(*) fragmento de texto.

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 Paulo Freire, utopia e Educação para a Paz

No aprofundamento das questões sobre utopia no pensamento de Paulo Freire, Gadotti avança nas relações entre educação e utopia. Esta questão nutre a concepção necessária à formação de professores, especialmente no trabalho relacionado à Educação para a Paz, na medida em que inúmeros elementos se entrecruzam e são diretamente relacionados ao cotidiano escolar.

 

1º –– Para construir o futuro é preciso primeiro sonhá-lo, imaginá-lo. No seu último livro, Pedagogia da Autonomia, ele critica o neoliberalismo exatamente por negar o sonho, por ser fatalista, por negar a possibilidade de mudança. Para ele o neoliberalismo se apresenta, arrogantemente, como a plenitude dos tempos, não reconhece que a história continua se fazendo. (GADOTTI, 2003, p.114)

 

O sonho, a imaginação e a reinvenção são diretamente relacionadas à idéia do inacabamento do ser humano e, com isso, a história aberta como possibilidade. Isso é fundamental na formação de professores no sentido da busca do protagonismo nas ações. Em relação às questões da paz e violências, essa dimensão é fundamental para enfrentar o senso comum ligado aos discursos de que “o mundo é assim mesmo” que a “violência é natural ao ser humano” e outros, que buscam minimizar a discussão da Educação para a Paz como necessidade e possibilidade na escola e na formação de professores.

Existem muitos profissionais da educação que não conseguem encontrar motivos pessoais ou sociais para desenvolver seu trabalho com disposição. Quando explicitamos isso na formação continuada contribuímos no fortalecimento da Educação para a Paz. Como afirmou Freire, sobre o sonho possível: “Sonhar aí, não significa sonhar a impossibilidade, mas significa projetar. Significa arquiteturar, significa conjecturar sobre o amanhã” (2004, p.293). Na continuidade sobre sonho e utopia, Gadotti prossegue analisando o pensamento freireano.

 

2º –– A pedagogia é um guia na construção do sonho. Não basta sonhar. É preciso saber como construir o sonho. Paulo Freire apresentou os seus “saberes necessários” para realizar o sonho. Ofereceu em Pedagogia da autonomia, a mediação pedagógica necessária para conquistá-lo. Todos os livros de Paulo Freire são livros destinados à educação para construir o sonho. (GADOTTI, 2003, p. 114)

 

O sonho, entendido como a criação de um mundo melhor, com mais justiça, amorosidade, respeito aos outros, abertura ao novo, entre tantas possibilidades, é uma das riquezas de Paulo Freire. O sonho, longe de ser fator de imobilismo, é justamente o elemento mobilizador na busca por educação, escolas, salas de aula, enfim, toda a gama das convivências qualitativas entre as pessoas no universo educacional.

Vale ressaltar que a própria dimensão do sonho, muitas vezes, é tratada como “fraqueza” ou “bobagem” na sociedade atual, ou quando muito, um sonho ligado ao consumo material. Precisamos recusar com vigor essa percepção, na medida em que ela causa o imobilismo das ações em educação, tanto nas questões pessoais de educadores, quanto na energia necessária na reivindicação junto às políticas educacionais e à opinião pública. Como disse o próprio Paulo Freire: “Uma das tarefas políticas que devemos assumir é viabilizar os sonhos que parecem impossíveis” (1991, p.126). Gadotti complementa argumentando que:

 

3º –– A pedagogia vê primeiro o futuro, um futuro melhor para todos, a utopia. Depois é que ela se volta para o presente e para o passado. (2003, p.115)

 

Na possibilidade de uma Cultura de Paz na perspectiva apresentada, é importante projetar essa noção de futuro melhor, de preservação da vida e do planeta. No caso da formação de professores é fundamental que educadores e educadoras, homens e mulheres, seres no mundo, encontrem motivos concretos para fortalecer suas crenças e valores pessoais na vida comunitária, social e global.

Sobre um futuro melhor, a problematização do presente, repensado à luz da história, vai fornecer a condição de tratar as questões relativas à Cultura de Paz e da Educação para a Paz de maneira mais contextualizada e adequada às diferentes realidades educacionais. Nesse sentido, surgem os sonhos coletivos, fundados no mais humano que temos e que Freire chamou de inédito-viável, que é o novo, a novidade, fundamentada e coerente com as necessidades humanas e sociais e que é sonho possível, viável. Acreditamos que a Educação para a Paz pode ser o inédito-viável na formação de professores e na escola, pensada à luz do processo dialógico freireano.

 

4º –– A pedagogia freireana é dialógico-dialética. Não mecânica. A dialética continua válida desde que não exclua a subjetividade. Caso contrário ela se transforma numa mecânica sem sentido que lembra a divina providência cristã. A dialética mecanicista é idealista e idealizadora da realidade. (GADOTTI, 2003, p.115)

 

As idéias de tese, antítese e síntese como dimensões da dialética clássica são redimensionadas no pensamento de Paulo Freire. Para ele, o movimento dialético que nasce com predefinições e não está aberto verdadeiramente ao princípio da construção ativa na diversidade, fica ligado apenas ao ideal. A premissa do diálogo é fundamental pois indica que a história e a subjetividade humana estão em constante construção, sem haver predominância entre uma tese ou outra, mas sim, a importância de problematizar o mundo pelo diálogo transformador.

Em relação à paz, Cultura de Paz ou Educação para a Paz, estes argumentos são especialmente verdadeiros, pois ao negar a paz que surge dos conflitos e ao idealizar uma paz pura, toda a possibilidade do caminho das construções fica desvalorizado. Nesse sentido, a subjetividade, ou, as coisas todas vividas a acreditadas por educadores e educadoras são a grande força de construção da paz, nascidas da discussão das diferenças, da diversidade de vidas vividas, da necessidade do outro incondicionalmente para caminhos comuns. Por esse motivos, as ações do NEP/UEPG se concentram especialmente, na formação continuada de professores, partindo do cotidiano das relações de convivências, violências e paz, buscando o diálogo construtivo à partir delas. Nesse sentido, Gadotti expressa sobre a utopia em Freire:

 

5º –– A realidade nasce e morre todos os dias. Se alguém está vivo nasce e morre várias vezes ao dia. Todos têm direito ao sonho. Sempre é possível recomeçar. (2003, p.115)

 

Nessa percepção final sobre utopia, Gadotti, analisando o pensamento freireano, deixa clara a noção da construção permanente do mundo e da vida. Uma construção que nunca é dada, pois é reflexo do jogo das necessidades e ações humanas, fruto das objetividades e subjetividades, de momentos históricos e interesses, das motivações, vontades e opções de homens e mulheres vivendo em sociedade.

Por isso entendemos que, aprofundar a discussão sobre a Educação para a Paz em si e na sua relação com a reflexão sobre Cultura de Paz nas escolas, na formação de professores e na educação em geral, é parte do momento histórico onde as violências de toda ordem estão naturalizadas, colocadas como normais entre seres humanos, estruturas, com o próprio planeta e nossa sobrevivência.