1 INTRODUÇÃO
A grande maioria dos conhecimentos e habilidades do homem se forma por meio da assimilação da experiência de toda a humanidade, acumulada no processo da história social e transmissível no processo de aprendizagem. (LURIA, 1991, p.73, grifo do autor)
Segundo a professora Kátia Cavalcanti, a obra Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire, é constituída de três saberes: epistemológicos, que correspondem ao capítulo 1 – Não há docência sem discência; metodológicos, ao capítulo 2 – Ensinar não é transferir conhecimento; e ontológicos, ao capítulo 3 – Ensinar é uma especificidade humana, cada um formado por um conjunto de nove saberes, perfazendo, ao todo, 27 saberes.
Nessa obra, cujo objetivo é analisar saberes fundamentais à formação e à prática educativa docente, numa perspectiva progressista – embora possa servir a todos os professores e professoras, independentemente da posição política assumida –, Paulo Freire utiliza o método dialético para apresentar sua teoria pedagógica de como o professor ou a professora pode ajudar os educandos a construir sua própria autonomia no desenvolver do seu saber.
Com efeito, no quinto encontro vivencial ocorrido no dia 27 de outubro, a professora Kátia solicitou aos quatro grupos já constituídos – o nosso por Narla Sathler, Rita Alves, Moisés Silva, Bárbara Farias, Juliana Costa, Luciene Schulz e Ricardo Braz (fig. 1) – a corporalização dos saberes metodológicos freireanos, para o personagem criado – o jardineiro gentileza, no nosso caso – mediante a construção de um ambiente humanescente, numa perspectiva de educação transdisciplinar e articulando as emoções sob a ótica do brincar, criar, sentir, pensar e humanizar-se.
Figura 1: Nosso grupo
2 OS SABERES METODOLÓGICOS FREIREANOS
Os nove saberes metodológicos que constituem o Ensinar não é transferir conhecimento, são: 1) Ensinar exige consciência do inacabamento; 2) Ensinar exige o reconhecimento de ser condicionado; 3) Ensinar exige respeito à autonomia do ser do educando; 4) Ensinar exige bom senso; 5) Ensinar exige humildade, tolerância e luta em defesa dos direitos dos educadores; 6) Ensinar exige apreensão da realidade; 7) Ensinar exige alegria e esperança; 8) Ensinar exige a convicção de que a mudança é possível; e 9) Ensinar exige curiosidade.
Nesse aspecto – do ensinar não é transferir conhecimento –, concordamos incondicionalmente com o professor Paulo Freire quando afirma:
Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção. [...]. Este saber não apenas precisa ser apreendido (pelo professor ou professora) e pelos educandos nas suas razões de ser – ontológica, política, ética, epistemológica, pedagógica – mas também precisa ser constantemente testemunhado, vivido (FREIRE, 1996, p.47, grifo do autor).
2.1 Ensinar exige consciência do inacabamento
O inacabamento é próprio do ser humano, uma vez que temos o direito e o dever de optar, de lutar, de transformar, de fazer política, num permanente movimento de intervenção social de busca para melhorar. Por isso, enquanto educadores, conscientes do nosso inacabamento e de que o nosso destino no mundo não é predeterminado, preestabelecido, devemos estar predispostos à mudança, à aceitação do diferente, a intervir. Nada do que experimentamos em nossa atividade docente deve necessariamente repetir-se (FREIRE, 1996, p.50-3).
2.2 Ensinar exige o reconhecimento de ser condicionado
Como seres inacabados, somos, consequentemente, seres condicionados. Por isso, a nossa presença no mundo – que não se faz no isolamento isenta da influência das forças sociais ou na tensão do que herdamos geneticamente e o que herdamos social, cultural e historicamente – não deve ser a de quem a ele se adapta mas a de quem nele se insere, a de quem não é objeto e, sim, sujeito da história.
Assim, se nós educadores, conscientes do nosso inacabamento, abertos à procura, à curiosidade, certamente exercitaremos tanto mais e melhor a nossa capacidade de aprender e de ensinar quanto mais sujeitos do processo nos façamos. (FREIRE, 1996, p.53-9).
2.3 Ensinar exige respeito à autonomia do ser do educando
O respeito à autonomia e à dignidade de cada ser humano é um imperativo ético e inalienável, em todas as circunstâncias. Dessa forma, o educador não deve desrespeitar a curiosidade do educando, o seu gosto estético, a sua inquietude, a sua linguagem, tampouco se eximir do cumprimento de seu dever de propor limites à liberdade do aluno, nem se furtar ao dever de ensinar, sob pena de transgredir os princípios fundamentais éticos de nossa existência. Enfim, saber respeitar à autonomia e à identidade do educando exige de nós, educadores, uma prática em tudo coerente com este saber (FREIRE, 1996, p.59-61).
2.4 Ensinar exige bom senso
O exercício do bom senso se faz no respeito à autonomia, à dignidade e à identidade do educando; na avaliação coerente que a todo instante fazemos; no cumprimento de nossa autoridade de professor em sala de aula, tomando decisões, orientando atividades, cobrando a produção individual e coletiva do grupo; na curiosidade, ao por em prática a nossa capacidade de indagar, de comparar, de duvidar, de aferir; em não crer que a fome, a miséria, a falta de moradia e saúde são uma fatalidade; no respeito às condições sociais, culturais e econômicas dos educandos e de suas famílias; no reconhecimento da importância dos saberes que os educandos trazem para a escola. Todavia, não podemos ficar apenas no discurso. Precisamos fazer essas qualidades ou virtudes acontecerem efetivamente na nossa prática (FREIRE, 1996, p.61-6).
2.5 Ensinar exige humildade, tolerância e luta em defesa dos direitos dos educadores
A luta política consciente, crítica e organizada dos professores em defesa de seus direitos e de sua dignidade, ai incluída a briga por salários menos imorais, faz parte da prática docente e à educação, tanto quanto o respeito que eles devem ter à identidade do educando, à sua pessoa, a seu direito de ser.
O respeito do educador à pessoa dos educandos, à sua curiosidade, exige o cultivo da humildade, da tolerância e da amorosidade para com eles, bem como a aprender a conviver com os diferentes e o exercício efetivo de sua prática pedagógica, não transformando a atividade docente em puro “bico” . É preciso amar o que se faz. Ninguém acerta sem essa característica. (FREIRE, 1996, p.66-8).
2.6 Ensinar exige apreensão da realidade
O mínimo que se espera de um professor é uma formação básica (na sua especialidade) e saberes ligados à atividade docente, que lhe permita se mover com clareza e segurança no desempenho de sua prática. Por outro lado, a nossa capacidade de aprender, da qual decorre a de ensinar, implica a nossa habilidade de apreender a substantividade do objeto ou conteúdo aprendido, ou seja, nos possibilita construir, reconstruir, constatar para mudar, em contraposição à memorização mecânica do objeto ou conteúdo, tão presente em nossas escolas e que não caracteriza aprendizado verdadeiro (FREIRE, 1996, p.68-72).
Daí a afirmação ontológica de Paulo Freire (1996, p.69) de que “toda prática educativa demanda a existência de sujeitos, um que, ensinando, aprende, outro que, aprendendo, ensina”.
2.7 Ensinar exige alegria e esperança
O envolvimento de qualquer professor com sua prática educativa não deve nunca deixar de ser feito com alegria e, sobretudo, com esperança. A esperança de que juntos, professor e alunos, podem aprender, ensinar, inquietar-se, produzir e resistir aos obstáculos da alegria.
Por isso, precisamos combater efetivamente as razões objetivas que causam desesperanças (negação das esperanças) às pessoas. A realidade não é inexoravelmente esta que nos encontramos; está sendo esta como poderia ser outra e é para que seja outra que precisamos lutar. Precisamos, pois, sair da passividade – a realidade é mesmo esta, o que fazer? – uma vez que o amanhã não é algo pré-dado, mas um desafio, um problema, uma possibilidade e, portanto, não podemos nem devemos nos eximir da luta (FREIRE, 1996, p.72-6).
2.8 Ensinar exige a convicção de que a mudança é possível
Decerto a existência humana não se dá no domínio da determinação, pois se assim fosse, não faria sentido se falar de opções, de decisão, de liberdade, de ética. Ninguém pode estar no mundo, com o mundo e com os outros de forma neutra, constatando apenas. A acomodação do ser humano deve ser somente caminho para a sua inserção, que implica decisão, escolha, intervenção na realidade.
Com efeito, nós educadores, precisamos acreditar que a mudança é difícil mas é possível, que é preciso mudar, que devemos, para tanto, programar nossa ação político-pedagógica, a partir da leitura de mundo (que precede sempre a leitura da palavra) que os educandos fazem de seu contexto imediato, respeitando seus saberes já adquiridos (FREIRE, 1996, p.76-84).
2.9 Ensinar exige curiosidade
Como professor, devo saber que sem a curiosidade que me move, que me inquieta, não aprendo nem ensino, até porque “o exercício da curiosidade convoca a imaginação, a intuição, as emoções, a capacidade de conjecturar, de comparar, na busca da perfilização do objeto ou do achado de sua razão de ser”. (Ademais), “satisfeita uma curiosidade, a capacidade de inquietar-me e buscar continua em pé. Não haveria existência humana sem a abertura de nosso ser ao mundo, sem a transitividade de nossa consciência. (FREIRE, 1996, p.88).
3 CORPORALIZANDO OS SABERES METODOLÓGICOS COM O JARDINEIRO GENTILEZA
Para a construção do cenário humanescente, nosso grupo pensou em dividir o jardim em três partes: uma, em que a terra crua estaria sendo preparada para o plantio; outra, já arada e semeada; e outra já apresentando flores e plantas já crescidas. Acreditamos que dessa forma estaríamos, por analogia à prática educativa, caracterizando a consciência do inacabamento – nada do que existe no mundo é predeterminado, preestabelecido, mas que é foi construído social e historicamente.
Os participantes do grupo assumiram as seguintes representações: Luciane, o jardineiro gentileza, que cotidianamente cuida do jardim com alegria e prazer, esbanjando amorosidade ao que se dispõe a fazer; Rita, o sol, que sob seus raios nos fornece a luz necessária à vida dos seres vivos do jardim; Moisés, a erva daninha, que teima em aparecer quando da adubação do jardim para o plantio; Narla, Bárbara e Juliana, as plantas e flores já brotadas e que dão um colorido e o encantamento do nosso jardim (fig. 2).
Figura 2: O cenário
Fazendo um paralelo com os saberes metodológicos freireanos, podemos dizer que a Luciane caracteriza os saberes da humildade, tolerância e luta em defesa dos direitos dos educadores, a alegria e a esperança que deve sempre existir na escola e a convicção de que a mudança é possível; por isso, dizemos que não haveria existência humana sem a abertura de nosso ser ao mundo, tampouco uma escola humanescente sem o respeito do educador à pessoa dos educandos. Rita, o reconhecimento do ser condicionado, visto que a nossa presença no mundo não deve ser a de quem a ele se adapta mas a de quem nele se insere. Moisés, a autonomia do ser do educando, imperativo ético e inalienável, que deve ser respeitado em todas as circunstâncias. Narla, Bárbara e Juliana, os saberes ensinar exige bom senso, curiosidade, e apreensão da realidade, uma vez que, por um lado, o exercício da curiosidade convoca à imaginação, ao despertar das emoções, na busca da justificação à razão de ser e, por outro, a apreensão da realidade a exigência de uma formação básica, que lhe permita se mover com clareza e segurança no desempenho de sua prática e a habilidade de apreender o objetivo a ser aprendido, construindo e reconstruindo, constatando para mudar.
A jardineira Luciane adubou a terra, semeou e depois se encantou com os frutos do seu trabalho realizado com disposição e alegria, sob um sol – Rita – maravilhoso que nos permitiu a todos, numa linda manhã, contemplar a beleza do jardim com plantas e flores coloridas – Narla, Bárbara e Juliana – alegrando nossos corações e nos enchendo de encantamento, mesmo a despeito da erva daninha – Moisés – que deu o ar de sua graça, teimando em querer ofuscar o belo que se percebe no jardim.
Para brindarmos a nossa alegria na corporalização dos saberes metodológicos freireanos, dançamos, de mãos dadas (fig. 3) – afinal, a nossa presença no mundo não se faz no isolamento isenta da influência das forças sociais –, sobre o ambiente humanescente construído – o jardim – com a certeza de que, a mudança é, sim, possível, que podemos, através da ludicidade, transformar o ambiente opaco de nossas escolas atualmente, num espaço cheio de vida.
Figura 3: Dançando a humanescência
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A prática educativa – experiência especificamente humana –, e não importa com que faixa etária trabalhe o educador, se desenvolve em três dimensões: humana, pelo relacionamento interpessoal entre alunos e professores, alunos e alunos, e professores e professores; político-social, na perspectiva de que numa escola, que está situada em um local determinado, numa certa época histórica, segue orientações e diretrizes de profissionais da educação e das políticas governamentais, pretendo-se que as crianças, jovens e adultos se eduquem para serem membros participantes da sociedade, contribuindo para seu progresso e desenvolvimento; e técnica, definição de objetivos, seleção de conteúdos, técnicas e recursos de ensino, organização do processo de avaliação e escolha de técnicas avaliativas, planejamento de curso e de aulas (MASETTO, 1997).
Como podemos perceber, a prática educativa é afetividade, alegria, capacidade científica e domínio técnico a serviço da mudança ou da permanência do hoje (FREIRE, 1996). Todavia, o que se vem constatando em nossas escolas na atualidade é que o aspecto afetivo-relacional foi deixado de lado e, em consequencia, se privilegia somente a técnica.
Ora, mais o que aprendemos e como aprendemos depende das emoções, pois percebemos o mundo antes pelos nossos sentimentos por meio de estímulos recebidos pelos sentidos, do que pela razão. Por isso acreditamos que o resgate da afetividade na escola, criará um clima prazeroso em sala de aula, favorecendo à aprendizagem, objetivo final da educação.
Para tanto, a consciência do nosso inacabamento, a utilização da ética nas relações e os valores básicos de respeito à autonomia e as diferenças individuais e coletivas são mandamentos fundamentais. Não há como discursar (os educadores) sobre uma sociedade mais justa e igualitária se essa tarefa não é vivenciada cotidianamente em nossas escolas, sob pena de descumprimento de um dos papeis do professor: o de preparar o terreno para que os educandos possam transformar a realidade que se lhes apresenta.
Decerto é preciso agregar valores e crescimento a todos, indistintamente, e isso se consegue mais facilmente se o educador for capaz de atingir os alunos de forma objetiva sem excluir suas subjetividades, e desenvolver um processo de aprendizagem que tenha por base o saber técnico-científico agregado à afetividade.
REFERÊNCIAS
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 39. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996 (Coleção leitura).
LURIA. A.R. A atividade consciente do homem e suas raízes histórico-sociais. In: _______. Curso de Psicologia Geral. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1991, p.71-84.
MASETTO, Marcos. Didática: a aula como centro. 4. Ed. São Paulo: FTD, 1997.

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José Mauro Freitas
Curiosidade ingênua e epistemológica
Curiosidade ingênua x curiosidade epistemológica
Convicção na mudança
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