Breve reflexão... 

Como podemos destacar:

 Toda relação humana implica determinado modelo de convivência que pressupõe determinados valores, formas de organização, sistemas de relação, normas para enfrentar conflitos, formas linguísticas, modos de expressar os sentimentos, expectativas sociais e educativas, maneiras de exercer o cuidado etc. (JARES, 2006, p. 15).

 

 Quando o autor destaca este processo, vemos de maneira mais pontual como as relações humanas e os processos de convivências escolares que influenciam e são influenciados pelas escolhas que fazemos como professores. No limite, poderíamos dizer que muitas de nossas escolhas, em relação às formas de procedermos em situações de ensino-aprendizagem, interferem não apenas em relação à aquisição dos conhecimentos específicos de determinadas áreas do conhecimento, mas condicionam, em grande medida, os modos de nos relacionarmos com os outros, em perspectivas individuais ou coletivas.

Essa reflexão, para a Educação é fundamenta para que outras formas de entender estas práticas também sejam possíveis. Como afirma Jares (2006, p. 15), “[...] a aprendizagem da convivência – para sermos mais precisos, de um determinado modelo de convivência – é inerente a qualquer processo educativo.”

Ainda nesse raciocício, mais uma provocação nos é feita:

 [...] mas a educação, consciente ou inconscientemente, sempre leva consigo uma determinada acepção de convivência. Consequentemente, a primeira incumbência é nos interrogarmos sobre o tipo de convivência na qual aspiramos viver e para qual pretendemos educar, conscientes de que, em ambos os desafios, jogamos boa parte de nosso futuro. (JARES, 2006, p. 16).

 A reflexão sobre qual convivências pretendemos para a nossa vida e trabalho, nos aproxima de maneira forte de uma das discussões mais presentes hoje nas escolas, as violências. Nessa discussão, o NEP, quando de sua estruturação, observa e segue algumas questões-chave. A primeira delas é o entendimento de Cultura de Paz, embora conceitualmente várias perspectivas sejam importantes, optamos pelo entendimento básico da UNESCO que diz:

 A cultura da paz se constitui dos valores, atitudes e comportamentos que refletem o respeito à vida, à pessoa humana e à sua dignidade, aos direitos humanos, entendidos em seu conjunto, interdependentes e indissociáveis. Viver em uma cultura de paz significa repudiar todas as formas de violência, especialmente a cotidiana, e promover os princípios da liberdade, justiça, solidariedade e tolerância, bem como estimular e compreensão entre os povos e as pessoas. (apud MILANI, 2003, p. 36).

Entendemos que o conceito de Cultura da Paz ainda está em construção, carecendo de debate e discussão “que equilibre especificidade e abrangência, consistência e fluidez, bem como aplicabilidade aos inúmeros contextos e realidades” (MILANI, 2003, p. 37). Se o conceito de Cultura da Paz está em construção, podemos dizer que a Educação para a Paz, como um possível ramo pedagógico do movimento da Cultura de Paz, ao mesmo tempo em que faz sua estruturação de conhecimento, já traz muita discussão educacional que lhe dá suporte. Isso fica evidenciado ao analisarmos o que nos diz Milani:

No que se refere à escola, a abordagem da Cultura da Paz ressalta diversas necessidades e estratégias: uma relação educador-educando fundamentada no afeto, respeito e diálogo; um ensino que incorpore a dimensão dos valores éticos e humanos; processos decisórios democráticos, com a efetiva participação dos alunos e de seus pais nos destinos da comunidade escolar; implementação de programas de capacitação continuada de professores; aproveitamento das oportunidades educativas para o aprendizado do respeito às diferenças e a resolução pacífica de conflitos; abandono de modelo vigente de competição e individualismo por outro, fundamentado na cooperação e no trabalho conjunto, etc. (2003, p. 39).

Podemos observar que o proposto acima está em sintonia com grande parte da discussão educacional brasileira dos últimos anos. Uma educação com perspectiva crítica, dotada de maior possibilidade de autonomia, participação e onde os professores tenham formação de qualidade voltada para o desenvolvimento dos alunos e da sociedade. Nesse sentido, reconhecidamente, a formação continuada de professores tem avançado em quantidade e qualidade.

Contudo, também é verdade que esse avanço está voltado mais para a discussão teórica e metodológica das áreas de conhecimento já constituídas e, em menor escala, para as questões relacionadas à violência, paz e conflitos. Parte disso decorre porque existe a percepção de que as áreas específicas podem incluir os temas da violência e paz junto aos conteúdos já constituídos historicamente. Por outro lado, ainda não fica claro para muitos professores por que e como fazer isso em seu trabalho.Assim, considerando a dificuldade de perceber essa perspectiva de Educação para a Paz, podemos entendê-la no contexto que diz:

A tarefa de desnaturalização dos conceitos de paz e de violência é essencial para a construção da cultura de paz. É umtrabalho que segue o caminho educativo, passando necessariamente pela escola. Ao mesmo tempo a desnaturalização de nossas representações sobre paz e violência, conduz-nos a entendê-las como noções pedagógicas, enquanto entidades culturais e, portanto, construídas, ensinadas, aprendidas (GUIMARÃES, 2004, p. 67).

Considerando esta complexidade, podemos objetivar e dizer que a Educação para a Paz, pensada nas múltiplas realidades das escolas brasileiras, tem a função de discutir violências, paz e conflitos numa perspectiva crítica, criativa e relacionada com a estrutura das relações humanas na vida pessoal e em sociedade. Aqui a idéia de Paz é redimensionada das idéias tradicionais da “pombinha branca” ou do “ser bonzinho”, para a observação de questões estruturais e culturais que refletem no cotidiano das relações humanas nas escolas e comunidades.

Nesse raciocínio, na medida em que fica mais clara a perspectiva da Educação para a Paz dizemos que:

A questão é o que a educação pode fazer para promover esse tipo de paz como justiça e desenvolvimento? O nosso argumento, retomando o que já vinha sendo discutido pelos teóricos da EP, é que não é suficiente informar sobre as injustiças e desigualdades para se criar uma atitude necessária para superar as injustiças sociais. Mas importante que o quê ensinamos é como ensinamos. (RABANNI, 2003, p. 77).