UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO – PPGED

ATELIÊ DE PESQUISA: ABORDAGENS METODOLÓGICAS PARA CORPORALIZAR A EDUCAÇÃO

RELATÓRIO DO 1º MOMENTO VIVENCIAL

QUERER BEM: UM OLHAR AFETIVO PARA NOSSAS VIVÊNCIAS

MARIA AUXILIADORA DE MEDEIROS

NATAL/RN 2009

QUERER BEM: UM OLHAR AFETIVO PARA NOSSAS VIVÊNCIAS Maria Auxiliadora de Medeiros Resumo

O registro foi construído a partir das observações, reflexões, análises e discussões em torno da temática “Ensinar exige querer bem aos educandos”, assunto abordado no terceiro capitulo da obra de Paulo Freire intitulada “Pedagogia da Autonomia”, este, serviu de proposta reflexiva para o momento vivencial que foi realizado em 1º de setembro deste, com os alunos/pesquisadores do Ateliê de pesquisa em Corporeidade, Ludicidade e Educação do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Para respaldar nossas reflexões, buscamos auxilio nos princípios filosóficos de Augusto Cury, Gabriel Chalita, Paulo Freire e nas Referências Curriculares Nacional. Como você esta vivenciando o querer bem em sua vida? Essa pergunta norteou o grupo em um processo de auto-analise fenomenológico quanto à vivência do dia, procurando despertar a humanescência que existe em todos nós pela afetividade e ludicidade.

Palavras-Chave: Reflexão – Querer Bem – Vivenciar – Despertar – Valorizar

Introdução

No livro Pedagogia da Autonomia, Paulo Freire nos convida as reflexões quanto à formação docente, sobre a prática educativo-progressista em favor da autonomia do Ser dos educandos. Os escritos de Freire cultivam a reflexão e valorização do Ser Humano, da educação como meio de conquistas sociais, da autonomia do ser, da afetividade enquanto mediação concreta entre os saberes e os sentimentos que elevam o ser humano. Assim:

E o que dizer, mas sobretudo que esperar de mim, se, como professor, não me acho tomado por este outro saber, o de que preciso estar aberto ao gosto de querer bem, às vezes, à coragem de querer bem aos educadores e à própria prática educativa de que participo (FREIRE, 1996, p.141).

Os encaminhamentos do momento vivencial direcionaram um questionamento referente à afetividade, baseado na filosofia freiriana, foi questionado o como vivenciamos o querer bem em nossas vidas. O convite nos remete a uma viajem interna, uma auto análise, uma avaliação pessoal que muitas vezes não gostamos de fazer por sabermos inconcientemente dos possíveis resultados. De reconhecer que estamos longe da humanescência, de ver o outro e o valorizar pelo que ele é, enquanto pessoa que compõem o universo. Nessa perspectiva de pesquisa humanescente, iniciamos as reflexões em meio às indagações e discussões que a temática provocava, longe de almejarmos respostas contundentes para tantas perguntas, pois o momento estava para sentirmos nosso Self, deixar aflorar nossos sentimentos, nossa afetividade, ou seja, deixar fluir a energia que aprisionamos com o dia-a-dia, com a rotina, reacender a chama da vida.

A atividade continuada, o reducionismo, a transformação do homem em máquina, exige-se apenas a disciplina desumana e a precisão do movimento, não a criatividade, e as pessoas submetidas a esse tipo de rotina perdem com o tempo a capacidade de reflexão (CHALITA, 2001, p. 53).

Chalita nos mostra em sua obra que o ser humano vem, ao longo do tempo perdendo a capacidade de refletir, todos os atos passaram a serem mecânicos em decorrência do processo de desumanizarão, no qual valores primordiais e intrínsecos do ser é posto de lado ou mesmo entendido como utopia que é ligado a um passado de mitos. Atualmente, a humanidade vivencia a necessidade de mudanças paradigmáticas, o ser humano percebe se falho em algumas de suas idéias e voltamos às buscas de valores, de ações simples que compõem o dia-a-dia tornando-o especial, ações essas que são desde o cumprimento de manhã ao vizinho, sentir o sol no rosto ou apreciar o luar. Estamos tentando reencontrar nossas essências, esquecidas com o tempo, desvalorizadas pelas nossas ações.

Querer Bem: um cenário de emoções

Sentir as relações existentes entre o querer bem a mim, ao outro e ao envolto. Essas foram às primeiras impressões que surgiram com a construção do cenário intitulado “Meu Querer Bem” (Ver Foto 01). A princípio surge uma tempestade de emoções que são drenadas para a calmaria na tentativa de entender/planejar o que será colocado em prática por meio do manuseio das miniaturas, tábua de corte e massas de modelar. Essa foi minha primeira experiência desse cunho, expressar um sentimento através de um cenário, a principio parecia algo impossível de fazer, deixar fluir as emoções para manifestar meu querer bem, moldá-lo, alinhá-lo e organizá-lo em uma prática conjunta que desencadearia uma linda e enorme mandala. O uso dos sentidos para manusear os materiais na construção do cenário, a massa de modelar no contato com a pele, os cheiros exalados (canela, café e eucalipto, esses em especiais) favoreceram uma viajem à residência de minha avó (Mª Salomé), muitas lembranças e saudades, foi inevitável remover um pouco do papel filme que envolvia a massa de modelar para senti-la de perto. Expressar o querer bem possibilita várias formas de interpretação, quer seja por meios de palavras, de ações ou de gestos. (FREIRE, 1996, p.141) “A minha abertura ao querer bem significa a minha disponibilidade à alegria de viver. Justa alegria de viver, que, assumida plenamente, não permite que me transforme num ser “adocicado” nem tampouco num ser arestoso e amargo”. Esse pensamento freiriano corrobora com minha forma de entender o processo do querer bem ao outro, traduzindo-os em cuidado, zelo, proteção, carinho e respeito. A dinâmica utilizada no processo de interação fez emergir as energias que fluíram e envolveram os participantes do encontro vivencial, todos envolvidos e concentrados em brincar, criar e sentir o cenário. Os estímulos externos nos foram favorecidos por meio de um cenário natural, uma toalha de mesa oval feita em crochê branco e tapetes em tecido cru, tingido de cor laranja, segundo o uso das cores em terapias a cor branca é a soma de todas as cores – representa inocência, pureza e paz, a cor laranja proporciona maior alegria, jovialidade e libido, elimina gorduras em áreas localizadas. Entretanto, o cenário tomou uma forma própria com folhas secas ao centro da toalha de crochê com as massas de modelar depositadas nas respectivas folhas que estavam depostas em forma de flor com 05 pétalas (homenagem a Ludopoiese). O poema de Lázaro Zacarias recitado no momento vivencial, chamado: “Brilhe” nos convida a brilhar como alma de artista, na beleza da forma, no estilo, na essência do desabrochar do pensamento, na travessia do pensamento, na poesia desse momento. Envolvidos nessas frases de efeito os cenários eram construídos, em pouco tempo a mandala tomava forma, tomava vida, tomava cor. Como era de se esperar, o encanto e admiração estava estampado nos rostos dos alunos/pesquisadores que apreciavam as obras de artes dos colegas. Para construção do meu cenário intitulado “querer bem”, foi necessário à construção de 06 (seis) míni cenários, entrelaçados em um contexto de presente, passado e futuro. 1º-Cenário: 04 tartarugas depostas em um espaço pequeno e fechadas. Faço alusão às dificuldades de convivências em grupo (querer bem coletivo). 2º-Cenário: Pedras vermelhas. As pedras vermelhas nesse contexto representam as dificuldades que encontramos em expressar nossos sentimentos (obstáculos enquanto lição de vida). 3º-Cenário: Homem X Natureza. Respeito à natureza em um contexto de violência ao meio ambiente, a massa de modelar vermelha significa o sangue derramado (querer bem a natureza). 4º-Cenário: 04 sinos. Representa o despertar para uma nova fase da vida (querer bem a mim). 5º-Cenário: 03 animais. Respeito aos animais, nesse contexto, eles estão em um ambiente exclusivo para animais (quere bem aos animais). 6º-Cenário: Ao centro 03 malas, muitas sementes vermelhas, massa de modelar preta e uma divisória branca. Refere-se aos preconceitos, os quais escondem dentro das nossas malas, as sementes foram lançadas no solo como forma de semear a vida. Outra leitura que faço das malas são os conhecimentos por nós adquiridos, nossas bagagens de vida. Ao analisarmos a posteriore os cenários, eles tomam outra dimensão, outros significados. Pois, a cada momento reencontramos o querer bem dentro de nós. Ainda relatando a construção do cenário, como podemos perceber (ver foto), existem sementes e grãos rodeando o cenário, isso para representando a vida que nos cerca, foi posto divisórias entre os cenários, isso para que nos lembremos das barreiras que criamos ao nosso derredor e impedimos que as energias fluam e transitem por outras partes que compõem o universo. Maturana e Verden-Zoller (2004, p. 245 apud CAVALCANTI, 2008) nos desperta para a importância do brincar, na alegria que essa ação provoca ao ser: “Vivemos numa cultura que nega a brincadeira e valoriza as competições esportivas”. As crianças ao iniciarem a vida acadêmica, são treinadas para a competitividade, quer seja nas aulas de português, matemática ou xadrez, perpassando assim, as competições esportivas, as escolas focam nos alunos o aprimoramento das competências, vislumbrando nesses alunos o profissional de renome e consequentemente, eles difundiram positivamente o nome da instituição formadoura Entretanto, os alunos/pesquisadores que participaram do momento vivencial do Ateliê, não apresentavam a competitividade aflorada, o desejo de servir ao outro ficou marcado de várias formas, entre elas, as fotografias tiradas por uma aluna/pesquisadora e a posteriore socializada com o grupo via E-mail, pelos empréstimos das miniaturas para construção dos cenários ou o ir e vir das massas de modelar que tomou outra função, naquele momento a massa de modelar era o elo que ligava pessoas que até aquele momento não haviam se conhecido. O processo de interação do grupo não levou em conta as diferenças nas idades cronológicas, em um dado momento, o espaço físico aparentava um playground com sons de risos, descontração, alegria e muita energia aplicada nas ações do momento. O grupo era eclético, entre os 33 alunos/pesquisadores presentes no momento vivencial, haviam as mais variadas áreas profissionais interagindo em um único objetivo: perceber, sentir e descrever a afetividade vivenciada por cada um. Nesse olhar, foi percebido interesse, comprometimento, atitude, respeito e motivação do grupo em vivenciar a humanescência. O momento vivencial foi marcado por emoções, encantamento e beleza. Desde a apresentação dos alunos/pesquisadores, em seguida, a construção e socialização dos cenários, os momentos reflexivos que serviram como terapia e auto reflexão, o direcionamento preciso das 06 questões que nortearam as discussões da manhã, bem como, a dinâmica utilizada para envolver a todos na sintonia emocional do momento por meio das palavras, agregaram fatores que foram decisivos para o enriquecimento e magia do momento. Esse em ser único, possui a poder de entrar no mundo das saudades. O momento vivencial transcorreu em perfeito equilíbrio e harmonia, percebe-se um relacionamento mais que profissional por parte do mediador, esse demonstrou o “Querer Bem” em sentido amplo do termo, encantando e contagiando os alunos/pesquisadores pelas palavras concomitantes com as práticas. Humildade, comprometimento, estética e ética, reflexão crítica sobre a prática, alegria e esperança, entre outras, são conceitos de Freire para descrever a amorosidade que o professor/educador necessita para transformar a educação repressora em uma educação libertadora. Sendo assim, seremos exemplos se vivenciarmos os mesmos, pois as palavras deslaçadas das práticas não surtem efeito na vida do outro, como posso tomar para mim uma teoria que é dita por alguém que não a põem em pratica, não vivencia. O velho ditado popular nos remete a um bom exemplo: ”Faça o que eu diga, mas não faça o que eu faço”.

Considerações Finais Ao analisarmos o 2º momento vivencial do Ateliê de pesquisa em Corporeidade, Ludicidade e Educação e de como a construção do cenário ”Como vivencio meu querer bem”, solicitação de atividade do turno da manhã, foi sentido e compartilhado pelos alunos/pesquisadores, expressando a amorosidade que Freire nos revela: […] a alegria não chega apenas no encontro do achado, mas faz parte do processo da busca. E ensinar e aprender não pode dar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria. O desrespeito à educação, aos educandos, aos educadores e às educadoras corrói ou deteriora em nós, de um lado, a sensibilidade ou a abertura ao bem querer da própria prática educativa de outro, a alegria necessária ao que fazer docente .(FREIRE, 1996, p.142).“ Concordamos com Freire ao nos alertar para a necessidade de uma reavaliação nas práticas docentes nos dias atuais. Não é propósito dessas reflexões fazer críticas, e sim analisar as vivencias do “querer bem”, da “afetividade” em nossas vidas. Esses se bem compreendidos, podem melhorar consideravelmente o processo humanitário. Assim, entendemos que se a filosofia freiriana fosse sentida de perto, se fosse colocado em pratica, se não perdêssemos a sensibilidade afetiva com o passar dos tempos, se soubéssemos escutar o outro e o self, o mundo poderia ser consideravelmente diferente. Embora tenhamos iniciado nossas reflexões há pouco tempo, apreendemos que as mudanças são possíveis com renovado interesse e respeito pelo outro.

Referências BRASIL: Constituição da Republica Federativa do Brasil. 5. ed. Brasília: Senado Federal: Subsecretaria de Edições Técnicas, 2002.

BRASIL: Lei de Diretrizes e Bases da educação Nacional: Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 – Brasília: Subsecretaria de Edições Técnicas, 1997.

CAVALCANTI, Katia Brandão. Comunicação pessoal. Seminário de Pesquisa BACOR-PPGED/UFRN, 8 de julho de 2008.

CHALITA, Gabriel. Educação: a solução está no afeto. São Paulo: Editora Gente, 2001.

CURY, Augusto. Pais brilhantes, professores fascinantes. Rio de Janeiro: Sextante, 2003.

FERREIRA, Aurélio B. de H. Miniaurélio século XXI escolar: o minidicionário da língua portuguesa. 4. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 28. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996.