EDUCAÇÃO PARA A PAZ E EDUCAÇÃO EM  VALORES HUMANOS: POSSIBILIDADES PARA A O CORPO E A EDUCAÇÃO FÍSICA

 

Nei Alberto Salles Filho - UEPG/PR

  RESUMO :

O presente artigo vai abordar características gerais sobre os movimentos educacionais denominados “Educação para a Paz” e “Educação em Valores Humanos”, objetivando situar possibilidades da inserção do pensar o corpo e a Educação Física escolar dentro dessas abordagens. O que se busca são novos olhares para as práticas da cultura corporal de movimento, privilegiando a dimensão do corpo sensível como superação do paradigma fragmentado da instituição escolar.

 

Na busca de outras perspectivas na educação e na Educação Física, encontramos novas possibilidades de perceber questões até bem pouco tempo ignoradas pelos educadores. O que nos faz levantar essas questões é que cremos que as equipes pedagógicas têm, atualmente, oportunidades especiais de estabelecer, juntamente com professores, propostas diferenciadas no cotidiano escolar. O que definimos como diferenciadas, nesse recorte, são ações que possam buscar efetivamente novas perspectivas e possibilidades de transformação humana a partir do contexto educacional.

Segundo Martinelli[1], os atuais sistemas educacionais dissociaram aspectos materiais e espirituais, fragmentando o conhecimento e por conseguinte o desenvolvimento da personalidade dos alunos. Com isso, houve uma inibição da criatividade e da percepção superior. Para ela, a restauração da unidade e da integração do conhecimento só ocorrerá quando os valores morais e espirituais voltarem a fazer parte da educação.

Nesse sentido, percebe-se que o discurso educacional tem priorizado e valorizado possibilidades diferenciadas ao cotidiano escolar. Do relatório da Comissão Internacional de Educação realizado para a UNESCO [2], podemos extrair os quatro pilares básico para a Educação às portas do século XXI : aprender a fazer, aprender a conhecer, aprender a ser e aprender a viver juntos. Os dois primeiros pilares remetem à questões mais específicas sobre processo de produção de conhecimento, enquanto os outros encerram uma dimensão mais ligada à consciência e ao resgate do ser humano. Nos Parâmetros Curriculares Nacionais, (PCN´s/MEC) esses pilares foram adotados como pressupostos fundamentais, sendo que aprender a ser e aprender a viver juntos como aspectos a serem priorizados numa dimensão comunitária e cidadã.

Para dar conta dessas idéias foram organizados os temas transversais, isto é, questões sociais que podem ser discutidas e vivenciadas na escola. No entanto, os temas transversais (ética, saúde, orientação sexual, trabalho e consumo, meio ambiente e pluralidade cultural, possuem algo mais comum, que é a percepção e autoconhecimento do indivíduo. Por isso, optamos em levantar as questões a seguir, que englobam inúmeras possibilidades atuais de realizar a aproximação do aluno consigo mesmo, num “re-conhecimento” de suas qualidades humanas mais interiores, na busca de uma convivência mais pacífica, harmoniosa e qualitativa na escola.

Partimos inicialmente dos estudos encaminhados na perspectiva da “Educação para a Paz”, discutida e difundida pela UNIPAZ/Brasília, que levanta questões sobre a necessidade de mudança de paradigma em educação, que contemple aspectos de auto conhecimento e sensibilização. Nessa perspectiva, o paradigma emergente em educação abandona a noção única de informação, ensino limitado ao intelecto e instrução dirigida à memória e à razão, para o sentido da formação e educação da pessoa, ou seja, um processo de harmonização e de pleno desenvolvimento da sensação, do sentimento, da razão e da intuição. [3]

Nesse mesmo sentido, levanta-se a “Educação em Valores Humanos”, baseada na proposta de Sathya Sai Baba[4], que trabalha basicamente em função de cinco valores humanos: verdade, ação correta, amor, paz e não violência. O fato de existirem livros, sites, entre outros materias, faz com que seja muito rica uma discussão sobre o assunto para realmente dimensionar o papel da escola com os alunos e com a comunidade, no que tange às questões de violência, uso de drogas e demais mazelas sociais hoje tão presentes.

Para  criar uma prática pedagógica alternativa, a intenção é inserir a possibilidade de vivências de harmonização, sensibilização e dinâmicas lúdicas, ou sejam, trabalhos que tenham uma dimensão corporal, acessível a todos, visando um resgate da auto estima e auto conhecimento, aspectos fundamentais para se desenvolver qualquer trabalho em grupo.

Para isso tomamos um argumento de Celano : “Somos seres multidimensionais e nos sentiremos harmonizados se nossas ações, afetos, vontades, pensamentos, imagem, autopercepção  o ambiente e os níveis energéticos mais sutis estiverem em equilíbrio. O corpo é a expressão síntese de todas essas dimensões.” Nesse sentido,  Assmann[5] e Restrepo[6]  expressam algumas idéias de como pensar a processos de relacionamento (educação) no final do milênio dizendo a separação entre inteligência e afetividade parece ter sua origem no fato de que – diante de uma percepção  mediada pelo tato, pelo gosto,  e pelo olfato – o Ocidente preferiu o conhecimento através dos exteroceptores, ou seja os receptores à distância, como o são a vista e o ouvido. Nossa cultura é uma cultura visual auditiva. Assim, nossa herança autêntica é de tradição visual-auditiva, gerando uma falsa idéia que o corpo não deve merecer atenção.

Ainda de acordo com os professores, não cabe dúvida de que o cérebro necessita do abraço para seu desenvolvimento, e, as mais importantes estruturas cognitivas dependem deste alimento afetivo para alcançar um nível adequado de competência. Não devemos esquecer que o cérebro é um autêntico órgão social, necessitando de estímulos ambientais para seu desenvolvimento. Sem aconchego afetivo, o cérebro não pode alcançar seus ápices mais elevados na aventura do conhecimento.

Portanto, parece ser necessário substituir  as certezas e dos saberes pré-fixados, isto é, os conceitos de saúde, qualidade de vida e cidadania nos quais muitas vezes nos apoiamos sem reflexão, por uma pedagogia da pergunta, do melhoramento das perguntas e do acesso de informações, isto é discutir quais são realmente as noções de cultura corporal, qualidade de vida e cidadania concretas para nossa realidade, além de proporcionar um acesso (troca/discussão/proposição) nas informações.

Pensando nestas questões, levantamos argumentos estabelecidos pelo “Projeto Cooperação Global Para um Mundo Melhor”, estabelecido pela Organização das Nações Unidas em parceria com a Universidade Brahma Kumaris.[7]

Segundo esse projeto, que torna-se pano de fundo para a percepção da “Educação para a Paz” e a “Educação em Valores Humanos”, para um mundo melhor, seria necessário pensar em : reverência a vida; reconhecimento e respeito pela dignidade e integridade de cada ser humano; meio ambiente limpo, fresco, verde e com equilíbrio ecológico; todo ser humano seria saudável e alegre em espírito, mente e corpo; todo ser humano teria abrigo, alimento e água; todos os indivíduos estariam em paz consigo mesmos; haveria justiça social, econômica e política com ênfase em direitos humanos; haveria amor, confiança, amizade e entendimento em todos os relacionamentos; a vida em família seria cheia de amor, contribuindo para que o sentimento de uma família universal vivendo em harmonia; todos os indivíduos teriam oportunidades iguais para o crescimento, progresso educacional e emprego com total encorajamento para o desenvolvimento de todas as suas potencialidades; todo indivíduo gozaria de liberdade de expressão, movimento e ação, respeitando as liberdades e direitos de todos; haveria comunicação aberta e franca em todos os níveis da sociedade; haveria honestidade e um senso de responsabilidade dentro de organismos governamentais e em todos os setores da sociedade; haveria compromisso dos governos para trabalhar para o bem estar e progresso dos povos; haveria cooperação a nível local, nacional e internacional. 

Obviamente, as ações acima, mediadas na Educação Física poderão ser balizadas nesses princípios, mas relacionadas mais diretamente com a perspectiva das práticas corporais, pois como Brunhs[8] entendemos os indivíduos como seres humanos que vivem num corpo, um corpo que se relaciona, que cria, que se expressa, que sofre repressões, que vibra, que se movimenta. Portanto nossas ações devem ser pensadas sob o aspecto do corpo  sensível.

Assim em relação à Educação Física é necessário procurar discutir um novo olhar sobre as práticas do corpo, muito relacionadas no cotidiano à exercícios utilitários, isto é, como sacrifício para estética ou “saúde”. Portanto, as práticas corporais e o conceito de saúde tem contornos ligados muito mais ao consumo que à vivência pessoal do ser humano. Porém, saúde não é apenas ausência de doença. A  Organização Mundial da Saúde (OMS), considera a saúde como um estado de completo bem-estar físico, mental e social.

Nesse sentido[9] o bem-estar físico relaciona-se com hábitos saudáveis de alimentação, práticas corporais e ausência de vícios; o bem-estar mental é a possibilidade de trabalhar a auto-estima e a capacidade de estabelecer relações afetivas com as demais pessoas (o sentimento de amar e ser amado é uma valiosa manifestação desse plano); o bem-estar social depende, além da formação de cada um de nós, das nossas atitudes para com os outros e a comunidade em geral, assim, ser cooperativo e sociável desperta receptividade nas pessoas pois, é possível tornar a vida melhor optando pela cooperação ao invés do confronto, criando sistematicamente oportunidades de colaboração entre as pessoas.

            Como observamos, o bem-estar é a integração de muitas dimensões humanas – a emocional, a intelectual, física, espiritual e social – que expandem o potencial de cada um para viver, trabalhar e contribuir de forma mais significativa para a sociedade. Nesse aspecto, Guiselini comenta que é impossível falar sobre saúde e bem-estar sem referir-se à prática de atividade física, uma vez que ao serem exercitadas, as várias dimensões do potencial humano são postas em ação de forma integrada. Para Guiselini [10], a melhora do condicionamento físico – auto-imagem positiva, capacidade de suportar o estresse, maior conhecimento sobre o corpo – são alguns dos principais objetivos das práticas corporais, investindo contra o binômio estresse-sedentarismo, que constitui-se hoje num dos principais problemas em relação à saúde e qualidade de vida. 

            Portanto, a espontaneidade, o prazer, a simplicidade e a liberdade de escolha são fundamentais para a aquisição de hábitos saudáveis que, somados à discussão de cidadania, na perspectiva de criar condições materiais e ambientais favoráveis para a mudança do estilo de vida das pessoas, podem ser a base concreta na transformações de conceitos ligados às práticas corporais e saúde.

 


[1] Marilu MARTINELLI, Aulas de transformação: o programa de educação em valores humanos, 1996.

[2] O relatório intitulado Educação um tesouro a descobrir (1998), foi organizado por Jacques DELORS, coordenador da equipe internacional que levantou os principais aspectos da Educação para o início do século XXI.

[3] As questões levantadas podem ser aprofundadas no livro A mudança de sentido e o sentido da mudança de Pierre WEIL, 2000. Weil é o atual presidente da Fundação Cidade da Paz e reitor da Universidade Holística Internacional de Brasília –UNIPAZ.

[4] Espiritualista e educador indiano.

[5] Hugo ASSMANN, Reencantar a Educação : rumo à sociedade aprendente, 1998.

[6] Luís Carlos RESTREPO, O direito à ternura, 1998.

[7] O objetivo do referido projeto, desenvolvido entre 1988 e 1990, foi de identificar uma Visão Comum do futuro do planeta. Durante o período da estruturação da proposta, foram reunidas contribuições de pessoas, grupos, entidades e governos de 120 países. Essas idéias estão contidas em BROTTO, Fábio O., Jogos Cooperativos : se o importante é competir, o fundamental é cooperar, Ed. Re-Novada, Santos-SP, 1997. O documento original no qual foi baseada a proposta é : Brahma Kumaris World Spiritual University, ed. Visions of a Better World. London, United Nations Peace Messanger, 1982.

[8] BRUNHS, Heloísa (org). Conversando sobre o Corpo. Campinas, SP: Papirus, 1991.

[9] Síntese organizada por COSTA, Hélio e KARAM, Marcelo na proposta do Programa de Melhoria da Qualidade de Vida, realizado pelo Governo do Estado do Paraná para o Seminário de Atualização de Professores da Rede Pública Estadual de Ensino, na Universidade do Professor em Faxinal do Céu. 

[10] Reflexões de GUISELINI, Mauro. Atividade Física e Qualidade de Vida. Informativo da Phorte  Assessoria em Atividade Física e Saúde. Guarulhos, SP, 1999.