que impõem regras e tabus em nossos pensamentos, sentimentos e ações. Ditando o que devemos pensar, fazer e ser. O espaço físico escolhido para construção do cenário foi intencional, pois nele são depositados os momentos de descontração, conversas, criação e reflexão. Consideramos a área de serviços o local mais agradável entre os cômodos, não sabemos bem explicar o motivo, pode ser o fato de ser um espaço amplo, aberto, entrada dos mais íntimos no interior do mesmo. O fato consiste que no momento da construção do cenário, todo o material estava disposto no local, algo que inconsciente.

Auto Formação Humanescente: descobrir-se num mar de emoções

O jogo de areia é uma atividade que “cria e que recria a vida a partir de imagens, de cenários vivos e vividos pela imaginação, revelando sutilezas profundas da subjetividade humana” (CAVALCANTI, 2008, P.14). Nessa perspectiva construímos o cenário com o jogo de areia para responder o questionamento (Ver Fotos 01 a 12). O cenário foi construído em uma bandeja plástica com areia e miniaturas de objetos que tomam significados próprios no momento da criação. Para responder a pergunta se fez necessário a criação de 06 (seis) mim cenários, todos interligados por relações que surgiam a partir das lembranças e reflexões no momento do manuseio dos objetos. Para entender melhor os cenários serão descritos e indicados em fotografias, tais:

1º Cenário: Violetas em um jarro na parte central inferior da bandeja (Ver Foto 06). Segundo a cromoterapia a cor lilás é uma cor metafísica. É também a cor da alquimia e da magia. Ela é vista como a cor da energia cósmica e da inspiração espiritual. É excelente para purificação e cura dos níveis físico, emocional e mental. Ajuda a encontrar novos caminhos para a espiritualidade e a elevar nossa intuição espiritual. Traz poderes mentais, evolução. Embasada nessa teoria, iniciamos um momento de viajem pessoal em busca do eu perdido, por meio de emoções e reflexões. Assim tivemos inicio com as análises referentes às condições criadas para autoformação humanescente. Reconhecer/Avaliar os erros e acertos direcionando-os para um fluir de energia positiva na tentativa de uma evolução pessoal.

2º cenário: Flores vermelhas no canto inferior esquerdo da bandeja (Ver Foto 07) A cor vermelha simboliza o fogo, o calor, a saúde, o calor do sangue, a nobreza, a audácia, a impulsividade, as paixões, a sexualidade. Traduz a agressividade, a ação, a conquista, a liderança, a atividade. Entretando ao posicionar as flores em um recuo de canto na bandeja, ficou visivel a repressão, o inibir desse conjunto de vitalidade.

3º Cenário: Os anjos da música em um chão coberto por flores azuis (Ver Foto 08). Nesse cenário a sencibilidade é enaltecida, a arte, a criatividade, o belo, o pético é despertado e recebido com chuva de flores para comemorar a volta desse sentimento que até então estava esquecido.

4º Cenário: As bolinhas de gude ao centro da bandeja (Ver Fotos 06, 07 e 09). A representatividade das mesmas tem o intuito de demonstrar a beleza que existem no interior de cada um de nós. Muitas vezes não nos percebemos enquanto diferentes e relativizamos o grupo como sendo todos iguais, não usamos os olhos do coração para ver as particularidades de cada um e nem a nossa beleza interior. 5º Cenário: Um coração vermelho amparado por duas corujas musicistas, um chão de pedras e sementes (Ver Foto 13). Para construir esse cenário, foi difícil adentrar no coração e vivenciar momentos que refletiam boas e más lembranças. As corujas musicistas representam a necessidade da sensibilidade para por de pé os sentimentos, as sementes são as esperanças lançadas em terreno fértil, e as pedras são os impecílios que vivenciamos e são tão importantes para o amadurecimento do ser, tornando a terra dos nossos sentimentos adubada para a próxima plantação.

6º Cenário: Uma caixinha de papel com 02 galinhas d’água dentro da mesma nadando em sentidos opostos e uma por entrar. Nessa representatividade temos as buscas por aprimoramento pessoal, nadando num lago de expectativas, sentimentos, desejos, angústias, medos, alegrias e paixões. Possibilitando assim, uma analise reflexiva pessoal para descobrir, redirecionar e aprimorar a busca pela humanescencia.

Segundo o Artigo 5 da Carta da transdiciplinaridade: “ A visão transdiciplinar é completamente aberta pois, ela ultrapassa o domínio das ciências exatas pelo seu diálogo e sua reconciliação não somente com as ciências humanas, mas também com a arte, a literatura, a poesia e a experiência interior”. Nesse respaldo foi direcionado o relato, em possibilidades de reconciliação do eu interior com o eu exterior, favorecendo boa condição para autoformação humanescente.

Considerações Finais Segundo o Artigo 13 da Carta Transdiciplinar (1994):

Crio melhores condições para minha autoformação humanescente quando inicialmente percebo-me um sujeito passivo a falhas, e em eterna construção. Então, as cobranças internas amenizam me proporcionando um olhar diferenciado para as falhas cometidas para comigo e para com os outros, me autorizando errar de vez por outra. Reconhecendo que esses erros me ajudam, me ensinam, me favorecem e a partir dos mesmos, posso redirecionar idéias, ações e sentimentos.

A ética transdisciplinar recusa toda atitude que recusa o diálogo e a discussão, seja qual for sua origem – de ordem ideológica, científica, religiosa, econômica, política ou filosófica. O saber compartilhado deverá conduzir a uma compreensão compartilhada baseada no respeito absoluto das diferenças entre os seres, unida pela vida comum sobre uma única e mesma Terra.

Sendo assim, crio condições para minha autoformação humanescente quando permito expor sentimentos sem medo, sem tabus, sem o olhar da repressão social (juiz impiedoso) que nos impõem um papel severo e sem sentimentos, sem sonhos ou anseios. Crio condições para minha autoformação humanescente quando permito meu eu/self aflorar, sentir e viver livre das amaras impostas a ele.
Concluímos a partir do escrito de Saint-Exupéry que nos diz:

As pessoas vêem estrelas de maneira diferente. Para aqueles que viajam, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes. Para os sábios, elas são problemas. Para o empresário, eram ouro (SAINT-EXUPÉRY,2006, p. 87).

A subjetividade humana enriquece a diversidade, transformando o monótono em alegre, colorido e lúdico. Auxilia na compreensão do mundo enquanto patrimônio da humanidade. Exerce o respeito para a dignidade humana, focando o melhor de cada um, a pluralidade de idéias.

Referências

CAVALCANTI, Kátia Brandão. Jogo de Areia e transdisciplinaridade: desenvolvendo abordagens ludopoiéticas para a educação e a pesquisa do lazer. Revista Licere, vol. 11 (3), 2008b.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 28. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

FREITAS, Lima de; MORIN, Edgar; NICOLESCU, Basarab. Carta da Transdisciplinaridade, Arrábida,Portugal, 1994.

MATURANA, Humberto e VERDEN-ZÖLLER, Gerda. Amar e brincar. Fundamentos esquecidos do humano. Trad. Humberto Mariotti e Lia Diskin. São Paulo: Palas Athena, 2004.

MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 6. ed. São Paulo, Cortez, 2002.

SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. O Pequeno Príncipe. 48. ed. Trad. Dom Marcos Barbosa. Rio de Janeiro: Agir, 2006.



SEGUNDO ENCONTRO VIVENCIAL

October 15, 2009, by Maria Auxiliadora de Medeiros - No comments yet

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE-UFRN PROGRAMA DE PÓS –GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO-PPGEd ATELIÊ DE PESQUISA: ABORDAGENS METODOLÓGICAS PARA CORPORALIZAR A EDUCAÇÃO

SEGUNDO ENCONTRO VIVENCIAL O QUERER BEM NA MINHA PRÁTICA DOCENTE

MARIA AUXILIADORA DE MEDEIROS

NATAL/RN 2009 O QUERER BEM NA MINHA PRÁTICA DOCENTE

Relatar a terceira experiência vivencial do Ateliê de Pesquisa: Abordagens Metodológicas para Corporalizar a Educação para muitos seria apenas mais uma ação descritiva, já que somos seres comunicativos por excelência, mais uma forma narrativa de desenvolver esse relato. Entretanto, para esse relato, bem como os relatos anteriores, neles estão depositados expectativas, anseios, prazer e amor diferenciando-o assim, de um simples relato, de ser mais uma narrativa.

Figura 1

Vivenciar, sentir, incorporar essas palavras descreve o primeiro momento do dia 15 de setembro, momento esse marcado por um ambiente harmonioso que acolheu a temática: “Vivências marcantes do querer bem em sua vida profissional”. Assim, damos inicio a uma viajem ao mundo das emoções. Algum tempo atrás tive o prazer de ser apresentado ao jogo de areia, amor a primeira vista posso descrever assim o nosso encontro. Fascínio, paixão, encantamento, me perguntava como algo aparentemente simples podia exercer tão significativa influencia no outro. Todas as vezes que brinco com a caixa de areia viajo ao centro de mim, percebendo algo diferente, despertando e aceitando coisas que estavam adormecidas, fadadas ao esquecimento. A temática da manhã proporcionou uma reflexão profunda na qual ainda não tinha experenciado com tamanha intensidade, a partir da construção do jogo de areia transmiti o meu querer bem mediante essa manhã de vivências.

E o que dizer, mas, sobretudo que esperar de mim, se, como professor, não me acho tomado por este outro saber, o de que preciso estar aberto ao gosto de querer bem, à coragem de querer bem aos educadores e à própria prática educativa de que participo. (FREIRE, 1996, p.141). Freire finaliza o terceiro capitulo pontuando um tema que se faz indispensável na prática profissional, esse em especial para prática docente, o querer bem a profissão/atuação. Dava-se inicio a construção do cenário por meio do jogo de areia

Figura 2                                                                                                             Figura 3

Inicialmente veio a mente vários momentos vivenciados por mim, os quais gostaria de retratá-los em sub cenários, a principio, a organização mental da construção, a seleção das cenas, o que sentia no momento, viabilizava uma viajem ao centro de mim. Fui construindo passo a passo os sub cenários, mergulhada nas lembranças, relembrando alguns momentos vividos enquanto experiência profissional que me proporcionavam, cada vez mais, reflexões sobre minha prática docente.

Figura 4                                                                              Figura 5

Compondo o cenário, disponibilizei 04 cenas distintas para retratar em 04 sub cenários as experiências que marcaram minha prática docente.

No 1º Sub cenário (figuras 04 e 05), utilizei sementes e pedras vermelhas, grãos marrons e flores azuis com folhas verdes para descrever um jardim, um espaço físico delimitado, entretanto de uma beleza sem igual. Assim vejo a sala de aula na qual partilho todas as noites na escola, momentos felizes e de trocas. Experiência única, enquanto docente, muita luta, mas o prazer supera todos os obstáculos. O sujeito que se abre ao mundo e aos outros inaugura com seu gesto e relação dialógica em que se confirma como inquietação e curiosidade, como inconclusão em permanente movimento na história (FREIRE, 1996, p.136). Nessa perspectiva considero minha abertura ao novo, ao desafio, a busca, ao saber, uma abertura que favorece meu crescimento pessoal, pois o fato de abrir-se para o outro nos proporciona trocas nas quais ganhamos sempre quando sabemos escutar. Essa lição aprendi com os alunos da Educação de Jovens e Adultos-EJA.

Figura 6                                                                                          Figura 7

No 2º Sub cenário (figuras 06 e 07), utilizei raspa de madeira, pedras vermelhas, sinos e malas para simbolizar minha trajetória nesse planeta. As raspas de madeira e as pedras representam as dificuldades e adversidade que encontramos nos nossos trajetos, estes indispensáveis para nosso crescimento, as malas simbolizam os conhecimentos que adquirimos na caminhada mediante os erros cometidos, bem como os acertos e os sinos sonorizam minha passagem, gosto de deixar registros de minha estadia aonde vou. Isto sabe.

Todas as coisas estão ligadas como o sangue que une uma família… Tudo o que acontece com a Terra, acontece com os filhos e filhas da Terra. O homem não tece a teia da vida; ele é apenas um fio. Tudo o que faz à teia, ele faz a si mesmo (CAPRA, 1996, p. 09)).

Nossas ações exigem reações as quais atingem uma área na qual não fazemos idéia da dimensão, quer seja de âmbito pessoal, ou social. Com essa citação corroboro com a idéia de que tudo está interligado, tais: os erros para nos ensinar, viver para morrer, o bem para o mal. No 3º Sub cenário (figuras 08 e 09), utilizei flores plantadas em jarros, 01 mala, 01 lixeiro, 01 jarro com uma flor de tamanho maior que as demais me representando, pois essa era a minha brincadeira favorita quando criança. Sempre soube em que gostaria de trabalhar, desde criança, minha vocação é o magistério, ao construir esse sub cenário em particular, me fez refletir algo que já tinha conhecimento, entretanto, não tinha externado a idéia de que estou atuando no lugar certo. Quando me vejo encantada pela educação e contagiando os meus pares percebo o quanto sou feliz por fazer profissionalmente o que amo, independente dos fatores que circundam negativamente a docência. Por isso é que, na formação permanente dos professores, o momento fundamental é o da reflexão crítica sobre a prática. É pensando criticamente a prática de hoje ou de ontem que se pode melhorar a próxima prática Freire (1996). A prática docente sem encantamento está fadada ao fracasso do aluno, bem como do professor. Esse encantamento remete o respeito ao outro, o pensar criticamente a práxis para corrobora na prática consciente e ética.

Figura 10                                                                      Figura 11

No 4º Sub cenário (figuras 10 e 11), esse é representado por 02 bonecos que brincam com uma pedra. Essa representação diz respeito aos Atendimentos Educacionais Especializados – AEE, nos quais realizo na escola no turno diurno. O atendimento me realiza, pois olhar o mundo pela ótica de uma criança é não ver maldade, malícia, erros ou injustiças, me remete a sonhar ainda mais por dignidade e igualdade de direitos para todos. Esse, só a educação poderá propiciar. A pedra que esta entre as duas crianças faz alusão ao texto intitulado “A pedra em nosso caminho” diz assim:

Texto: A pedra em nosso caminho Autor: José Fabiano Bezerra Lô

O distraído nela tropeçou… O bruto a usou como projétil… O empreendedor, usando-a, construiu… O camponês, cansado da lida, dela fez assento… Para meninos, foi brinquedo… Drumond a poetizou. Já, David matou, Golias e Michelangelo extraiu-lhe a mais bela escultura… E em todos esses casos, a diferença não esteve na pedra, mas no homem! Não existe pedra no seu caminho que você não possa aproveitá-la para o seu próprio crescimento. Cada instante que passa é uma gota de vida que nunca mais torna a cair, aproveite cada gota para evoluir…

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A prática do jogo de areia segundo Kalff (1980) “não é apenas um método de terapia, mas um meio ativo através do qual os conteúdos da imaginação são feitos reais e visíveis”. .A vivência com jogo de areia para mim é um momento significativo, representação viva do amor que temos e está escondido/adormecido dentro de nós. Capra (1996) nos diz que “para recuperarmos nossa plena humanidade, temos de recuperar nossa experiência de conexidade com toda a teia”. Na construção dos sub cenários através do jogo de areia, foi despertado sentimentos tais: desejo, interesse, solidariedade, união, pois a integração do mesmo (jogo/pessoa) favorece as reflexões e esses deságuam em mudanças. Mudanças para que este querer bem possa fluir em nosso dia-a-dia, quer seja na vida profissional ou pessoal.

REFERÊNCIAS CAVALCANTI, Kátia Brandão. Jogo de Areia e transdisciplinaridade: desenvolvendo abordagens ludopoiéticas para a educação e a pesquisa do lazer. Revista Licere, vol. 11 (3), 2008b.

CAPRA, A Teia da Vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. Tradução Newton Roberval Eichemberg. São Paulo: Cultrix, 1996. 256 p. Título Original: the web of life: a new scientific understanding of living systems.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e terra, 1996.

Kalff, D. (1980). Sandplay: A psychotherapeutic approach to the psyche. Santa Monica, CA: Sigo Press.



RELATÓRIO DO 1º MOMENTO VIVENCIAL

October 15, 2009, by Maria Auxiliadora de Medeiros - One comment

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO – PPGED

ATELIÊ DE PESQUISA: ABORDAGENS METODOLÓGICAS PARA CORPORALIZAR A EDUCAÇÃO

RELATÓRIO DO 1º MOMENTO VIVENCIAL

QUERER BEM: UM OLHAR AFETIVO PARA NOSSAS VIVÊNCIAS

MARIA AUXILIADORA DE MEDEIROS

NATAL/RN 2009

QUERER BEM: UM OLHAR AFETIVO PARA NOSSAS VIVÊNCIAS Maria Auxiliadora de Medeiros Resumo

O registro foi construído a partir das observações, reflexões, análises e discussões em torno da temática “Ensinar exige querer bem aos educandos”, assunto abordado no terceiro capitulo da obra de Paulo Freire intitulada “Pedagogia da Autonomia”, este, serviu de proposta reflexiva para o momento vivencial que foi realizado em 1º de setembro deste, com os alunos/pesquisadores do Ateliê de pesquisa em Corporeidade, Ludicidade e Educação do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Para respaldar nossas reflexões, buscamos auxilio nos princípios filosóficos de Augusto Cury, Gabriel Chalita, Paulo Freire e nas Referências Curriculares Nacional. Como você esta vivenciando o querer bem em sua vida? Essa pergunta norteou o grupo em um processo de auto-analise fenomenológico quanto à vivência do dia, procurando despertar a humanescência que existe em todos nós pela afetividade e ludicidade.

Palavras-Chave: Reflexão – Querer Bem – Vivenciar – Despertar – Valorizar

Introdução

No livro Pedagogia da Autonomia, Paulo Freire nos convida as reflexões quanto à formação docente, sobre a prática educativo-progressista em favor da autonomia do Ser dos educandos. Os escritos de Freire cultivam a reflexão e valorização do Ser Humano, da educação como meio de conquistas sociais, da autonomia do ser, da afetividade enquanto mediação concreta entre os saberes e os sentimentos que elevam o ser humano. Assim:

E o que dizer, mas sobretudo que esperar de mim, se, como professor, não me acho tomado por este outro saber, o de que preciso estar aberto ao gosto de querer bem, às vezes, à coragem de querer bem aos educadores e à própria prática educativa de que participo (FREIRE, 1996, p.141).

Os encaminhamentos do momento vivencial direcionaram um questionamento referente à afetividade, baseado na filosofia freiriana, foi questionado o como vivenciamos o querer bem em nossas vidas. O convite nos remete a uma viajem interna, uma auto análise, uma avaliação pessoal que muitas vezes não gostamos de fazer por sabermos inconcientemente dos possíveis resultados. De reconhecer que estamos longe da humanescência, de ver o outro e o valorizar pelo que ele é, enquanto pessoa que compõem o universo. Nessa perspectiva de pesquisa humanescente, iniciamos as reflexões em meio às indagações e discussões que a temática provocava, longe de almejarmos respostas contundentes para tantas perguntas, pois o momento estava para sentirmos nosso Self, deixar aflorar nossos sentimentos, nossa afetividade, ou seja, deixar fluir a energia que aprisionamos com o dia-a-dia, com a rotina, reacender a chama da vida.

A atividade continuada, o reducionismo, a transformação do homem em máquina, exige-se apenas a disciplina desumana e a precisão do movimento, não a criatividade, e as pessoas submetidas a esse tipo de rotina perdem com o tempo a capacidade de reflexão (CHALITA, 2001, p. 53).

Chalita nos mostra em sua obra que o ser humano vem, ao longo do tempo perdendo a capacidade de refletir, todos os atos passaram a serem mecânicos em decorrência do processo de desumanizarão, no qual valores primordiais e intrínsecos do ser é posto de lado ou mesmo entendido como utopia que é ligado a um passado de mitos. Atualmente, a humanidade vivencia a necessidade de mudanças paradigmáticas, o ser humano percebe se falho em algumas de suas idéias e voltamos às buscas de valores, de ações simples que compõem o dia-a-dia tornando-o especial, ações essas que são desde o cumprimento de manhã ao vizinho, sentir o sol no rosto ou apreciar o luar. Estamos tentando reencontrar nossas essências, esquecidas com o tempo, desvalorizadas pelas nossas ações.

Querer Bem: um cenário de emoções

Sentir as relações existentes entre o querer bem a mim, ao outro e ao envolto. Essas foram às primeiras impressões que surgiram com a construção do cenário intitulado “Meu Querer Bem” (Ver Foto 01). A princípio surge uma tempestade de emoções que são drenadas para a calmaria na tentativa de entender/planejar o que será colocado em prática por meio do manuseio das miniaturas, tábua de corte e massas de modelar. Essa foi minha primeira experiência desse cunho, expressar um sentimento através de um cenário, a principio parecia algo impossível de fazer, deixar fluir as emoções para manifestar meu querer bem, moldá-lo, alinhá-lo e organizá-lo em uma prática conjunta que desencadearia uma linda e enorme mandala. O uso dos sentidos para manusear os materiais na construção do cenário, a massa de modelar no contato com a pele, os cheiros exalados (canela, café e eucalipto, esses em especiais) favoreceram uma viajem à residência de minha avó (Mª Salomé), muitas lembranças e saudades, foi inevitável remover um pouco do papel filme que envolvia a massa de modelar para senti-la de perto. Expressar o querer bem possibilita várias formas de interpretação, quer seja por meios de palavras, de ações ou de gestos. (FREIRE, 1996, p.141) “A minha abertura ao querer bem significa a minha disponibilidade à alegria de viver. Justa alegria de viver, que, assumida plenamente, não permite que me transforme num ser “adocicado” nem tampouco num ser arestoso e amargo”. Esse pensamento freiriano corrobora com minha forma de entender o processo do querer bem ao outro, traduzindo-os em cuidado, zelo, proteção, carinho e respeito. A dinâmica utilizada no processo de interação fez emergir as energias que fluíram e envolveram os participantes do encontro vivencial, todos envolvidos e concentrados em brincar, criar e sentir o cenário. Os estímulos externos nos foram favorecidos por meio de um cenário natural, uma toalha de mesa oval feita em crochê branco e tapetes em tecido cru, tingido de cor laranja, segundo o uso das cores em terapias a cor branca é a soma de todas as cores – representa inocência, pureza e paz, a cor laranja proporciona maior alegria, jovialidade e libido, elimina gorduras em áreas localizadas. Entretanto, o cenário tomou uma forma própria com folhas secas ao centro da toalha de crochê com as massas de modelar depositadas nas respectivas folhas que estavam depostas em forma de flor com 05 pétalas (homenagem a Ludopoiese). O poema de Lázaro Zacarias recitado no momento vivencial, chamado: “Brilhe” nos convida a brilhar como alma de artista, na beleza da forma, no estilo, na essência do desabrochar do pensamento, na travessia do pensamento, na poesia desse momento. Envolvidos nessas frases de efeito os cenários eram construídos, em pouco tempo a mandala tomava forma, tomava vida, tomava cor. Como era de se esperar, o encanto e admiração estava estampado nos rostos dos alunos/pesquisadores que apreciavam as obras de artes dos colegas. Para construção do meu cenário intitulado “querer bem”, foi necessário à construção de 06 (seis) míni cenários, entrelaçados em um contexto de presente, passado e futuro. 1º-Cenário: 04 tartarugas depostas em um espaço pequeno e fechadas. Faço alusão às dificuldades de convivências em grupo (querer bem coletivo). 2º-Cenário: Pedras vermelhas. As pedras vermelhas nesse contexto representam as dificuldades que encontramos em expressar nossos sentimentos (obstáculos enquanto lição de vida). 3º-Cenário: Homem X Natureza. Respeito à natureza em um contexto de violência ao meio ambiente, a massa de modelar vermelha significa o sangue derramado (querer bem a natureza). 4º-Cenário: 04 sinos. Representa o despertar para uma nova fase da vida (querer bem a mim). 5º-Cenário: 03 animais. Respeito aos animais, nesse contexto, eles estão em um ambiente exclusivo para animais (quere bem aos animais). 6º-Cenário: Ao centro 03 malas, muitas sementes vermelhas, massa de modelar preta e uma divisória branca. Refere-se aos preconceitos, os quais escondem dentro das nossas malas, as sementes foram lançadas no solo como forma de semear a vida. Outra leitura que faço das malas são os conhecimentos por nós adquiridos, nossas bagagens de vida. Ao analisarmos a posteriore os cenários, eles tomam outra dimensão, outros significados. Pois, a cada momento reencontramos o querer bem dentro de nós. Ainda relatando a construção do cenário, como podemos perceber (ver foto), existem sementes e grãos rodeando o cenário, isso para representando a vida que nos cerca, foi posto divisórias entre os cenários, isso para que nos lembremos das barreiras que criamos ao nosso derredor e impedimos que as energias fluam e transitem por outras partes que compõem o universo. Maturana e Verden-Zoller (2004, p. 245 apud CAVALCANTI, 2008) nos desperta para a importância do brincar, na alegria que essa ação provoca ao ser: “Vivemos numa cultura que nega a brincadeira e valoriza as competições esportivas”. As crianças ao iniciarem a vida acadêmica, são treinadas para a competitividade, quer seja nas aulas de português, matemática ou xadrez, perpassando assim, as competições esportivas, as escolas focam nos alunos o aprimoramento das competências, vislumbrando nesses alunos o profissional de renome e consequentemente, eles difundiram positivamente o nome da instituição formadoura Entretanto, os alunos/pesquisadores que participaram do momento vivencial do Ateliê, não apresentavam a competitividade aflorada, o desejo de servir ao outro ficou marcado de várias formas, entre elas, as fotografias tiradas por uma aluna/pesquisadora e a posteriore socializada com o grupo via E-mail, pelos empréstimos das miniaturas para construção dos cenários ou o ir e vir das massas de modelar que tomou outra função, naquele momento a massa de modelar era o elo que ligava pessoas que até aquele momento não haviam se conhecido. O processo de interação do grupo não levou em conta as diferenças nas idades cronológicas, em um dado momento, o espaço físico aparentava um playground com sons de risos, descontração, alegria e muita energia aplicada nas ações do momento. O grupo era eclético, entre os 33 alunos/pesquisadores presentes no momento vivencial, haviam as mais variadas áreas profissionais interagindo em um único objetivo: perceber, sentir e descrever a afetividade vivenciada por cada um. Nesse olhar, foi percebido interesse, comprometimento, atitude, respeito e motivação do grupo em vivenciar a humanescência. O momento vivencial foi marcado por emoções, encantamento e beleza. Desde a apresentação dos alunos/pesquisadores, em seguida, a construção e socialização dos cenários, os momentos reflexivos que serviram como terapia e auto reflexão, o direcionamento preciso das 06 questões que nortearam as discussões da manhã, bem como, a dinâmica utilizada para envolver a todos na sintonia emocional do momento por meio das palavras, agregaram fatores que foram decisivos para o enriquecimento e magia do momento. Esse em ser único, possui a poder de entrar no mundo das saudades. O momento vivencial transcorreu em perfeito equilíbrio e harmonia, percebe-se um relacionamento mais que profissional por parte do mediador, esse demonstrou o “Querer Bem” em sentido amplo do termo, encantando e contagiando os alunos/pesquisadores pelas palavras concomitantes com as práticas. Humildade, comprometimento, estética e ética, reflexão crítica sobre a prática, alegria e esperança, entre outras, são conceitos de Freire para descrever a amorosidade que o professor/educador necessita para transformar a educação repressora em uma educação libertadora. Sendo assim, seremos exemplos se vivenciarmos os mesmos, pois as palavras deslaçadas das práticas não surtem efeito na vida do outro, como posso tomar para mim uma teoria que é dita por alguém que não a põem em pratica, não vivencia. O velho ditado popular nos remete a um bom exemplo: ”Faça o que eu diga, mas não faça o que eu faço”.

Considerações Finais Ao analisarmos o 2º momento vivencial do Ateliê de pesquisa em Corporeidade, Ludicidade e Educação e de como a construção do cenário ”Como vivencio meu querer bem”, solicitação de atividade do turno da manhã, foi sentido e compartilhado pelos alunos/pesquisadores, expressando a amorosidade que Freire nos revela: [...] a alegria não chega apenas no encontro do achado, mas faz parte do processo da busca. E ensinar e aprender não pode dar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria. O desrespeito à educação, aos educandos, aos educadores e às educadoras corrói ou deteriora em nós, de um lado, a sensibilidade ou a abertura ao bem querer da própria prática educativa de outro, a alegria necessária ao que fazer docente .(FREIRE, 1996, p.142).“ Concordamos com Freire ao nos alertar para a necessidade de uma reavaliação nas práticas docentes nos dias atuais. Não é propósito dessas reflexões fazer críticas, e sim analisar as vivencias do “querer bem”, da “afetividade” em nossas vidas. Esses se bem compreendidos, podem melhorar consideravelmente o processo humanitário. Assim, entendemos que se a filosofia freiriana fosse sentida de perto, se fosse colocado em pratica, se não perdêssemos a sensibilidade afetiva com o passar dos tempos, se soubéssemos escutar o outro e o self, o mundo poderia ser consideravelmente diferente. Embora tenhamos iniciado nossas reflexões há pouco tempo, apreendemos que as mudanças são possíveis com renovado interesse e respeito pelo outro.

Referências BRASIL: Constituição da Republica Federativa do Brasil. 5. ed. Brasília: Senado Federal: Subsecretaria de Edições Técnicas, 2002.

BRASIL: Lei de Diretrizes e Bases da educação Nacional: Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 – Brasília: Subsecretaria de Edições Técnicas, 1997.

CAVALCANTI, Katia Brandão. Comunicação pessoal. Seminário de Pesquisa BACOR-PPGED/UFRN, 8 de julho de 2008.

CHALITA, Gabriel. Educação: a solução está no afeto. São Paulo: Editora Gente, 2001.

CURY, Augusto. Pais brilhantes, professores fascinantes. Rio de Janeiro: Sextante, 2003.

FERREIRA, Aurélio B. de H. Miniaurélio século XXI escolar: o minidicionário da língua portuguesa. 4. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 28. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996.