1 INTRODUÇÃO

 

O Cio da Terra

Debulhar o trigo

Recolher cada bago do trigo

Forjar no trigo o milagre do pão

E se fartar de pão

Decepar a cana

Recolher a garapa da cana

Roubar da cana a doçura do mel

Se lambuzar de mel

Afagar a terra

Conhecer os desejos da terra

Cio da terra, a propícia estação

E fecundar o chão

Milton Nascimento / Chico Buarque

 

No sexto encontro vivencial ocorrido no dia 10 de novembro, a atividade definida pela professora Kátia aos quatro grupos já constituídos – o nosso por Narla Sathler, Rita Alves, Moisés Silva, Bárbara Farias, Juliana Costa, Luciene Schulz e Ricardo Braz (fig. 1) – consistia em vivenciar a corporalização dos saberes metodológicos freireanos, para o personagem criado pelos grupos – o jardineiro gentileza, no nosso caso, de sorte que a platéia pudesse entender, sem qualquer relato/explicação oral, a encenação a ser apresentada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Figura 1: Nosso grupo

 

Depois de diversos encontros virtuais (por e-mail) que precederam a apresentação, o grupo, numa construção coletiva, entendeu que o jardineiro gentileza deveria demonstrar os saberes metodológicos freireanos mediante um jardim (o nosso cenário) com bastante cor, flores e pássaros, que se desenvolvem sob um sol maravilhoso (fig. 2) e que cada membro do grupo deveria usar um avental verde (em alusão às matas/florestas) estampando os referidos saberes.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Figura 2: O jardim (o cenário)

 

Decidiu, ainda, pela apresentação dos saberes metodológicos através de um cordel (tipo de literatura característica do Nordeste), utilizando como pano de fundo a música Pra não dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré, e que no final da encenação, todos (o grupo e a platéia) cantaria a música Cio da Terra, de Milton Nascimento e Chico Buarque (a letra seria distribuída), com a qual o jardineiro gentileza demonstrava sua alegria, afeto e encantamento no cuidado com o seu jardim.

 

 

2 CORPORALIZANDO OS SABERES METODOLÓGICOS COM O JARDINEIRO GENTILEZA – 2º ATO

No dia do encontro, movidos pela alegria, prazer e integração, fizemos alguns ensaios para a performance dos movimentos e assim melhor manifestar o encanto do jardineiro gentileza frente aos saberes metodológicos freireanos: 1) Ensinar exige consciência do inacabamento; 2) Ensinar exige o reconhecimento de ser condicionado; 3) Ensinar exige respeito à autonomia do ser do educando; 4) Ensinar exige bom senso; 5) Ensinar exige humildade, tolerância e luta em defesa dos direitos dos educadores; 6) Ensinar exige apreensão da realidade; 7) Ensinar exige alegria e esperança; 8) Ensinar exige a convicção de que a mudança é possível; e 9) Ensinar exige curiosidade.

A apresentação do grupo seguiu o seguinte roteiro (música Prá não dizer que não falei das flores de fundo):

Posicionados, todos os membros do grupo no jardim, Luciane toma a palavra e faz o intróito: Convidamos todos, para juntos com o jardineiro gentileza, polinizarmos a alma e plantarmos um futuro melhor (fig. 3).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Figura 3: Luciane: intróito

 

Em seguida, começamos o cordel, onde cada estrofe é declamada por um dos integrantes do grupo.

  • Narla:       Paulo Freire foi homem do povo

                          Homem das letras e dos saberes

                          Fez história e deixou ensinamentos

                          Pois era homem de grande sabedoria

                          Que agora vive em outra dimensão

 

  • Rita:         Mas quando habitava esse lugar

                          Dizia que ensinar é coisa de gente

                          Só gente ensina com segurança

                          Com generosidade e comprometimento

 

  • Bárbara:  O mestre dizia com grande propriedade

                          Que a educação é uma intervenção no mundo

                          Que educando vamos mudando tudo e todos

                          Que se permitem e aceitam a mudança

 

  • Juliana:   Que grande sabedoria, quanta visão de mundo

                         Tinha nosso mestre Paulo Freire

                         Que com grande inteligência nos dizia

                         Que ensinar exige liberdade e autoridade

 

  • Moisés:    Tomando decisões de forma consciente

                          Sabendo escutar a si, o outro e o mundo

                          Pois a educação é dialógica e conduz ao

                          Saber ouvir e saber falar com amorosidade

 

  • Luciane:  Para o mestre ensinar é querer bem aos educandos

                         É gostar da escola e ensinar por prazer

                         Pois a verdadeira educação só acontece

                         Quando a alegria se instala em cada canto

 

  • Ricardo:   E se torna companheira de todos

                          Pois ensinar é um ato contínuo

                          Que nunca para e acontece em todos os lugares

                          Fortalecendo a consciência do inacabamento

 

  • Narla:       Somos seres inacabados, prontos para a experimentação

                          Estamos em processo de transformação

                          Quanto mais fazemos, mais aprendemos

                          Que muito temos que aprender

 

  • Rita:     Precisamos reconhecer que somos plurais, complexos e subjetivos

                      Conscientes de nosso inacabamento

                      O que nos possibilita ir além

                      Transcender e viver com gentileza e alegria

 

O grupo, então, distribui uma joaninha de papel e pinceis a platéia, que deverá escrever sobre ela uma palavra que represente o sentimento/desejo de bem querer. Luciane acrescenta que essa joaninha deverá fazer parte do vasinho que cada um receberá para plantar as sementes do futuro (fig. 4).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Figura 4: Moisés – distribuindo vasinhos                Figura 5: Vasinhos com terra e semente

 

Depois de distribuídos os vasinhos, Luciane pede à platéia que preencha com terra (disponibilizada pelo grupo), molhe um pouco e mentalize o que deseja como educador seguidor de Paulo Freire, a fim de energizar a terra. Agora, continua Luciane, vocês receberão sementes de ipê amarelo, que foi coletado de uma árvore, mãe generosa, junto ao campus aqui da Universidade (fig. 5).

Narla, então, pede que todos juntem ao vasinho a joaninha com a inscrição do bem querer escrito e levem para casa, não esquecendo de regar todo dia, a fim de cultivar esse bem querer. Procedendo assim, em breve a semente germinará, simbolizando tudo o que foi mentalizado, refletindo as boas energias desse momento que estamos vivendo juntamente com Paulo Freire.

Finalizando a apresentação, o grupo distribui a letra da música Cio da Terra e convida a todos para, de mãos dadas, a cantarem (fig. 6).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Figura 6: Cio da Terra, a música

 

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Decerto a educação é um fenômeno social e universal – ela faz parte das relações sociais, econômicas, políticas e culturais de qualquer sociedade – e o caminho para tornar homens e mulheres conscientes de que toda ação tem reflexo para além do pessoal, de seus direitos e deveres, de sua responsabilidade para com o meio ambiente, de que a interrelação, a parceria e a colaboração são fundamentais para o crescimento pessoal e da comunidade, uma vez que ninguém consegue viver autonomamente.

Todavia,

 

O desrespeito à educação, aos educandos, aos educadores e às educadoras corrói ou deteriora em nós, de um lado, a sensibilidade ou a abertura ao bem querer da própria prática educativa, de outro, a alegria necessária ao que-fazer docente (FREIRE, 1996, p.142).

 

É preciso, pois, que os educadores tenham bom senso, reconheçam que educar não se limita a informar, que devem construir um sentido de pertencimento com os educandos respeitando a autonomia de cada um e com humildade, valorizar os saberes anteriormente apreendidos por aqueles, enfim, criem um clima prazeroso nos espaços de ensino, visto que a interação afetiva a aprendizagem e ajuda as pessoas a ter clareza do sentido da sua existência e do seu inacabamento e, consequentemente, assumir com alegria e esperança que a mudança é possível.

Nessa perspectiva, torna-se possível o “reencantamento da educação” de que fala Maria Cândida Moraes. Todavia, para tornar realidade essas ações, é preciso que nós educadores, promovamos uma verdadeira “reforma do pensamento”, conforme expressão de Edgar Morin.

  

 

                                                              REFERÊNCIA

 

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 39. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996 (Coleção leitura).