UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO – PPGED
ATELIÊ DE PESQUISA: ABORDAGENS METODOLÓGICAS PARA CORPORALIZAR A EDUCAÇÃO
RELATÓRIO DO MOMENTO VIVENCIAL INDIVIDUALIZADO
COMO ESTOU CRIANDO AS CONDIÇÕES PARA A MINHA AUTOFORMAÇÃO HUMANESCENTE?
MARIA AUXILIADORA DE MEDEIROS
NATAL/RN 2009 COMO ESTOU CRIANDO AS CONDIÇÕES PARA A MINHA AUTOFORMAÇÃO HUMANESCENTE? MARIA AUXILIADORA DE MEDEIROS Resumo Este relatório tem como objetivo responder ao questionamento: COMO ESTOU CRIANDO AS CONDIÇÕES PARA A MINHA AUTOFORMAÇÃO HUMANESCENTE? Para auxiliar nas reflexões recorremos alguns teóricos que respaldaram a idéia apresentada no texto, a partir das filosofias por estes defendidas, tais: Paulo Freire, Humberto Maturana, Edgar Morin. Por meio do jogo de areia (sandplay), nos foi possibilitado à reflexão sobre a pergunta acima citada e consequentemente respondida em um cenário composto de miniaturas (representação interna do mundo), areia, pensamentos e sentimentos que emergiram com a construção do mesmo. Esta ação transcorreu no interior de nossos lares com alcance intrapessoal. Assim, o jogo de areia constituído enquanto ação ludopoiética possibilitou um ir e vir de analises e reflexões sobre o fazer e ser humanescente. Palavras-Chave: Brincar – Reflexão – Resposta – Sentimento – Subjetividade
Introdução
COMO ESTOU CRIANDO AS CONDIÇÕES PARA A MINHA AUTOFORMAÇÃO HUMANESCENTE? Essa pergunta deu encaminhamento para a 2ª atividade do Ateliê de pesquisa em Corporeidade, Ludicidade e Educação, esta seria realizada em um momento vivencial não presencial e individual a ser desenvolvida em nossos respectivos lares. Objetivando auxiliar na investigação para possíveis respostas, foi solicitada a construção por meio do Sandplay – jogo de areia, um cenário que possibilitasse a autoreflexão por meio da ludicidade, criatividade e sensibilidade. O sandplay – Jogo de Areia possui o cunho metodológico que favorece nos processos investigativos, bem como nas intervenções educacionais, sendo esse a ferramenta adequada para utilizarmos no processo reflexivo que a pergunta exige. O sandplay – Jogo de Areia é utilizado pelos alunos/pesquisadores da Linha de Pesquisa Corporeidade e Educação de Pós-Graduação em educação da UFRN em meio a outras metodologias vivenciais. Segundo Maturana e Verden-Zoller (2004, p. 245 apud CAVALCANTI, 2008): “o jogo da areia traz uma possibilidade de beleza para a formação humana Ludopoiética. Nesse jogo, “Amar e brincar” como fundamento do humano não pode cair no esquecimento”. A pergunta desencadeia uma série de análises que fomenta um pensar do passado em detrimento ao futuro. Nesse percurso passamos por vários pontos que até então estavam adormecidos em nossos pensamentos. Como disse Saint Exupéry: ” O que é importante não se vê…” Sendo assim, sentir seria o primeiro passo para responder ao questionamento da aula, deixar os pensamentos aflorarem, permitir-se chorar, rir, cantar. Reconhecer que castramos nossos sentimentos em função de uma coletividade que impõem regras e tabus em nossos pensamentos, sentimentos e ações. Ditando o que devemos pensar, fazer e ser. O espaço físico escolhido para construção do cenário foi intencional, pois nele são depositados os momentos de descontração, conversas, criação e reflexão. Consideramos a área de serviços o local mais agradável entre os cômodos, não sabemos bem explicar o motivo, pode ser o fato de ser um espaço amplo, aberto, entrada dos mais íntimos no interior do mesmo. O fato consiste que no momento da construção do cenário, todo o material estava disposto no local, algo que inconsciente.
Auto Formação Humanescente: descobrir-se num mar de emoções
O jogo de areia é uma atividade que “cria e que recria a vida a partir de imagens, de cenários vivos e vividos pela imaginação, revelando sutilezas profundas da subjetividade humana” (CAVALCANTI, 2008, P.14). Nessa perspectiva construímos o cenário com o jogo de areia para responder o questionamento (Ver Fotos 01 a 12). O cenário foi construído em uma bandeja plástica com areia e miniaturas de objetos que tomam significados próprios no momento da criação. Para responder a pergunta se fez necessário a criação de 06 (seis) mim cenários, todos interligados por relações que surgiam a partir das lembranças e reflexões no momento do manuseio dos objetos. Para entender melhor os cenários serão descritos e indicados em fotografias, tais:
1º Cenário: Violetas em um jarro na parte central inferior da bandeja (Ver Foto 06). Segundo a cromoterapia a cor lilás é uma cor metafísica. É também a cor da alquimia e da magia. Ela é vista como a cor da energia cósmica e da inspiração espiritual. É excelente para purificação e cura dos níveis físico, emocional e mental. Ajuda a encontrar novos caminhos para a espiritualidade e a elevar nossa intuição espiritual. Traz poderes mentais, evolução. Embasada nessa teoria, iniciamos um momento de viajem pessoal em busca do eu perdido, por meio de emoções e reflexões. Assim tivemos inicio com as análises referentes às condições criadas para autoformação humanescente. Reconhecer/Avaliar os erros e acertos direcionando-os para um fluir de energia positiva na tentativa de uma evolução pessoal.
2º cenário: Flores vermelhas no canto inferior esquerdo da bandeja (Ver Foto 07) A cor vermelha simboliza o fogo, o calor, a saúde, o calor do sangue, a nobreza, a audácia, a impulsividade, as paixões, a sexualidade. Traduz a agressividade, a ação, a conquista, a liderança, a atividade. Entretando ao posicionar as flores em um recuo de canto na bandeja, ficou visivel a repressão, o inibir desse conjunto de vitalidade.
3º Cenário: Os anjos da música em um chão coberto por flores azuis (Ver Foto 08). Nesse cenário a sencibilidade é enaltecida, a arte, a criatividade, o belo, o pético é despertado e recebido com chuva de flores para comemorar a volta desse sentimento que até então estava esquecido.
4º Cenário: As bolinhas de gude ao centro da bandeja (Ver Fotos 06, 07 e 09). A representatividade das mesmas tem o intuito de demonstrar a beleza que existem no interior de cada um de nós. Muitas vezes não nos percebemos enquanto diferentes e relativizamos o grupo como sendo todos iguais, não usamos os olhos do coração para ver as particularidades de cada um e nem a nossa beleza interior. 5º Cenário: Um coração vermelho amparado por duas corujas musicistas, um chão de pedras e sementes (Ver Foto 13). Para construir esse cenário, foi difícil adentrar no coração e vivenciar momentos que refletiam boas e más lembranças. As corujas musicistas representam a necessidade da sensibilidade para por de pé os sentimentos, as sementes são as esperanças lançadas em terreno fértil, e as pedras são os impecílios que vivenciamos e são tão importantes para o amadurecimento do ser, tornando a terra dos nossos sentimentos adubada para a próxima plantação.
6º Cenário: Uma caixinha de papel com 02 galinhas d’água dentro da mesma nadando em sentidos opostos e uma por entrar. Nessa representatividade temos as buscas por aprimoramento pessoal, nadando num lago de expectativas, sentimentos, desejos, angústias, medos, alegrias e paixões. Possibilitando assim, uma analise reflexiva pessoal para descobrir, redirecionar e aprimorar a busca pela humanescencia.
Segundo o Artigo 5 da Carta da transdiciplinaridade: “ A visão transdiciplinar é completamente aberta pois, ela ultrapassa o domínio das ciências exatas pelo seu diálogo e sua reconciliação não somente com as ciências humanas, mas também com a arte, a literatura, a poesia e a experiência interior”. Nesse respaldo foi direcionado o relato, em possibilidades de reconciliação do eu interior com o eu exterior, favorecendo boa condição para autoformação humanescente.
Considerações Finais
Crio melhores condições para minha autoformação humanescente quando inicialmente percebo-me um sujeito passivo a falhas, e em eterna construção. Então, as cobranças internas amenizam me proporcionando um olhar diferenciado para as falhas cometidas para comigo e para com os outros, me autorizando errar de vez por outra. Reconhecendo que esses erros me ajudam, me ensinam, me favorecem e a partir dos mesmos, posso redirecionar idéias, ações e sentimentos. Segundo o Artigo 13 da Carta Transdiciplinar (1994):
A ética transdisciplinar recusa toda atitude que recusa o diálogo e a discussão, seja qual for sua origem – de ordem ideológica, científica, religiosa, econômica, política ou filosófica. O saber compartilhado deverá conduzir a uma compreensão compartilhada baseada no respeito absoluto das diferenças entre os seres, unida pela vida comum sobre uma única e mesma Terra.
Sendo assim, crio condições para minha autoformação humanescente quando permito expor sentimentos sem medo, sem tabus, sem o olhar da repressão social (juiz impiedoso) que nos impõem um papel severo e sem sentimentos, sem sonhos ou anseios. Crio condições para minha autoformação humanescente quando permito meu eu/self aflorar, sentir e viver livre das amaras impostas a ele. Concluímos a partir do escrito de Saint-Exupéry que nos diz:
As pessoas vêem estrelas de maneira diferente. Para aqueles que viajam, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes. Para os sábios, elas são problemas. Para o empresário, eram ouro (SAINT-EXUPÉRY,2006, p. 87).
A subjetividade humana enriquece a diversidade, transformando o monótono em alegre, colorido e lúdico. Auxilia na compreensão do mundo enquanto patrimônio da humanidade. Exerce o respeito para a dignidade humana, focando o melhor de cada um, a pluralidade de idéias.
Referências
CAVALCANTI, Kátia Brandão. Jogo de Areia e transdisciplinaridade: desenvolvendo abordagens ludopoiéticas para a educação e a pesquisa do lazer. Revista Licere, vol. 11 (3), 2008b.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 28. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
FREITAS, Lima de; MORIN, Edgar; NICOLESCU, Basarab. Carta da Transdisciplinaridade, Arrábida,Portugal, 1994.
MATURANA, Humberto e VERDEN-ZÖLLER, Gerda. Amar e brincar. Fundamentos esquecidos do humano. Trad. Humberto Mariotti e Lia Diskin. São Paulo: Palas Athena, 2004.
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 6. ed. São Paulo, Cortez, 2002.
SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. O Pequeno Príncipe. 48. ed. Trad. Dom Marcos Barbosa. Rio de Janeiro: Agir, 2006.
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