Pensando na possibilidade da EP que aproxime mundo acadêmico do saber-fazer escolar, mediado na formação continuada de professores, temos a contribuição fundamental de Paulo Freire, apresentada por Ana Maria Freire:

 [...] para Paulo a Paz não é um dado dado, um fato intrinsecamente humano comum a todos os povos, de quaisquer culturas. Precisamos desde a mais tenra idade formar as crianças na "Cultura da Paz", que necessita desvelar e não esconder, com criticidade ética, as práticas sociais injustas, incentivando a colaboração, a tolerância com o diferente, o espírito de justiça e da solidariedade. (2006, p.391)

       Compartilhando dessa afirmação, apontamos para uma das principais questões da discussão pedagógica da paz, que é sua estreita relação com o olhar crítico e profundo do tema. A paz não é uma condição natural, assim como não o é a violência, posto que ambas são processuais e construídas. Sendo assim, parece aceitável que se explicite um corpo de conhecimento que pense a paz, na educação e na formação de professores, como um conjunto de saberes, práticas e experiências passíveis de reflexão, análise e sistematização. Ainda nesse caminho, Freire diz, ao receber o Prêmio UNESCO da Educação para a Paz de 1986:

De anônimas gentes, sofridas gentes, exploradas gentes aprendi sobretudo que a Paz é fundamental, indispensável, mas que a Paz implica lutar por ela. A Paz se cria, se constrói na e pela superação de realidades sociais perversas. A Paz se cria, se constrói na construção incessante da justiça social. Por isso, não creio em nenhum esforço chamado de educação para a Paz que, em lugar de desvelar o mundo das injustiças o torna opaco e tenda a miopizar as suas vítimas. (apud FREIRE, 2006, p.388)

       Na linha do pensamento de Paulo Freire nos aproximamos de questões presentes aos educadores brasileiros. É difícil acreditar que existam educadores que pensem que suas aulas estão desligadas do cotidiano de seus alunos e que acreditem que o conteúdo é a única forma de mediação entre si mesmo e os alunos. Assim, também é difícil pensar que existam educadores que afirmem que a paz, ou uma EP, não está diretamente relacionada com questões fundamentais na educação e da escola. Nesse caminho, podemos dizer que a construção objetiva da EP na educação brasileira, passa por reconhecer essa forte relação com o pensamento educacional de Paulo Freire, expressa por Ana Maria Freire:

A Paz tem sua grande possibilidade de concretização através do diálogo freireano porque ele inscreveu na sua epistemologia crítica a intenção de atingí-la. O diálogo que busca o saber fazer a Paz na relação entre subjetividades entre si e com o mundo e a objetividade do mundo, isto é, entre os cidadãos e a possibilidade da convivência pacífica, é a que autentica este inédito-viavel. (2006,p.392)

       Apontar para a relação entre subjetividade e objetividade, através do diálogo que busca a paz, aproxima também questões que circundam e se entrelaçam na discussão da paz. Complexidade, teoria crítica, inter e multidisciplinaridade, transversalidade, pós-modernidade, entre tantas contribuições filosóficas e sociológicas que fazem parte dessa construção, com a atenção óbvia ao relativismo ou superficialidade, mas com abertura ao diálogo e aproximação.

       Observar que a EP é tarefa importante e que inúmeros educadores têm se preocupado com ela é fundamental; entretanto, surge a pergunta: como articular esse conhecimento? Quais os caminhos para se educar para a paz? Ainda com Paulo Freire, podemos supor princípios básicos da EP a se pensar na formação de professores:

 É preciso que saibamos que, sem certas qualidades ou virtudes como amorosidade, respeito aos outros, tolerância, humildade, gosto pela alegria, gosto pela vida, abertura ao novo, disponibilidade à mudança, persistência na luta, recusa aos fatalismos, identificação com a esperança, abertura à justiça, não é possível a prática pedagógico-progressista, que não se faz somente com ciência e técnica. (1997, p.136).

       Nessas palavras, percebemos como subjetividade e objetividade, sendo complementares, trazem saberes para pensar em cultura da paz, na medida em que amor, humildade, gosto pela vida e pelo trabalho e abertura ao novo são palavras muito presentes no fazer da vida e ainda pouco discutidas na formação de professores. Obviamente, esse currículo oculto sobre o ser (pessoa/professor) abre para perspectiva da diversidade, inevitável na vida e na educação. Nesse caminho, entendemos que diversidade, conflitos, diálogo e construção são fundamentais para o crescimento individual e coletivo.

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