1 INTRODUÇÃO

 

Gostaria, por outro lado, de sublinhar a nós mesmos, professores e professoras, a nossa responsabilidade ética no exercício de nossa tarefa docente. [...] Educadores e educandos não podemos, na verdade, escapar à rigorosidade ética [...], da ética universal do ser humano. [...] É por esta ética inseparável da prática educativa, não importa se trabalhamos com crianças, jovens ou com adultos, que devemos lutar. E a melhor forma de por ela lutar é vivê-la em nossa prática, é testemunhá-la, vivaz, aos educandos em nossas relações com eles (FREIRE, 1996, p.15-6).

 

No oitavo e último encontro vivencial ocorrido no dia 15 de dezembro, a professora Kátia Cavalcanti estabeleceu que os grupos fariam o fechamento do semestre corporalizando todos os saberes da autonomia do professor Paulo Freire: 1) saberes epistemológicos – Não há docência sem discência; 2) saberes metodológicos – Ensinar não é transferir conhecimento; e 3) saberes ontológicos – Ensinar é uma especificidade humana.

O interesse geral dessa obra – Pedagogia da Autonomia – é a questão da formação docente aliada à reflexão sobre a prática educativo-progressiva em favor da autonomia do ser dos educandos, mediante a análise de saberes indispensáveis à prática docente, independentemente da posição política de cada professor. E o nosso interesse é o de corporalizar esses saberes através de uma vivência humanescente, resgatando o prazer e a amorosidade.

  

2 SABERES ONTOLÓGICOS: semeando o ser autônomo, livre e ético.

  

Como experiência especificamente humana, a educação é uma forma de intervenção no mundo (FREIRE, 1996, p.98)

 

O personagem jardineiro gentileza criado pelo grupo foi inspirado no princípio ontológico do querer bem aos educandos.

Paulo Freire na obra Pedagogia da Autonomia defende o fato de que todo educador precisa estar aberto ao gosto de querer bem aos educandos e à própria prática educativa, visto que a atividade docente, por natureza, não pode prescindir da afetividade e alegria, tanto quanto da formação científica e clareza política dos educadores.

Para tanto, e partindo da premissa de que a prática educativa deve ser exercida constantemente em favor da produção e do desenvolvimento da autonomia de educadores e educandos – a educação, especificidade humana, é uma forma de intervenção no mundo –, todo professor precisa agir com segurança (quer atuando ou tomando decisões conscientemente, quer discutindo seus pontos de vistas), competência profissional (possuir qualificação para atuar e buscar sempre se capacitar; não se pode ensinar o que não se sabe), generosidade (respeitando democraticamente a liberdade com que os educandos devem ser mover/posicionar no ambiente escolar) e comprometimento com o seu desempenho, deixando claro aos alunos sua maneira de ser, de pensar politicamente, de aproximar cada vez mais o que diz do que faz.

Por outro lado, o professor precisa enxergar o aluno sem preconceito, saber escutá-lo, estar sempre disponível para o diálogo, precisa, enfim, realizar um trabalho de autoconhecimento, buscando compreender os próprios sentimentos e o que fazer com eles. Dessa forma, conseguirá identificar, ler e trabalhar não apenas as próprias emoções mas também as dos sues alunos. Mostrar empatia para com a turma é fundamental no estabelecimento da afetividade e alegria.

Nesta concepção podemos afirmar que o nosso jardineiro gentileza apresenta as características dos saberes ontológicos de Paulo Freire, uma vez que cuida com amorosidade, afeto e alegria cotidianamente o seu jardim, além de assumir uma relação ética com o jardim, revelada em atitudes e posturas que se coadunam com a prática educativa docente: respeito à autonomia de cada ser como um ser livre, reconhecer o valor e importância de cada ser no jardim, querer bem a tudo e todos e gostar do que faz.

Ao contemplarmos um jardim e nos encantarmos com o cenário de vida onde há sementes, flores, frutos, larvas, lagartas, borboletas, sol, vento, chuva podemos inferir que estes fenômenos da natureza precisam de um jardineiro com princípios éticos que colabore para o processo de transformação e embelezamento permanente revelados nas cores, aromas e nos sons especiais que anunciam o viver.

Enfim, o jardineiro gentileza traz em si a marca dos princípios ontológicos enunciados por Paulo Freire, que por excelência promoveu a inclusão de todos, educadores e educandos, semeando os princípios éticos numa escola que dignifica e respeita os educandos, que compreende e respeita a leitura do mundo de cada um como ponto de libertação, desenvolvimento e autonomia do ser. Portanto, professor, a exemplo do jardineiro gentileza, se nutra destes princípios, cuidando e respeitando a si, aos alunos e o mundo.

 

3 SABERES METODOLÓGICOS: a arte da jardinagem consiste no processo de reflexão, ação e transformação

 

Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção (FREIRE, 1996, p.22)

 

Quando o jardineiro gentileza entra no cenário do jardim, ele realmente está manifestando o comprometimento existencial, do qual nasce à autêntica solidariedade entre os seres de vida, um cuidando do outro para que possam expressar beleza e encantamento ao mundo em constante transformação. Por analogia, pode-se dizer que cada professor revela em si seu jeito de ser jardineiro, de pensar, ser, agir, construir e transformar.

Todavia, para refletir sobre a questão de que ensinar não é transferir conhecimento, uma vez que o professor não é único detentor do saber tampouco o aluno é uma tábua rasa, um recipiente onde se põe coisas, o professor Paulo Freire nos apresenta os saberes metodológicos partindo da consciência que devemos ter de nosso inacabamento e condicionamento, por sermos eternos aprendizes, por estarmos num permanente processo social de busca, por termos a certeza de que podemos ir além, pois a curiosidade que nos alimenta se torna fundante da produção do nosso conhecimento, que a nossa “presença no mundo não é a de quem a ele se adapta mas a de quem nele se insere” (Ibid, p.54), intervindo.

Ensina-nos também Paulo Freire que o professor precisa ter bom senso e se mover com clareza no desenvolvimento de sua atividade docente, respeitar a autonomia, a dignidade e a identidade dos educandos, a curiosidade, gosto estético e sua linguagem, ter convicção de que as mudanças reais em torno da existência do ser humano na sociedade são possíveis, apreender a substantividade do objeto ou do conteúdo a ser aprendido rompendo com a memorização mecânica, fomentar a curiosidade do educando garantindo-lhe a liberdade de inquietar-se, imaginar, buscar, aventurar-se, criar e recriar. Enfim, que a prática educativa seja programada, sempre, com alegria e esperança, eticamente descartando a acomodação, o status quo em que nos encontramos, e assim, fazer da escola um ambiente prazeroso.

Assim, a arte da jardinagem se coaduna com os saberes metodológicos de Paulo Freire, já que consiste no processo de reflexão, ação e transformação – como deve acontecer na prática educativa – afinal, “é a posição de que luta para não ser apenas objeto, mas sujeito também da História” (Ibid, p.54).

  

4 SABERES EPISTEMOLÓGICOS: caminhos e construções da corporalização e educação

 

Não há docência sem discência, as duas se explicam e seus sujeitos apesar das diferenças que os conotam, não se reduzem à condição de objeto, um do outro (FREIRE, 1996, p.23).

 

O jardineiro gentileza nos transmite a mensagem de que para cuidar precisamos ter a consciência da importância e da beleza desta tarefa. Por analogia, para ensinar precisamos reconhecer o encantamento e a importância de se processar uma prática educativa em favor do desenvolvimento da autonomia dos educandos, contribuindo para que eles possam refletir criticamente sobre a própria realidade e de sua comunidade, agir sobre elas e procurar transformá-las, rompendo, dessa forma, com a crença daqueles que acreditam que a vida é assim mesmo, que não é possível mudar.

De acordo com Paulo Freire, o educador crítico-progressista deve utilizar uma metodologia rigorosa quando da abordagem dos conhecimentos historicamente construídos, a fim de aproximar os educandos dos objetos cognoscíveis. Para isso, o professor precisa ter consciência de seu papel no espaço escolar – o ato de ensinar não se esgota no tratamento do objeto ou do conteúdo em sala de aula; formar é muito mais do que simplesmente ensinar – e de que aprender criticamente é possível, mas que exige educadores e educandos criativos, investigadores e inquietos, rigorosamente curiosos, humildes e persistentes. Nessas condições, de verdadeira aprendizagem, os educandos e educadores vão se transformando em reais sujeitos da construção e reconstrução do saber ensinado.

Como não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino, cabe ao professor continuar pesquisando para que sua prática seja propícia ao debate, questionamentos e reconstruções. A pesquisa pelos discentes se faz importante também, pois se por um lado afasta a tradicional educação bancária, por outro, cria o estímulo e o respeito à capacidade criadora do educando, contribuindo para tornarem-se autônomos do seu próprio pensamento.

Os professores precisam respeitar os saberes dos educandos construídos anteriormente à escola, sua experiência de vida, e trabalhar esses conhecimentos empíricos, buscando transformá-los em conhecimentos epistemológicos. A discussão sobre os problemas sociais que as comunidades carentes enfrentam e a desigualdade social que as cercam é um bom começo para despertar a criticidade dos alunos. Além disso, os professores devem estar atentos aos seus atos e atitudes no espaço escolar e fora dele, pois um simples gesto pode representar muito na vida de um aluno, inclusive valer como força motriz para o seu desenvolvimento e autonomia.

Por outro lado, a aceitação do novo, de novas descobertas é importante, desde que seja precedida de uma discussão, de uma criticidade, como também o é a preservação do velho, do tradicional, que não possui prazo de validade. É condenada qualquer forma de discriminação – racial, política, religiosa, de classe social –, pois a discriminação nega radicalmente a democracia e fere a dignidade do ser humano.

Paulo Freire aborda, ainda, entre os saberes epistemológicos, a questão do reconhecimento e assunção da identidade cultural – cada um, seja educador ou educando, é diferente um do outro, mas deve haver um clima de respeito à identidade de cada um – destacando que o respeito é absolutamente fundamental na prática educativo-progressista. Enfim, destaca a necessidade da reflexão crítica da prática docente, sobretudo para avaliar se a metodologia usada, por exemplo, está sendo eficiente e eficaz, tendo bom senso de mudar quando não estiver dando certo.

Para o jardineiro gentileza a disponibilidade à alegria de viver, assumida plenamente, permite uma atividade tanto docente quanto discente mais humanescente. Neste sentido, o ato de ser metodicamente rigoroso na busca, na pesquisa e na docência de que fala Paulo Freire certamente estimula a afetividade, alegria, capacidade científica, clareza política e esperança de que a mudança é possível. Esta sensibilidade revela a abertura ao querer bem da própria prática educativa, do fazer docente com amorosidade.

Nesses caminhos e construções epistemológicos, o jardineiro gentileza muito tem a nos oferecer, com sua simplicidade, sensibilidade, ... No seu fazer cotidiano canta o Cio da Terra, de Chico Buarque e Milton Nascimento: “Afagar a terra/Conhecer os desejos da terra/Cio da terra, a propícia estação e fecundar o chão”; e a Gentileza, de Mariza Monte: “O mundo é uma escola/A vida é o circo/Amor palavra que liberta/Já dizia o profeta”.

 

 5 CORPORALIZANDO OS SABERES DA AUTONOMIA COM O JARDINEIRO GENTILEZA

 Na corporalização dos saberes epistemológicos freireanos o grupo optou, mais uma vez, por retratar um diálogo entre o jardineiro gentileza (agora representado pela Narla) e um educador conservador (Moisés). Os demais membros representariam o sol (Luciane), as borboletas (Juliana) e as flores (Bárbara) de nosso jardim humanescente, que na fala do jardineiro gentileza despertavam, mostrando toda alegria e encantamento, enquanto na fala do educador conservador, murchavam, demonstrando tristeza com a escola.

O nosso jardim (fig. 1) foi concebido com muita alegria, cor, flores, estrelas, sol, tendo como destaque a árvore do conhecimento cujos frutos são os saberes freireanos e as fotos das performances do grupo nas construções das vivências humanescentes desses saberes.

 

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Figura 1: O jardim freireano

 

Jardineiro gentileza: Bom dia meu encantado jardim! Bom dia, minhas flores! Bom dia minhas borboletas! Bom dia minha árvore do conhecimento! Bom dia sol! Bom dia vida! Bom dia meu amigo educador conservador!

Educador conservador: Ih! Lá vem você de novo? Não posso ter um bom dia com tantos alunos indisciplinados na sala de aula. Com esse salário tão baixo e sem perspectiva de qualquer aumento. Com esse sol inclemente, esse calor insuportável.

Jardineiro gentileza: Meu amigo educador, você continua com esse discurso. Não mudou nada. Bem se vê que não conheces Paulo Freire e seus saberes.

Educador conservador: De fato, não o conheço. Não tenho tempo para perder com filosofias e pedagogias daqueles que ficam em seus gabinetes ditando ordens e nunca pisaram numa sala de aula.

Jardineiro gentileza: Meu caro amigo, se você o conhecesse certamente não estaria dizendo essas bobagens. Para início de conversa, devo dizer que Paulo Freire foi um educador pernambucano que durante a sua vida refletiu sobre a educação da sociedade brasileira, assumiu o ponto de vista dos excluídos, dos “esfarrapados do mundo”, e escreveu diversos livros – Pedagogia do oprimido, Pedagogia da esperança, Pedagogia da autonomia, Pedagogia da indignação, entre outros –, mostrando a opressão contida nas camadas menos desfavorecidas da sociedade e no universo educativo, em especial na educação/alfabetização de adultos.

Educador conservador: Pode parar! Eu não trabalho alfabetizando adultos e nem quero. Meus alunos são adolescentes, para não dizer “aborrecentes”.

Jardineiro gentileza: Não! Não! Vou insistir, pois tenho certeza que se você conhecesse os saberes fundamentais à prática educativa contidos na obra Pedagogia da Autonomia desse educador, você não seria um educador conservador, sem alegria e esperança e, sim, um educador crítico e progressista.

Educador conservador: Pô jardineiro, agora você me ofendeu! Mas para não perder o amigo, vou permitir que você fale um pouco, só um pouco, sobre esses saberes.

Jardineiro gentileza: Pois, bem! Os saberes da autonomia são ao todo vinte e sete, e estão divididos em três grupos cada um com nove saberes. O primeiro, intitulado Não há docência sem discência, corresponde aos saberes epistemológicos; o segundo, Ensinar não é transferir conhecimento, aos saberes metodológicos; e o terceiro, Ensinar é uma especificidade humana, aos saberes ontológicos.

Educador conservador: Sim! E o que significa cada um desses saberes?

Jardineiro gentileza: O primeiro significa que na prática educativa o educando não se reduz a objeto do educador, pois quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender. Por isso os alunos devem ser nossa alegria, nossa razão de ser no fazer docente. Por isso os professores precisam respeitar os conhecimentos que os alunos trazem para a escola, obtidos nas suas relações sociais. E é por isso que os professores precisam usar de rigor metódico ao ministrar os conteúdos, ser ético, crítico e dar sempre bons exemplos, pesquisar e fomentar a pesquisa pelos alunos, e refletir sobre a sua prática educativa. Você já imaginou o que seria de mim, jardineiro, sem essas flores, borboletas, árvores e outros integrantes de nosso jardim? (fig. 2)

Educador conservador: Que papo é esse dos alunos serem nossa alegria, que devemos reconhecer os saberes deles, que devemos fomentar a pesquisa. Meu caro jardineiro, os alunos não sabem ler, interpretar um texto um problema de matemática, eles só sabem decorar o que escrevemos no quadro ou que está escrito nos livros. Eles (os alunos) não sabem nada!. Nem pesquisar eles sabem, eles só copiam. Eu também não preciso pesquisar, sei todo o conteúdo que vou ensinar. Por isso eu digo e repito: eles precisam de um professor que os ensine, que transfira conhecimentos. Agora me diga. O que significa o segundo saber desse tal de Paulo Freire?

 

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 Figura 2: Performance do jardineiro gentileza

 

Jardineiro gentileza: O segundo significa que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção. Isto se consegue a partir da consciência de que somos seres inacabados e condicionados, que somos eternos aprendizes, que o professor deve ter bom senso, humildade e se mover com clareza na sua atividade docente, que deve respeitar a autonomia, a dignidade e a identidade dos educandos e ter convicção de que a mudança real é possível e, por isso, podemos ir mais além. Enfim, que é necessário intervir no mundo, construir a nossa própria história, e não se adaptar ao mundo, como se o nosso destino fosse predefinido.

Educador conservador: Mas isso é sonho! Sonho de quem não tem o que fazer. Só sonhos, nada mais. Sabe por quê? Porque os alunos não querem criar nada, não querem fazer nada, só querem tudo bem explicado, para na véspera da prova decorar tudinho, fazer a prova e tirar uma boa nota, de preferência 10. Eles (os alunos) não dão a mínima para os estudos e acreditam que a mudança só ocorre quando eles arranjarem um bom emprego ou acertarem na loteria. Por isso, os professores, assim como eu, depois de alguns anos, “murchamos”, como murcham as rosas do seu jardim depois de um tempo (fig. 3).

 

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Figura 3: Performance do educador conservador

 

Jardineiro gentileza: Meu pobre educador, que falta de sensibilidade. Mesmo assim, vou lhes falar do terceiro e último saber da autonomia freireano. Esse saber diz que ensinar é uma especificidade humana, e como tal uma forma de intervenção no mundo. Por isso Paulo Freire defende que todo educador precisa querer bem aos educandos indistintamente e à própria prática educativa, porque a atividade docente que deve ser exercida em favor da autonomia dos educandos não pode prescindir da afetividade e alegria. Além disso, todo professor precisa ter segurança no que diz, competência profissional no que faz e humildade para enxergar o aluno sem preconceito, saber escutá-lo, respeitar a sua liberdade e desempenho na sala de aula, enfim estar disponível sempre para o diálogo.

Educador conservador: Homem, isso tudo é conversa pra boi dormir. Essa coisa de autonomia, de não discriminar, de garantir a liberdade do aluno não combina com a sala de aula, nem com professor sério. Primeiro porque eles nem sabem o que é autonomia, ficam o tempo todo perguntando se isso vai cair na prova; eles não dão valor ao professor, como é que eles querem ter respeito? Segundo, se eu desse liberdade aos alunos seria a maior bagunça na sala de aula. Terceiro, eles não sabem nem conversar como poderia estar aberto ao diálogo? E, por último, esse tal de querer bem aos alunos, está me parecendo mais aliciamento de menores. Eu não vou agir assim, nunca. Posso ser preso, sabe?

Jardineiro gentileza: Não é isso, meu amigo. A educação nesse país vai mal por conta de pensamentos tacanhos como o seu. Deixe de ser cabeça dura. O que queremos é que todos juntos transformemos a escola num espaço de alegria e esperança, onde exale amorosidade. Alegria no convívio respeitoso de professores e alunos e entre os próprios alunos. Esperança de que é possível construir novos conhecimentos e escrever nossas histórias. Uma escola onde professores são éticos e usam de estética na sua prática docente. Onde se rejeita toda e qualquer forma de discriminação. Só assim, nosso jardim educacional irá florescer com mais humanescência e encantamento (fig. 4).

 

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Figura 4: Nosso encantamento

 

Educador conservador: Vejo que meu caro jardineiro está mesmo perdido em pensar que a escola pode mudar. Sempre foi assim e sempre será. Não há como mudar. Essa história de saberes fundamentais à prática docente é coisa de academia. Perdoe-me, mas não acredito nessa história.

Jardineiro gentileza: Vejo que não conseguir convencê-lo a mudar, a construir uma nova escola. Mas pelo menos conseguir fazer com que você ouvisse um pouco dos saberes da autonomia do nosso grande educador Paulo Freire. Vou dar-lhe o livro Pedagogia da Autonomia para que possa, algum dia, lê-lo e quem sabe, experimentar essa nova forma de ver escola, os alunos, a prática docente. Para encerrar nossa conversa, gostaria que você, meu caro educador, ficasse a refletir sobre os seguintes aspectos: Não há docência sem discência; ensinar não é transferir conhecimento; e ensinar exige querer bem aos alunos.

 

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

É sabido que a educação é uma prática social, e como tal, faz parte das relações sociais, econômicas, políticas e culturais de toda sociedade. Por isso, cada país procura cuidar da formação da população, preparando-a para atuar nas mais diversas áreas da indústria, do comércio, da prestação de serviços, enfim da vida social.

Atualmente o processo educativo acontece numa grande variedade de instituições (na família, na escola, no trabalho, nas igrejas, etc.), todavia nenhuma se compara ao espaço formal historicamente constituído para esse fim – a escola.

Infelizmente, há muito tempo a escola deixou de ser um lugar prazeroso, onde reina a alegria e a esperança, onde educadores e educandos caminham juntos com a convicção de que são capazes de construir e reconstruir a sua história, de intervir efetivamente no mundo. Hoje, a atividade docente que impera nesse espaço de ensino é comumente vista como transmissão de conhecimento, dos conteúdos aos alunos, totalmente desprovida de qualquer rigor metodológico e sem qualquer reflexão crítica sobre a prática. O professor expõe os conteúdos, os alunos escutam, copiam em seus cadernos, praticam exercícios propostos nos livros didáticos, decoram e tentam reproduzir o que “aprenderam” na prova.

O que Paulo Freire propõe com seus saberes da autonomia é uma reflexão crítica à atividade docente, apontando saberes indispensáveis ao resgate da escola que hoje só existe em sonhos.

Com ele aprendemos que a leitura do mundo precede a leitura da palavra, que tudo o que ensinamos/aprendemos não está no mundo por acaso, naturalmente, mas que é foi construído social e historicamente. Que o ato de ensinar, especificidade humana, deve ser revestido de eticidade. Que incondicionalmente devemos respeitar a autonomia de ser e de saber ser dos educandos, que a mudança é sim, possível, enfim que devemos querer bem a todos os alunos indistintamente.

Como o jardineiro gentileza, acreditamos que todo professor deveria ter a obra Pedagogia da Autonomia de Paulo Freire como livro de cabeceira.

 

 

                                                              REFERÊNCIA

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 39. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996 (Coleção leitura).