SEMINÁRIO DE PESQUISA - UFRN - CCSA - PPGED - BACOR
REFLEXÕES TEÓRICAS E METODOLÓGICAS NO ESTUDO DA CORPOREIDADE
Relatório da Pesquisa de Orçamento do Tempo – 23/03/2010
Em nosso encontro passada, do dia 16 de março, recebemos como primeira tarefa do seminário, a confecção de uma tabela de orçamento do tempo com o objetivo de pesquisarmos e avaliarmos como estamos nos organizando com relação ao nosso tempo.
Essa pesquisa, teria início a partir do dia 16 de março, às 0 hora e findaria as 24 horas do dia 22 de março. Cada dia teria uma tabela, contendo o horário, o tempo gasto, a atividade e o estado emocional no momento. A somatória dos horários, fecharia totalizando 24 horas.
Assim sendo, todos os dias monitoramos o nosso tempo e registramos no orçamento do tempo, enviando diariamente por email para a professora Kátia.
Diante dessa pesquisa, ao registrarmos a atividade e o estado emocional durante a mesma, haveríamos de trazer para nosso encontro, alguma miniatura que representasse uma experiência de fluxo evidenciado durante a semana registrada.
Assim sendo, trouxe para essa representação, a bonequinha da felicidade, presente que ganhei com muito carinho de alguns ex-alunos. Foi colocada no centro da mandala ontopoiética, juntamente com as demais miniaturas trazidas pelos participantes, simbolizando suas experiências de fluxo.
Foto: Luciane Schulz
Figura 1: Mandala construída através da representação das experiências de fluxo dos participantes. Entre as miniaturas estavam a bonequinha da felicidade, simbolizando meu jardim encantado, o livro de NMO simbolizando seu trabalho, a florzinha de EP simbolizando o cuidado consigo mesma e a bonequinha com uma grande sombrinha de HS simbolizando o mundo que carrega nas costas.
Em cada uma dessas representações destacadas, observou-se a propriedade ontopoiética da autovalia , que na fala de Cavalcanti
“diz respeito à gratuidade, ao valor atribuído pelo sujeito às suas escolhas lúdicas. É a própria subjetividade humana responsável por determinar o valor das vivências lúdicas para a criação e a recriação de si mesmo, para a sua alegria de viver. A ludicidade humana não se manifesta como valor de troca mercantilizado pela cultura de consumo. O valor do usufruto do lúdico constitui um autovalor, devendo ser definido pelo próprio sujeito” (CAVALCANTI, 2008, p. 11).
Dessa forma, ao trazer para a mandala a bonequinha da felicidade (Fig.1), busquei representar meus cuidados com o jardim de casa, no qual diariamente ao anoitecer, buscava relaxar e me reenergizar, observando, molhando, cuidando das plantas do meu quintal, que por sinal está se tornando encantado.
Como pode ser observado no orçamento do tempo, de todas as atividades praticadas diariamente, o cuidado do meu jardim, é a atividade em que me proporciona prazer, bem estar, e que considero de grande importância para mim, destacando-se dessa forma da propriedade ontopoiética da autovalia. Pois além da sensação de bem estar, precisava estar com as plantas, molhando-as depois de um dia de muito calor, com os pés em contato com o chão, sentindo o calor da terra. Leloup (2008) faz o seguinte questionamento: “Será que experimentamos prazer em estar sobre a terra? Com toda certeza sim, pois além do prazer, também acontece a troca de energia, do meu corpo para a terra e vice-versa, caracterizando-se a propriedade ontopoiética da autofruição. Segundo Cavalcanti,
“esta propriedade significa o estado vivencial de prazer e alegria como meta a ser alcançada pelo sujeito na realização de seus desejos ludopoiéticos de expressão de si mesmo por si mesmo como vivência plena da alegria de viver” (CAVALCANTI, 2008, p.11).
Dessa maneira, mesmo tendo uma série de atividades para serem realizadas, precisava me permitir essas sensações, possibilitando momentos de fluxo, que na fala de Csikszentmihalyi (1999, p. 36), são momentos onde “o que sentimos, o que desejamos e o que pensamos se harmonizam”.
Dando sequência ao encontro, partimos para a representação imagética dessa pesquisa, através da prática do jogo de areia. Deveríamos representar o momento da semana em que a experiência de fluxo fosse mais intensa, mais marcante. Enquanto ouvia as orientações da professora, meu pensamento viajava na busca por entre as minhas memórias, como gaivota que plaina no ar, esperando o momento certo de pousar. E ao encontrar o momento procurado em meio a tantas lembranças, me entreguei às emoções e através de minhas mãos, cúmplices da minha corporeidade, passei a construir o cenário que pode ser visto na figura 2.
Foto: Luciane Schulz
Figura 2: Cenário confeccionado através da técnica do Jogo de Areia, representando imageticamente, minha maior experiência de fluxo da semana pesquisada no orçamento do tempo, que foi a comemoração do aniversário do meu filho João no Parque das Dunas em Natal com seus amigos.
Alguns dias antes, João ao estar aniversariando, completando seus 12 anos, pediu-me como presente uma comemoração com seus amigos, num lugar em que pudessem correr, brincar, realmente se soltar. Mas teria que ser num lugar especial. Então, deixei que ele fizesse as sugestões e finalmente a escolha. E nessa escolha, para minha imensa alegria, pediu para que fosse uma tarde de domingo, junto ao Parque das Dunas aqui em Natal. Assim sendo, organizei para que esse momento acontecesse e para lá fomos.
Que maravilhosa tarde, seus amigos vieram, cantaram parabéns, lancharam o bolo de cenoura, que foi pedido como lanche pelo João e saíram para brincar, soltos num grande quintal encantado. Fomos presenteados com o som do encantador do Diogo e Macaxeira, além é claro, do som do vento e dos pássaros.
Muito bom perceber os meninos felizes, brincando em harmonia entre eles e com o meio, no sentido de Maturana e Verden-Zöller (2004, p. 144) que dizem que brincadeira é “qualquer atividade vivida no presente de sua realização e desempenhada de modo emocional, sem nenhum propósito que lhe seja exterior”.
Acredito que brincar é primordial para o crescimento sadio das pessoas, pois tornando-as mais sensíveis e criativas, vai estimulando e fortalecento nossa corporeidade num um planeta que encontra-se carente de amorosidade. E brincar em contato com a natureza, construindo dessa forma o que Antunes (2006) chama de inteligência ecológica.
Então, o sorriso do João, com sua simplicidade ao comemorar seu aniversário, configuraram meu maior estado de fluxo. Essa tarde, me remeteu a um estado de paz, de alegria, com a sensação de dever cumprido, no sentido de estar conduzindo a educação dos meus filhos numa concepção voltada para um ser feliz, em harmonia consigo mesmo e com o meio. Um ser cooperativo diante de uma sociedade que somente encontra felicidade se estabelecer altos padrões de consumo. Pierrakos ( 2007, p.16) vem contribuir para essa reflexão. Ele defende que “nós mesmos criamos a nossa vida através do que fazemos com a nossa energia: para onde decidimos ir com ela e como a dirigimos” . Era a minha autotelia (CAVALCANTI, 2008), sendo evidenciada.
Referências Bibliográficas:
ANTUNES, Celso. Inteligências Múltiplas e seus jogos – Inteligência Ecológica – Vol. 3. Petrópolis: Vozes, 2006.
CAVALCANTI, Katia Brandão. Jogo de Areia e Transdisciplinaridade: Desenvolvendo abordagens ludopoiéticas para a educação e a pesquisa do lazer. Licere (Belo Horizonte), v. 11, p. 1-15, 2008.
CSIKSZENTMIHALYI, M. A descoberta do fluxo. Psicologia do envolvimento com a vida cotidiana. Rio de janeiro: Rocco, 1999.
LELOUP, Jean-Yves. O corpo e seus símbolos - Uma antropologia essencial. Petrópolis: Ed. Vozes, 1998.
MATURANA, Humberto e VERDEN-ZÖLLER, Gerda. Amar e Brincar:
Fundamentos esquecidos do humano. São Paulo: Palas Athena, 2004.
PIERRAKOS, M.D. John C. Energética da essência. (Core Energetics). Desenvolvendo a Capacidade de Amar e de Curar. Tradução Carlos A. L. Salum e Ana Lúcia Franco. 6 ed. São Paulo: Editora Pensamento, 2007.






One comment
MENINA SOL
Post a comment
Please type the two words below