SEMINÁRIO DE PESQUISA - UFRN - CCSA - PPGED - BACOR

REFLEXÕES TEÓRICAS E METODOLÓGICAS NO ESTUDO DA CORPOREIDADE

Relatório do encontro do dia 16/03/2010

  

Autoconectividade: corporizando através da estimulação sensorial dos pés

                                                                                                        Luciane Schulz  

             Depois de caminharmos e semearmos durante um semestre no ano que se passou, com intensa aprendizagem, alegria e amorosidade na Base da Corporeidade, estávamos há algum tempo sem nos encontrar com o pessoal no ambiente da UFRN.

            Durante a semana que antecedia o início dos encontros, recebemos a orientação por email para levarmos massinha de modelar, trajes confortáveis e uma canga ou toalha. Assim sendo, a ansiedade e a expectativa eram imensas, pois o que estudaríamos nesse semestre, além do mais, quem seriam nossos companheiros de estudo? Será que veríamos muitos dos que estiveram conosco no semestre passado?  E com essas dúvidas e expectativas, além da imensa alegria de retornar, me sentindo como criança quando vai para escola no primeiro dia de aula, me encaminhei para meu primeiro encontro vivencial da corporeidade, pois como diz o trecho do poema de Cora Coralina citado acima: “o que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada”.

            Lá chegando, foram muitos beijos e abraços. Estava alegre por ver os que ali estavam. Mas também procurando alguns participantes do semestre passado.

            Como já não era tão novata, tratei de acolher os novos rostos que se apresentavam um tanto quanto perdidos em meio a tantas novidades, desejando-lhes boas vindas e oferecendo-lhes acolhimento. Afinal, quando se dirige para “aulas” de pós-graduação, o que menos se espera é aquele ambiente com as cangas e toalhas dispostas, no entorno de uma mandala, favorecendo o campo vibracional característicos da Base da Corporeidade. E mais, nesse humanescente ambiente, as tradicionais carteiras estudantis não tem espaço.

            Aos poucos, a agitação foi se abrandando, a mandala foi sendo montada, com lindas flores vermelhas da árvore Flamboyant.

            Na sequência, todos foram se acomodando ao redor da mandala  e nossa professora iniciou a fala. Ela nos deu as boas vindas, comentando como seria o semestre, os objetivos, os desafios, os critérios utilizados na seleção para estarmos matriculados na disciplina. O professor Edemilson, também se fez presente para esse encontro inaugural, complementando as orientações da professora Kátia.

            E para início, como primeira tarefa do seminário, fomos instigados a confeccionar uma tabela de orçamento do tempo com o objetivo de avaliarmos como estamos nos organizando com o nosso tempo. Essa tabela, teria início a partir do dia 16 de março, às 0 hora. Cada dia teria uma tabela, contendo o horário, o tempo gasto, a atividade e o estado emocional no momento. A somatória dos horários, fecharia totalizando 24 horas.  Assim sendo, todos os dias enviaríamos por email para a professora as tabelas com os orçamentos.

            Num segundo momento, partimos para a etapa vivencial.

 

 Descrição Fenomenológica Corporalizada

            Procurei me acomodar de maneira confortável para poder me concentrar na atividade que estaria por vir. Assim, com a massinha em mãos, deveríamos confeccionar uma bolinha e com ela, promover um passeio pela parte do nosso corpo  por nós escolhida e que tivesse exposta.

            De imediato peguei a massinha verde e tratei de fazer movimentos circulatórios com ela entre as minhas mãos, moldando até que tomasse a forma de bolinha como pode ser vista na figura 1abaixo.

 A_viagem_da_bolinha

                                                                               Foto: Luciane Schulz

Figura 1: Bolinha de massinha moldada em movimentos circulares com as palmas das minhas mãos.

                          Enquanto movimentava em círculos a massinha, tentando dar o formato de bolinha, fechei os olhos para melhor perceber a estimulação que a palma das minhas mãos recebia. Era a integração do sentir, pensar e fazer, experimentando a “escuta do sentimento” e a “abertura do coração como defende Moraes (2004), proporcionando assim uma sensação bem prazerosa.

                Em seguida, ainda sentada com as pernas cruzadas e com os olhos fechados, me concentrei e transferi a leitura sensorial do ambiente para a estimulação tátil que viria. Então estimulei a planta do pé direito com a bolinha, fazendo movimentos circulares e exercendo uma leve pressão, movendo-a também por todos os dedos e entre eles. Quando a bolinha passava por entre os dedos, a sensibilidade aumentava, provocando cócegas. Deixei a sensação agradável tomar conta dos meus pés, me permitindo momentos de fluxo (CSIKSZENTMIHALYI, 1999), onde o que sentia, o que desejava e o que pensava estavam em harmonia, num sentir-pensar do corpo e do meu próprio ser.

                Na sequência, passei a estimular da mesma forma o pé esquerdo e ainda de olhos fechados, lembrei das sensações maravilhosas durante as caminhadas descalça pela areia da praia, pela grama, pelas pedras ao buscar uma cachoeira para tomar banho. A pressão sob os pés mudava conforme o ambiente, mas podia-se perceber a imensa estimulação dos pontos reflexivos que encontram-se na planta dos nossos pés e a imensa sensação de bem estar tomando conta do corpo. Leloup (1998) nos chama para o seguinte questionamento:

“Será que experimentamos prazer em estar sobre a terra? Podemos imaginar o corpo como um árvore. Se a seiva está viva em nós, ela desce às raízes e sobe até os mais altos galhos. É de nosso enraizamento na matéria que depende nossa subida à luz. É da saúde de nossos pés que vem o enraizamento”. 

 

Representação visual

            Dando continuidade ao encontro vivencial, fomos convidados a representar visualmente na bandeja a vivência anterior, usando massinha de modelar.

            Assim sendo, busquei representar meu pé direito sobre a vegetação rasteira, principalmente a grama. Preciso, sempre que possível fazer esse exercício sensorial, estando com os pés livres em ambientes naturais. Pierrakos (2007, p.16) defende que “nós mesmos criamos a nossa vida através do que fazemos com a nossa energia: para onde decidimos ir com ela e como a dirigimos” . Assim promovendo uma troca prazerosa de energia do meu corpo para a terra e da terra para meu corpo, evidencia-se o princípio ontopoiético da autoconectividade.                                            

             Fazendo uma análise das demais representações imagéticas apresentadas pelos participantes da vivência assim como durante a rodada descritiva oralmente, algumas categorias foram evidenciadas. Entre elas podemos citar que a maioria representou nas bandejas com a massinha, as  partes do corpo, principalmente os pés como pode ser observado na figura 2.

            Percebeu-se também a questão estética muito presente, figura 2, pois havia um cuidado durante a confecção em tornar a representação agradável aos olhos, com colorido e organização da modelagem.

  Mandala_com_todas_as_representações_imagéticas_do_passeio_da_bolinha_pelo_corpo

                                                                                         Foto: Luciane Schulz

Figura 2: Mandala ludopoiética, contendo  todas as representações vivenciais do encontro. Evidenciam-se as categorias corpo, e estética.

             Outra categoria presente durante a rodada oral descritiva, que merece ser destacada é a propriedade ontopoiética da autofluição (CAVALCANTI, 2008). Tanto na confecção da representação imagética como na sua porterior descrição, o prazer e a alegria permearam a vivência. Também evidenciou-se outra propriedade ontopoiética como categoria, a autoconectividade (CAVALCANTI, 2008), uma vez que todos se envolveram e se entregaram para a criação dos cenários, estando conectados através da sua autoconsciência e corporalidade consigo mesmo e com os demais participantes ali presentes. É o que Capra (1996, p.40) defende com a  necessidade do pensamento sistêmico, no qual  “as propriedades essenciais de um organismo, ou sistema vivo, são propriedades do todo, que nenhuma das partes possui. Elas surgem das interações e das relações entre as partes”. 

 

 Referências Bibliográficas:

CAPRA, Fritjof. Teia da Vida. Cultrix: São Paulo, 1996

CAVALCANTI, Katia Brandão. Jogo de Areia e Transdisciplinaridade: Desenvolvendo abordagens ludopoiéticas para a educação e a pesquisa do lazer. Licere (Belo Horizonte), v. 11, p. 1-15, 2008.

CSIKSZENTMIHALYI, M. A descoberta do fluxo. Psicologia do envolvimento com a vida cotidiana. Rio de janeiro: Rocco, 1999.

LELOUP, Jean-Yves.  O corpo e seus símbolos - Uma antropologia essencial. Petrópolis: Ed. Vozes, 1998.

MORAES, Maria Cândida. Sentipensar – Fundamentos e estratégias para reencantar a educação. Petrópolis: Vozes, 2004.

PIERRAKOS, M.D. John C. Energética da essência. (Core Energetics). Desenvolvendo a Capacidade de Amar e de Curar. Tradução Carlos A. L. Salum e Ana Lúcia Franco. 6 ed. São Paulo: Editora Pensamento, 2007.