Cultura da Paz e Educação para a Paz

Nei Alberto Salles Filho - fragmentos de artigo.

Embora conceitualmente várias questões mereçam destaque, optamos pelo entendimento básico Cultura da Paz, segundo a UNESCO:

 

A cultura da paz se constitui dos valores, atitudes e comportamentos que refletem o respeito à vida, à pessoa humana e à sua dignidade, aos direitos humanos, entendidos em seu conjunto, interdependentes e indissociáveis. Viver em uma cultura de paz, significa repudiar todas as formas de violência, especialmente a cotidiana, e promover os princípios da liberdade, justiça, solidariedade e tolerância, bem como estimular e compreensão entre os povos e as pessoas (apud MILANI, 2003, p.36).

 

Ainda segundo Milani o conceito de Cultura da Paz ainda está em construção, carecendo de debate e discussão “que equilibre especificidade e abrangência, consistência e fluidez, bem como aplicabilidade aos inúmeros contextos e realidades.” (MILANI, 2003, p.37). Se o conceito de Cultura da Paz está em construção, podemos dizer que a EP, ao mesmo tempo em que ainda faz sua estruturação de conhecimento, já traz muita discussão educacional que lhe dá suporte. Isso fica evidenciado ao analisarmos o que nos diz Milani:

 

No que se refere à escola, a abordagem da Cultura da Paz ressalta diversas necessidades e estratégias: uma relação educador-educando fundamentada no afeto, respeito e diálogo; um ensino que incorpore a dimensão dos valores éticos e humanos; processos decisórios democráticos, com a efetiva participação dos alunos e de seus pais nos destinos da comunidade escolar; implementação de programas de capacitação continuada de professores; aproveitamento das oportunidades educativas para o aprendizado do respeito às diferenças e a resolução pacífica de conflitos; abandono de modelo vigente de competição e individualismo por outro, fundamentado na cooperação e no trabalho conjunto, etc. (2003, p.39)

 

Podemos observar que, o proposto acima está em sintonia com grande parte da discussão educacional brasileira dos últimos anos. Uma educação com perspectiva crítica, dotada de maior possibilidade de autonomia, participação e onde os professores tenham formação de qualidade voltada para o desenvolvimento dos alunos e da sociedade. Nesse sentido, reconhecidamente, a formação continuada de professores tem avançado em quantidade e qualidade. Porém, também é verdade esse avanço está voltado mais para a discussão teórica e metodológica das áreas de conhecimento já constituídas e, em menor escala, para as questões relacionadas à violência, paz e conflitos. Parte disso decorre porque existe a percepção que as áreas específicas podem incluir os temas da violência e paz junto aos conteúdos já constituídos historicamente. Por outro lado, ainda não fica claro para muitos professores porque e como fazer isso em seu trabalho. Essa discussão sobre o papel da EP é expressa por Rabanni:

 

Inspirados nos trabalhos dos movimentos pela paz e em função da experiência histórica de suas regiões, os educadores pela paz tem se inclinado mais por uma paz que por outra. Em países marcados pela guerra, é evidente que o objetivo primordial tenha sido evitar novas tragédias e matanças. Em países economicamente menos desenvolvidos, a preocupação principal tem sido com a violência estrutural e a EP tem sido relacionada com uma educação para o desenvolvimento, a justiça e a igualdade de oportunidades. (2003, p.77)

 

Podemos dizer que a EP, na formação de professores, na realidade brasileira, tem a função de discutir violências, paz e conflitos numa perspectiva crítica, criativa e relacionada com a estrutura das relações humanas na vida pessoal e em sociedade.1

Nesse raciocínio, na medida em que fica mais clara a perspectiva da EP para a educação brasileira, Rabbani complementa:

 

A questão é o que a educação pode fazer para promover esse tipo de paz como justiça e desenvolvimento? O nosso argumento, retomando o que já vinha sendo discutido pelos teóricos da EP, é que não é suficiente informar sobre as injustiças e desigualdades para se criar uma atitude necessária para superar as injustiças sociais. Mas importante que o quê ensinamos é como ensinamos. (2003, P.77)

 

É possível acrescentar mais uma palavra ao pensamento de Rabanni, que seria o “porquê” ensinamos as questões da paz e violências. Acreditamos que a falta de clareza do professores sobre a EP pode ser o maior obstáculo para sua efetivação na escola. Por isso, insistimos na reflexão sobre o tema na formação de professores.

 

Saberes para a formação de professores em EP

Ao discutir sobre a EP, Tuvilla Rayo afirma que ela pode ser estudada em cada um de seus elementos, cujos resultados permitem formular objetivos educativos e projetar formas de atuação didática sempre pensando numa educação participativa e dialógica, que supera a idéia de uma paz ideal. Para o autor, a EP tem seu caminho no entendimento dos conflitos, que sempre vão implicar em escolhas e “participação, a comunicação de experiências ou o simples comportar-se em grupo, que requer discordar daquelas decisões consideradas injustas.” (2002, p.102). Tuvilla Rayo afirma que:

 

A aprendizagem da paz implica efetivamente a aquisição de um certo número de conhecimentos, de atitudes e valores que favoreçam a apreciação e compreensão do outro (das diferentes culturas, comunidades e povos); que comprometem o conhecimento e o respeito dos direitos de cada um e dos deveres e responsabilidades que deles se derivam; que suscitam, em resumo, um compromisso moral e cívico para participar ao mesmo tempo na construção de um mundo mais justo e solidário, que leve em conta o direito das gerações futuras de beneficiar-se de um patrimônio natural e cultural de qualidade. (2002, p.106)

 

O binômio discurso/intervenção é muito importante na EP. Por isso ao pensar na formação do professores deve ser proporcionado o equilíbrio entre reflexões e vivências, uma vez que o aprender a conviver convivendo também relevante.

Para Fernandez (2005) a EP pode abordar temas diversos e importantes que lhe conferem uma dimensão transversal. Desde o tratamento de problemas intrapessoais diante de certas situações, até questões sociais que resultem em conflitos e injustiças. O autor argumenta que nos últimos anos, três áreas estão se estruturando em relação à EP e que, em nosso entendimento, servem para pensar a formação de professores: a primeira é a educação para o desenvolvimento sociopessoal, que observa as relações interpessoais dentro e fora da escola, além da análise de como os indivíduos se relacionam com instituições, estruturas e a sociedade; o segundo é a educação para a cidadania relacionada à participação ativa e o desenvolvimento da liderança, do autocontrole e responsabilidade pelos próprios atos, com a capacidade de analisar e criticar acontecimentos sociais; a terceira dimensão é a educação cultural, observada na tolerância, solidariedade, diversidade e pluralidade. (2005, p.99-101)

Em relação às características do professor para a EP, Fernández destaca: a escuta ativa que pressupõe compreensão e cuidado ao escutar o outro; empatia, saber colocar-se no lugar do outro; assertividade, expressando sentimentos com respeito; autocontrole e auto-reflexão, conhecimento de si; negociação, busca de acordos equilibrados e conflitos resolvidos produtivamente; mediação, com predisposição a tratar pedagogicamente os conflitos; solução de problemas, procurando a solução para evitar conflitos maiores e a violência. (2005, p.103-104)

Mesmo com possíveis habilidades do professor, voltamos a lembrar de três palavras às quais nos remetemos nesse texto e que merecem atenção nessa configuração: violências, paz e conflitos, pois, da discussão delas emerge o principal suporte conceitual para a EP.

Tratando resumidamente podemos dizer que a paz é o contrário de violência (JARES, 2002) e que “qualquer análise da paz deveria estar vinculada a uma análise da violência”. (GALTUNG, 1985 apud JARES, 2002, p.124). Sobre a violência vale destacar que ela se desdobra em diferentes tipos: violência coletiva, com membros de grupos; violência institucional ou estatal, legitimadas no poder; violência estrutural, expressa nas desigualdades; violência cultural, relacionada à etnias e questões ambientais e a violência individual, não organizada, pessoal e direta que ocorrem de forma interpessoal. (CIIIP, 2002 baseado em GALTUNG, 1995)

Na complementação da questão acima, Jares aponta algumas dimensões da paz que merecem registro: a paz afeta diretamente a vida do ser humano; a paz se caracteriza pela ausência de violências e pela presença da justiça e igualdade; a paz está nos níveis interpessoal, intergrupal, nacional e internacional; a paz é um processo dinâmico. Nesse caminho aponta para uma idéia chave quando diz que a “paz nega a violência, não os conflitos, que fazem parte da vida.” (JARES, 2002, p.132).

Ao falar de conflitos Jares (2002) aponta para a inevitabilidade destes na vida em sociedade. Para ele os conflitos são situações individuais e ou coletivas onde pessoas ou grupos afirmam valores ou interesses diferentes e divergentes. Ainda diz que os conflitos são importantes na dimensão dialógica da vida, na compreensão de pontos de vista, na afirmação de posicionamentos e no crescimento individual e coletivo. Por fim, comenta que o conflito é uma das características definidoras da escola, por toda a sua pluralidade e que, portanto, a grande chave está no exercício e na resolução não violenta dos conflitos. Logo a EP está nessa lógica do entendimento das violências, na busca da compreensão das mesmas, na clareza dos conflitos geradores e com o processo pedagógico de mediação destes, culminando com a não-violência ou dito de outra forma, a paz construída coletivamente.

 

1 Cabe registar que muitos projetos de valores, paz e relacionamento humano que são desenvolvidos em escolas, ignoram a discussão estrutural, traduzindo expressões de paz sob o olhar de “ser bonzinho”, “não reclamar” ou “não discutir”. Como já foi dito por Freire, uma visão “míope” da Educação para a Paz.