Sempre em meio a ousadia do ensinar e do saber, busquei  compreender as coisas que eram ditas durante as aulas de Prática Pedagógica na EJA e na Educação Popular no ano de 2006. Tudo e todos bem heterogêneos, como nunca havia visto antes em uma turma de Mestrado em Educação (nem da graduação em Pedagogia). Mas todos ligados ao interesse pela Educação (penso eu), principalmente aqueles que continuaram e aceitaram os desafios que se apresentavam a cada momento. Parecia uma salada...e como haverão de concordar comigo: que deliciosa salada!!! Cada um com suas concepções, ora coincidentes com as apresentadas no livro (fonte de verdade para muitos), ora condizentes com suas próprias vivências da realidade, muitas vezes, nada, nada fáceis de entender.

         É, parece mesmo que precisamos acabar com essa história de "exatamente, plenamente“, os provébios parecem não mais responder às nossas perguntas  e se faz nessário considerarmos, como o Profº João Francisco bem colocava, a nossa situação de seres inconclusos, mutantes, diria eu, diante de tantas idéias e vivências que não necessariamente apresentam coerência. Aliás ao que parece, alguns componentes da salada buscavam a coerência a todo momento...por que o pepino tá perto da manga rosa? E a salada mistura fruta com legumes? Perguntas muitas vezes, ao meu ver, quase escolásticas...Daquelas que se existe resposta em nada muda a realidade e só ficam na esfera da teoria.

     E dizia Mel, agora Doutor em Educação (componente interessante da salada) aqui é tudo muito bonito, as "tiurias“,  eu quero ver é no miudinho, no dia a dia. E haja questionamentos, discrepâncias, e eu ora concordei, ora discordei e na maioria da vezes, calei. Mas no meu silêncio as coisas iam fluindo...

         E nessa tentativa de contrapor a consciência crítica com a ingênua, a leitura do livro E a Educação Popular: ¿¿ Quê?? Uma Pedagogia para fundamentar a Educação, inclusive Escolar, necessária ao povo brasileiro, aponta que a busca deve ser por uma educação emancipadora que garanta as condições para a construção das subjetividades e isso parece ser possível se colocarmos em uma perspectiva da ética. Concordo!!! Respeitando a diversidade, construída desde as diferenças, as desigualdades e exclusões de ordem política, econômica, estrutural. É o que nos falava o Profº João, salientando que a nossa capacidade de reagir é que pode salvar (e salva ) a educação. Ou eu aceito, ou rejeito, ou transformo. Não dá pra ficar fazendo média, não é!?

      Em alguns momentos a conversa era de dar água na boca, a salada ganhava mais cor e sabor, mesmo quando se dividia...Era um caos pedagógico para alguns academicistas de cateirinha mas, para nós, a " manifestação inicial da interculturalidade“ em sua forma mais simples. Em uma concepção de prática pedagógica como a posta na teoria do Profº João e que, circundada pela afetividade, vivenciamos ali, em sala de aula, de situações inesperadas, fortes, que marcam e refletem o nível de complexidade da  então Práxis Pedagógica ou seja a Prática refletida e teorizada, como denominou com propriedade o Profº João Francisco de Souza, totalmente iluminado pelas idéias e ideais freireanos.

      Considero que indiscutivelmente, a constatação de práticas viciadas no âmbito escolar atesta a dificuldade na assimilação de uma nova postura educacional, como muitas apontavam "as frutas“... Ops!! Os colegas presentes, em face do ensino e, particularmente, da Educação de Jovens e Adultos. Uma dificuldade que se explica pela força das práticas tradicionais que permanecem às custas das configurações estruturais e políticas (a inércia), o discurso que prevalece, da formação ainda precária dos educadores e, finalmente, de complexos mecanismos de resistência intra-escolar, de certa forma, pouco estudados e compreendidos.

      A despeito disso, não posso dizer que a escola permanece imune às contribuições teóricas, aos apelos das novas propostas pedagógicas ou às exigências democráticas. Muito pelo contrário, os esforços de renovação são evidentes (em maior ou menor grau, com mais ou menos eficiência) tanto na proposta formalmente assumida como nas práticas em sala. Curiosamente, os mesmos professores que, de modo involuntário, patinam nos vícios das tarefas inadequadas são aqueles que, em outras oportunidades, chegam a sugerir atividades bastante ajustadas, comprometidas com o processo de aprendizagem, o respeito e a formação do educando.

      Vivemos, portanto, em um momento educacional peculiar que, pedagogicamente, se caracteriza pela convivência entre o saber e o não saber, a busca e a resistência. Nessa fase de transição, somos obrigados a admitir que, de fato, a escola vem sofrendo um considerável impacto, mas que a assimilação do novo é ainda inconsistente. Mas a falta de Formação não é exatamente o problema, penso eu,  pelo menos não o único. Eu diria, que o "envolvimento, comprometimento“ sim, faz falta, inúmeras vezes.

      É assim que, ao lado de algumas práticas indiscutivelmente renovadas, prevalecem concepções elitistas de ensino incompatíveis com o processo de transformação da escola e da sociedade. Pensando nesses vícios, impõe-se a necessidade de apontar os seus significados. Em primeiro lugar, há que se criticar o conceito de aprendizagem lamentavelmente compreendido como um processo linear e cumulativo, que se processa como resultado da somatória de informações oferecidas ao educando na trajetória pré determinada do programa didático. Em conseqüência disso, o papel atribuído às tarefas escolares, comprometidas com o esforço de sistematização para o estritamente escolar, distancia-se do mundo, da realidade do educando,  em práticas artificiais em sem sentido.

      No caso do ensino da escrita, as lições ficam circunscritas ao exercício motor e ao treinamento do código (vivências de leitura e escrita) em detrimento das possibilidades de reflexão, descoberta e uso (experiências de linguagem). Finalmente, a língua escrita continua sendo tomada na sua dimensão técnico instrumental, um sistema de regras e normas a serem compreendidos e exercitadas, parece até que Paulo Freire nunca existiu.

      A difícil permeabilidade das concepções à prática pedagógica baratinam o compromisso de transformação da escola que, hoje, se anuncia timidamente pelo esforço de professores bem intencionados, por iniciativas eventualmente renovadas e por belos projetos pedagógicos que, muitas vezes, não saem do papel, o que muitas vezes questionou-se em meio as nossas conversas. A confusão de metas e princípios compromete o projeto educacional (a coerência de suas práticas ao longo da progressão escolar) impondo, ao lado dos saberes previstos mas nem sempre garantidos, uma outra ordem de aprendizagem, os saberes indiretamente conquistados embora menos desejáveis. Esse é o caso de muitos educandos que até aprenderam a escrever, mas aprenderam também a não gostar da escola, a trapacear a professora, a não desejar o conhecimento, a não se aventurar nas possibilidades de expressão, a valorizar a aprendizagem por suas recompensas externas... Esse é o caso das escolas que, mesmo se propondo a ensinar, traem os princípios democráticos porque perpetuam os mecanismos de resistência ao saber e as práticas sociais de alienação.

      É nesse contexto que sempre voltavámos a conversar sobre os conceitos de Educação, Pedagogia, digo conversar porque entendo que a discussão prende-se ao assunto tratado e durante as aulas não haviam "correntes“... (E a salada ficava bem soltinha e pronta para quem quisesse experimentar) e as nossas conversas, dialogavam ainda mais significadamente com a proposta da Educação Popular, com os pressupostos de uma educação emancipatória que não toma os conhecimentos populares como justificativa para submeter-se e  cujo o objetivo não é a formação do trabalhador, e sim a do ser humano que busca através do trabalho (não alienado) transformar a realidade vivenciada, cujo começo e fim da Educação seja a humanização da humanidade.