UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE-UFRN PROGRAMA DE PÓS –GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO-PPGEd ATELIÊ DE PESQUISA: ABORDAGENS METODOLÓGICAS PARA CORPORALIZAR A EDUCAÇÃO
SEGUNDO ENCONTRO VIVENCIAL O QUERER BEM NA MINHA PRÁTICA DOCENTE
MARIA AUXILIADORA DE MEDEIROS
NATAL/RN 2009 O QUERER BEM NA MINHA PRÁTICA DOCENTE
Relatar a terceira experiência vivencial do Ateliê de Pesquisa: Abordagens Metodológicas para Corporalizar a Educação para muitos seria apenas mais uma ação descritiva, já que somos seres comunicativos por excelência, mais uma forma narrativa de desenvolver esse relato. Entretanto, para esse relato, bem como os relatos anteriores, neles estão depositados expectativas, anseios, prazer e amor diferenciando-o assim, de um simples relato, de ser mais uma narrativa.
Figura 1
Vivenciar, sentir, incorporar essas palavras descreve o primeiro momento do dia 15 de setembro, momento esse marcado por um ambiente harmonioso que acolheu a temática: “Vivências marcantes do querer bem em sua vida profissional”. Assim, damos inicio a uma viajem ao mundo das emoções. Algum tempo atrás tive o prazer de ser apresentado ao jogo de areia, amor a primeira vista posso descrever assim o nosso encontro. Fascínio, paixão, encantamento, me perguntava como algo aparentemente simples podia exercer tão significativa influencia no outro. Todas as vezes que brinco com a caixa de areia viajo ao centro de mim, percebendo algo diferente, despertando e aceitando coisas que estavam adormecidas, fadadas ao esquecimento. A temática da manhã proporcionou uma reflexão profunda na qual ainda não tinha experenciado com tamanha intensidade, a partir da construção do jogo de areia transmiti o meu querer bem mediante essa manhã de vivências.
E o que dizer, mas, sobretudo que esperar de mim, se, como professor, não me acho tomado por este outro saber, o de que preciso estar aberto ao gosto de querer bem, à coragem de querer bem aos educadores e à própria prática educativa de que participo. (FREIRE, 1996, p.141). Freire finaliza o terceiro capitulo pontuando um tema que se faz indispensável na prática profissional, esse em especial para prática docente, o querer bem a profissão/atuação. Dava-se inicio a construção do cenário por meio do jogo de areia
Figura 2 Figura 3Inicialmente veio a mente vários momentos vivenciados por mim, os quais gostaria de retratá-los em sub cenários, a principio, a organização mental da construção, a seleção das cenas, o que sentia no momento, viabilizava uma viajem ao centro de mim. Fui construindo passo a passo os sub cenários, mergulhada nas lembranças, relembrando alguns momentos vividos enquanto experiência profissional que me proporcionavam, cada vez mais, reflexões sobre minha prática docente.
Figura 4 Figura 5Compondo o cenário, disponibilizei 04 cenas distintas para retratar em 04 sub cenários as experiências que marcaram minha prática docente.
No 1º Sub cenário (figuras 04 e 05), utilizei sementes e pedras vermelhas, grãos marrons e flores azuis com folhas verdes para descrever um jardim, um espaço físico delimitado, entretanto de uma beleza sem igual. Assim vejo a sala de aula na qual partilho todas as noites na escola, momentos felizes e de trocas. Experiência única, enquanto docente, muita luta, mas o prazer supera todos os obstáculos. O sujeito que se abre ao mundo e aos outros inaugura com seu gesto e relação dialógica em que se confirma como inquietação e curiosidade, como inconclusão em permanente movimento na história (FREIRE, 1996, p.136). Nessa perspectiva considero minha abertura ao novo, ao desafio, a busca, ao saber, uma abertura que favorece meu crescimento pessoal, pois o fato de abrir-se para o outro nos proporciona trocas nas quais ganhamos sempre quando sabemos escutar. Essa lição aprendi com os alunos da Educação de Jovens e Adultos-EJA.
Figura 6 Figura 7No 2º Sub cenário (figuras 06 e 07), utilizei raspa de madeira, pedras vermelhas, sinos e malas para simbolizar minha trajetória nesse planeta. As raspas de madeira e as pedras representam as dificuldades e adversidade que encontramos nos nossos trajetos, estes indispensáveis para nosso crescimento, as malas simbolizam os conhecimentos que adquirimos na caminhada mediante os erros cometidos, bem como os acertos e os sinos sonorizam minha passagem, gosto de deixar registros de minha estadia aonde vou. Isto sabe.
Todas as coisas estão ligadas como o sangue que une uma família… Tudo o que acontece com a Terra, acontece com os filhos e filhas da Terra. O homem não tece a teia da vida; ele é apenas um fio. Tudo o que faz à teia, ele faz a si mesmo (CAPRA, 1996, p. 09)).
Nossas ações exigem reações as quais atingem uma área na qual não fazemos idéia da dimensão, quer seja de âmbito pessoal, ou social. Com essa citação corroboro com a idéia de que tudo está interligado, tais: os erros para nos ensinar, viver para morrer, o bem para o mal.
Figura 8 Figura 9No 3º Sub cenário (figuras 08 e 09), utilizei flores plantadas em jarros, 01 mala, 01 lixeiro, 01 jarro com uma flor de tamanho maior que as demais me representando, pois essa era a minha brincadeira favorita quando criança. Sempre soube em que gostaria de trabalhar, desde criança, minha vocação é o magistério, ao construir esse sub cenário em particular, me fez refletir algo que já tinha conhecimento, entretanto, não tinha externado a idéia de que estou atuando no lugar certo. Quando me vejo encantada pela educação e contagiando os meus pares percebo o quanto sou feliz por fazer profissionalmente o que amo, independente dos fatores que circundam negativamente a docência. Por isso é que, na formação permanente dos professores, o momento fundamental é o da reflexão crítica sobre a prática. É pensando criticamente a prática de hoje ou de ontem que se pode melhorar a próxima prática Freire (1996). A prática docente sem encantamento está fadada ao fracasso do aluno, bem como do professor. Esse encantamento remete o respeito ao outro, o pensar criticamente a práxis para corrobora na prática consciente e ética.
Figura 10 Figura 11No 4º Sub cenário (figuras 10 e 11), esse é representado por 02 bonecos que brincam com uma pedra. Essa representação diz respeito aos Atendimentos Educacionais Especializados – AEE, nos quais realizo na escola no turno diurno. O atendimento me realiza, pois olhar o mundo pela ótica de uma criança é não ver maldade, malícia, erros ou injustiças, me remete a sonhar ainda mais por dignidade e igualdade de direitos para todos. Esse, só a educação poderá propiciar. A pedra que esta entre as duas crianças faz alusão ao texto intitulado “A pedra em nosso caminho” diz assim:
Texto: A pedra em nosso caminho Autor: José Fabiano Bezerra Lô
O distraído nela tropeçou… O bruto a usou como projétil… O empreendedor, usando-a, construiu… O camponês, cansado da lida, dela fez assento… Para meninos, foi brinquedo… Drumond a poetizou. Já, David matou, Golias e Michelangelo extraiu-lhe a mais bela escultura… E em todos esses casos, a diferença não esteve na pedra, mas no homem! Não existe pedra no seu caminho que você não possa aproveitá-la para o seu próprio crescimento. Cada instante que passa é uma gota de vida que nunca mais torna a cair, aproveite cada gota para evoluir…
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A prática do jogo de areia segundo Kalff (1980) “não é apenas um método de terapia, mas um meio ativo através do qual os conteúdos da imaginação são feitos reais e visíveis”. .A vivência com jogo de areia para mim é um momento significativo, representação viva do amor que temos e está escondido/adormecido dentro de nós. Capra (1996) nos diz que “para recuperarmos nossa plena humanidade, temos de recuperar nossa experiência de conexidade com toda a teia”. Na construção dos sub cenários através do jogo de areia, foi despertado sentimentos tais: desejo, interesse, solidariedade, união, pois a integração do mesmo (jogo/pessoa) favorece as reflexões e esses deságuam em mudanças. Mudanças para que este querer bem possa fluir em nosso dia-a-dia, quer seja na vida profissional ou pessoal.
REFERÊNCIAS CAVALCANTI, Kátia Brandão. Jogo de Areia e transdisciplinaridade: desenvolvendo abordagens ludopoiéticas para a educação e a pesquisa do lazer. Revista Licere, vol. 11 (3), 2008b.
CAPRA, A Teia da Vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. Tradução Newton Roberval Eichemberg. São Paulo: Cultrix, 1996. 256 p. Título Original: the web of life: a new scientific understanding of living systems.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e terra, 1996.
Kalff, D. (1980). Sandplay: A psychotherapeutic approach to the psyche. Santa Monica, CA: Sigo Press.
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