Resumo expandido enviado ao I Encontro Internacional de Atendimento Escolar Hospitalar, Niterói, Rio de Janeiro.
Cláudia Regina Silva de Azevedo
Antonino Condorelli
Palavras-Chave: Resiliência, Pedagogia Hospitalar, Currículo
O conceito de resiliência e o papel do educador na sua promoção
Alguns indivíduos conseguem ter um desenvolvimento psíquico e social “saudável” – com relação ao seu contexto sócio-histórico de referência e/ou ao equilíbrio entre dimensão cognitiva, afetiva, corporal e relacional - após golpes que estilhaçaram o seu universo sensorial e simbólico. Esta faculdade tem sido batizada pelas ciências humanas de resiliência. Boris Cyrulnik (2004, 2005 e 2006) mostra que para que se produza um trauma é necessário que um acontecimento – uma saliência significativa, que se torna tal em virtude das predisposições sensoriais de cada indivíduo (CYRULNIK, 2005) - destrua o universo de sentido estruturado pela pessoa a partir das interações construídas nos seus primeiros anos, e sucessivamente que a representação deste acontecimento lhe confira um significado doloroso (2004). As principais chaves para a promoção da resiliência são vínculo e sentido (CYRULNIK, 2005). Este último é sempre o produto de uma construção intersubjetiva, alheia a qualquer determinismo ou causalidade linear, na qual intervêm múltiplos fatores: a presença ou ausência de figuras de apego significativas, a possibilidade de expressar ou encenar a própria experiência para ressignificá-la, entre outros. A hospitalização e a improvisa irrupção na vida da criança de procedimentos invasivos representam uma ruptura dramática de seu universo de sentido estruturado, até então, ao redor da vida familiar e um começo de vida escolar e comunitária. Sendo o encontro a principal condição estruturante de nossas representações e emoções (CYRULNIK, 1999, 2005; GOLEMAN, 2006), o educador pode desenvolver um papel determinante na promoção de resiliência na criança, inclusive a hospitalizada, se souber construir com ela vínculos afetivos significativos (CYRULNIK, 2005) e fornecer-lhe a oportunidade de representar sua história para ressignificá-la (CYRULNIK, 2005).
Promovendo a resiliência com a educação em ambiente hospitalar
O atendimento pedagógico hospitalar se torna um fator promotor de resiliência ao gerar a percepção de que o hospital e a sociedade acreditam na volta ao mundo da criança enferma. A continuidade da escolarização cria esperança, uma perspectiva de vida. Cyrulnik (2005) mostra que uma simples atitude do educador pode modificar a trajetória de um educando. A experiência da equipe pedagógica do Centro de Oncohematologia Infantil (COHI) do Hospital Varela Santiago de Natal, Rio Grande do Norte, mostra que e a brincadeira, a capacidade das educadoras de manter a alegria no fazer educacional e o estabelecimento de vínculos afetivos com as crianças internadas, ao avivar nestas últimas a chama da esperança de cura, incentivam a resposta positiva do organismo aos tratamentos, amenizam o sofrimento físico e psíquico e aumentam a vontade de viver, de brincar e de aprender. O planejamento pedagógico da equipe do COHI tem considerado a situação individual de cada educando, tendo em conta sua escolaridade e procedência. Exploraram-se temas cognitivos diferentes com cada criança, a partir de uma avaliação da zona de desenvolvimento proximal delas, isto é, dos conteúdos que cada uma tem a potencialidade de aprender (VYGOTSKY, 2007). Este respeito pelas potencialidades de cada aluno reforçou sensivelmente a auto-estima dos educandos. Atualmente, está sendo planejada uma atividade inspirada em Freinet (1985 apud AZEVEDO, 2008): o incentivo à redação de um “livro da vida” por parte de cada criança, não apenas como ferramenta para estimular o desenvolvimento da escrita e da leitura, mas como possibilidade de ressignificar a própria experiência e socializar os próprios relatos (CYRULNIK, 2005).
Considerações finais
A partir da nossa experiência, acreditamos que a organização curricular do trabalho pedagógico com crianças hospitalizadas necessite incorporar fatores promotores de resiliência tais como a escrita de si e a ludicidade e deixar ampla autonomia aos educadores, para que possam analisar as potencialidades de cada aluno e planejar estratégias cognitivas o mais possíveis individualizadas.
Referências
AZEVEDO, Cláudia Regina Silva de. A Pedagogia Freinet no Ensino de História. Natal, 2006, Monografia de Graduação em Pedagogia – UFRN.
CYRULNIK, Boris. Do sexto sentido: o homem e o encantamento do mundo. Lisboa: Instituto Piaget, 1999.
______ . Os patinhos feios. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
______ . O murmúrio dos fantasmas. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
GOLEMAN, Daniel. Inteligencia social: la nueva ciencia para mejorar las relaciones humanas. Barcelona: Kairós, 2006.
VYGOTSKY, Lev Semenovich. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 2007.












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