GEPEFE - GRUPO DE ESTUDOS E PESQUISA EM EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR E FORMAÇÃO DE PROFESSORES - UNIVERSIDADE ESTADUAL DE PONTA GROSSA, PR
NEP - NÚCLEO DE ESTUDOS E FORMAÇÃO DE PROFESSORES EM EDUCAÇÃO PARA A PAZ E CONVIVÊNCIAS - UNIVERSIDADE ESTADUAL DE PONTA GROSSA, PR
APROXIMANDO GEPEFE E NEP: ARGUMENTOS TEÓRICOS DE BASE - anotações preliminares
Prof.Dra. Silvia Christina Madrid Finck
Prof. Ms. Nei Alberto Salles Filho
Sobre o campo de estudos da Educação Física Escolar é importante pontuarmos os pressupostos relacionados ao entendimento do que seja, principalmente, Educação Física e Educação Física Escolar para os pesquisadores do GEPEFE. A Educação Física é entendida como uma área de conhecimento da Cultura Corporal de movimento que deve cuidar do corpo não como algo mecânico, independente dos demais aspectos, mas na perspectiva de sua relação com os outros sistemas: mental, emocional, estético, religioso entre outros. (COLETIVO DE AUTORES, 1992).
Além do contexto ampliado, a Educação Física Escolar pode ser entendida como uma disciplina que introduz e integra o aluno na Cultura Corporal de movimento, formando o cidadão que vai reproduzi-la e transformá-la, instrumentalizando-o para usufruir dos jogos, dos esportes, das danças, das lutas e das ginásticas em benefício de sua qualidade de vida. (PCNs, 1998).
Através da discussão presente nas últimas décadas, a Educação Física Escolar efetivamente rompe os laços com práticas corporais de caráter excludentes e autoritários, com discursos baseados em senso comum, do esporte como grande “ferramenta” e a Educação Física como a disciplina mais “legal”.
Professores de Educação Física que atuam tanto na escola, como em instituições através de ações de políticas públicas, que entendem o esporte como fator sócio-educacional, devem ter clareza em seu trabalho para localizar dentro dos principais eixos temáticos da cultura corporal de movimento (esportes, jogos, atividades rítmicas e expressivas, ginásticas e lutas) os benefícios humanos e suas possibilidades de utilização como instrumentos de comunicação, expressão, lazer e cultura. Tal intento se daria no sentido de buscar a ampliação e a melhoria das convivências e relações interpessoais, em processos educacionais que potencializam o diálogo, investem na mediação dos conflitos e na construção coletiva de regras, o que num sentido específico, levam à maior autonomia, mais relações horizontais e favorecem ações de não-violências, contribuindo para a idéia de uma Cultura de Paz.
Nesse sentido, concordamos com idéia pronunciada pelo Coletivo de Autores (1992, p. 219) que dizem:
Desejamos que os alunos apreendam a ginástica em todas as suas formas historicamente determinadas e culturalmente construídas; o fantástico acervo de jogos que eles conhecem confrontados com os que não conhecem; a dança enquanto uma linguagem social que permite a transmissão de sentimentos e emoções da afetividade vivida nas esferas da religiosidade, do trabalho, dos costumes etc; o esporte como prática social que institucionaliza temas lúdicos da cultura corporal universal, e que se projeta numa dimensão complexa que envolve códigos, sentidos e significados da sociedade que o cria e o pratica. Assim, a Educação Física deixa de ser vazia de conteúdo.
Como podemos perceber, há mais de quinze anos existe uma preocupação de pesquisadores da Educação Física Escolar com as questões ampliadas da sociedade, em fazer dos conhecimentos/conteúdos, possibilidades de crescimento efetivo para os alunos. Nesse sentido, há a necessidade do aprofundamento de alguns conceitos, que nos últimos anos ganharam mais espaço na instituição escolar e na Educação Física, como violências, convivências e conflitos.
Nos PCN’s (1998) os conteúdos da Educação Física são reconhecidos como eixos nos quais devem ser localizados em cada um deles os benefícios humanos e suas possibilidades de utilização como instrumentos de comunicação, expressão, lazer e cultura, considerando também aspectos relacionados à corporeidade, a cidadania, a saúde e a qualidade de vida. Novamente aqui vemos a preocupação com aspectos mais ampliados da educação, via Educação Física.
Ao mesmo tempo concordamos em dizer que:
Acreditar que a relação entre Educação Física escolar e o corpo já está “bem resolvida” no campo teórico, é, no mínimo, uma ingenuidade, e não significa que mesmo aconteça no cotidiano escolar. Na verdade, os profissionais de Educação Física que atuam na escola básica continuam a enfrentar desafios em sua prática docente que poderiam ser em parte superados se possuíssem uma base filosófica mais consistente, relativa à discussão sobre o corpo. (BARBOSA, 2010, p.77).
Considerando as questões levantadas brevemente sobre Educação Física e Esportes, observamos que, embora a pesquisa, a teoria e o discurso já apresentam avanços e possibilidades, o cotidiano destas práticas da cultura corporal, ainda segue mecanismos balizados por certa reprodução de movimentos estereotipados, vindos do esporte de alto rendimento, sem concretamente apoiar-se na discussão das convivências escolares como fator significativo para mudanças de comportamento e novas aprendizagens.
Como podemos destacar:
Toda relação humana implica determinado modelo de convivência que pressupõe determinados valores, formas de organização, sistemas de relação, normas para enfrentar conflitos, formas linguísticas, modos de expressar os sentimentos, expectativas sociais e educativas, maneiras de exercer o cuidado etc. (JARES, 2006, p. 15).
Quando o autor destaca este processo, vemos de maneira mais pontual como as relações humanas e os processos de convivências escolares que influenciam e são influenciados pelas escolhas que fazemos como professores. No limite, poderíamos dizer que muitas de nossas escolhas, em relação às formas de procedermos em situações de ensino-aprendizagem, interferem não apenas em relação à aquisição dos conhecimentos específicos de determinadas áreas do conhecimento, mas condicionam, em grande medida, os modos de nos relacionarmos com os outros, em perspectivas individuais ou coletivas.
Essa reflexão, para a Educação Física e Esportes é fundamental para que outras formas de entender estas práticas também sejam possíveis. Como afirma Jares (2006, p. 15), “[...] a aprendizagem da convivência – para sermos mais precisos, de um determinado modelo de convivência – é inerente a qualquer processo educativo.”
Ainda nesse raciocício, mais uma provocação nos é feita:
[...] mas a educação, consciente ou inconscientemente, sempre leva consigo uma determinada acepção de convivência. Consequentemente, a primeira incumbência é nos interrogarmos sobre o tipo de convivência na qual aspiramos viver e para qual pretendemos educar, conscientes de que, em ambos os desafios, jogamos boa parte de nosso futuro. (JARES, 2006, p. 16).
A reflexão sobre qual convivências pretendemos para a nossa vida e trabalho, nos aproxima de maneira forte de uma das discussões mais presentes hoje nas escolas, as violências. Nessa discussão, o NEP, quando de sua estruturação, observa e segue algumas questões-chave. A primeira delas é o entendimento de Cultura de Paz, embora conceitualmente várias perspectivas sejam importantes, optamos pelo entendimento básico da UNESCO que diz:
A cultura da paz se constitui dos valores, atitudes e comportamentos que refletem o respeito à vida, à pessoa humana e à sua dignidade, aos direitos humanos, entendidos em seu conjunto, interdependentes e indissociáveis. Viver em uma cultura de paz significa repudiar todas as formas de violência, especialmente a cotidiana, e promover os princípios da liberdade, justiça, solidariedade e tolerância, bem como estimular e compreensão entre os povos e as pessoas. (apud MILANI, 2003, p. 36).
Entendemos que o conceito de Cultura da Paz ainda está em construção, carecendo de debate e discussão “que equilibre especificidade e abrangência, consistência e fluidez, bem como aplicabilidade aos inúmeros contextos e realidades” (MILANI, 2003, p. 37). Se o conceito de Cultura da Paz está em construção, podemos dizer que a Educação para a Paz, como um possível ramo pedagógico do movimento da Cultura de Paz, ao mesmo tempo em que faz sua estruturação de conhecimento, já traz muita discussão educacional que lhe dá suporte. Isso fica evidenciado ao analisarmos o que nos diz Milani:
No que se refere à escola, a abordagem da Cultura da Paz ressalta diversas necessidades e estratégias: uma relação educador-educando fundamentada no afeto, respeito e diálogo; um ensino que incorpore a dimensão dos valores éticos e humanos; processos decisórios democráticos, com a efetiva participação dos alunos e de seus pais nos destinos da comunidade escolar; implementação de programas de capacitação continuada de professores; aproveitamento das oportunidades educativas para o aprendizado do respeito às diferenças e a resolução pacífica de conflitos; abandono de modelo vigente de competição e individualismo por outro, fundamentado na cooperação e no trabalho conjunto, etc. (2003, p. 39).
Podemos observar que o proposto acima está em sintonia com grande parte da discussão educacional brasileira dos últimos anos. Uma educação com perspectiva crítica, dotada de maior possibilidade de autonomia, participação e onde os professores tenham formação de qualidade voltada para o desenvolvimento dos alunos e da sociedade. Nesse sentido, reconhecidamente, a formação continuada de professores tem avançado em quantidade e qualidade.
Contudo, também é verdade que esse avanço está voltado mais para a discussão teórica e metodológica das áreas de conhecimento já constituídas e, em menor escala, para as questões relacionadas à violência, paz e conflitos. Parte disso decorre porque existe a percepção de que as áreas específicas podem incluir os temas da violência e paz junto aos conteúdos já constituídos historicamente. Por outro lado, ainda não fica claro para muitos professores por que e como fazer isso em seu trabalho.
Assim, considerando a dificuldade de perceber essa perspectiva de Educação para a Paz, podemos entendê-la no contexto que diz:
A tarefa de desnaturalização dos conceitos de paz e de violência é essencial para a construção da cultura de paz. É umtrabalho que segue o caminho educativo, passando necessariamente pela escola. Ao mesmo tempo a desnaturalização de nossas representações sobre paz e violência, conduz-nos a entendê-las como noções pedagógicas, enquanto entidades culturais e, portanto, construídas, ensinadas, aprendidas (GUIMARÃES, 2004, p. 67).
Considerando esta complexidade, podemos objetivar e dizer que a Educação para a Paz, pensada nas múltiplas realidades das escolas brasileiras, tem a função de discutir violências, paz e conflitos numa perspectiva crítica, criativa e relacionada com a estrutura das relações humanas na vida pessoal e em sociedade. Aqui a idéia de Paz é redimensionada das idéias tradicionais da “pombinha branca” ou do “ser bonzinho”, para a observação de questões estruturais e culturais que refletem no cotidiano das relações humanas nas escolas e comunidades.
Nesse raciocínio, na medida em que fica mais clara a perspectiva da Educação para a Paz dizemos que:
A questão é o que a educação pode fazer para promover esse tipo de paz como justiça e desenvolvimento? O nosso argumento, retomando o que já vinha sendo discutido pelos teóricos da EP, é que não é suficiente informar sobre as injustiças e desigualdades para se criar uma atitude necessária para superar as injustiças sociais. Mas importante que o quê ensinamos é como ensinamos. (RABANNI, 2003, p. 77).
É possível acrescentar mais uma palavra ao pensamento de Rabanni, que seria o “por que” de ensinarmos as questões da paz e violências. Acreditamos que a falta de informação dos professores sobre a Educação para a Paz, é um dos obstáculos para sua suposição na escola. Por isso, insistimos na reflexão sobre o tema na formação de professores.
Sobre Cultura e Educação para a Paz, resumidamente, podemos dizer que a paz é o contrário de violência (JARES, 2002) e que “qualquer análise da paz deveria estar vinculada a uma análise da violência” (GALTUNG, 1985 apud JARES, 2002, p.124). Sobre a violência vale destacar que ela se desdobra em diferentes tipos: violência coletiva, com membros de grupos; violência institucional ou estatal, legitimadas no poder; violência estrutural, expressa nas desigualdades; violência cultural, relacionada a etnias e questões ambientais e a violência individual, não organizada, pessoal e direta que ocorre de forma interpessoal (CIIIP, 2002).
Na complementação da questão acima, Jares aponta algumas dimensões da paz que merecem registro: a paz afeta diretamente a vida do ser humano; a paz se caracteriza pela ausência de violências e pela presença da justiça e igualdade; a paz está nos níveis interpessoal, intergrupal, nacional e internacional; a paz é um processo dinâmico. Nesse caminho o autor aponta para uma idéia chave quando diz que a “paz nega a violência, não os conflitos, que fazem parte da vida” (JARES, 2002, p.132).
Ao falar dos conflitos, Jares (2002) diz que eles são inevitáveis na vida em sociedade. Para o autor, os conflitos são situações individuais e ou coletivas onde pessoas ou grupos afirmam valores ou interesses diferentes e divergentes. Ainda diz que os conflitos são importantes na dimensão dialógica da vida, na compreensão de pontos de vista, na afirmação de posicionamentos e no crescimento individual e coletivo. Por fim, comenta que o conflito é uma das características definidoras da escola, por toda a sua pluralidade e que, portanto, a grande chave está no exercício e na resolução não violenta dos conflitos.
Assim, a Educação para a Paz está nessa lógica do entendimento das violências, na busca da sua compreensão, na clareza dos conflitos geradores e com o processo pedagógico de sua mediação, culminando com a não-violência, ou dito de outra forma, a paz construída coletivamente.
Considerando os aspectos sobre a Educação Física Escolar, incluindo aqui o Esporte no sentido educacional, relacionando com aspectos presentes na discussão sobre a Educação para a Paz (convivências, conflitos, violências e paz), encontramos aspectos especiais para pensar em ações na escola e na formação de professores.



One comment
União
Finalmente, parabens pelo estudo, é com medidas desse nivel que ainda acredito que possamos ter um fututo melhor!
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