Resenha da parte 4 — Para onde vai o clima? — do livro "Clima e Meio Ambiente" de José Bueno Conti.

Desertificação

O clima é uma característica marcante do meio-ambiente, definido pelo padrão reconhecido em uma longa na sucessão de tempos. Hoje podemos "ler" o clima do passado para reconstruir a história da vida e da humanidade, e também prever, além do tempo futuro, a evolução do clima e os possíveis impactos.

Deslizamento em Angra dos Reis
Deslizamento após chuva forte em em Angra dos Reis (fonte)

A média global de chuvas anuais é de aproximadamente 900 mm, infelizmente estas não são igualmente distribuídas em todo o globo e o problema está na má distribuição temporal dessas chuvas. Quando grande quantidade de chuvas caem em um curto período de tempo temos o que chamamos por "precipitações torrenciais". Essas precipitações excessivas causam deslizamentos de terra e alagamentos, que levam pessoas a morte todos os anos em países pobres, como o Brasil.

Desertificação no Norderste
Desertificação no Nordeste (fonte)

O outro lado da moeda, o período em que as chuvas cessam, potencializada em locais que já tem uma baixa média pluviométrica anual, são as secas que marcam diversos locais. Quando as raras chuvas não recuperam a água perdida com a evaporação, a seca coloca-se como um risco a vida e a paisagem. O nordeste brasileiro é um ícone deste efeito climático, mas a seca é um risco, inclusive a paisagem, em outros locais como na amazônia, onde as secas intensas dos últimos anos podem transformar parte da floresta em cerrado, o que dificilmente seria recuperado pelo solo arenoso e as altas médias de temperatura.

A seca é o principal fator no processo de desertificação, apesar da mesma poder ocorrer com ajuda de fatores humanos mesmo em locais com médias pluviométricas suficientes para a agricultura, como ocorrido no estado do Paraná.

Características de Deserto

De acordo com a Agenda 21, desertificação define-se como “a degradação das terras áridas, semi-áridas e sub-úmidas resultantes de vários fatores, incluindo variações climáticas e atividades humanas.”

Os desertos são definidos por 8 características chave:

  • Potencial de evaporação superior a média pluviométrica;
  • Chuvas raras, irregulares e concentradas em curtos períodos;
  • Escoamento irregular (variável) das águas;
  • Solos rasos;
  • Vegetação esparsa e predominância de xerófilas;
  • Erosão eólica; (viabilizada pela areia seca e solta)
  • Núcleo mais árido circundado por anéis de transição;
  • Baixa densidade demográfica.
Principais Desertos

O desertos se distribuem por todos os continentes do globo (considerando a Europa como parte da Eurásia), principalmente nas áreas mais internas dos continentes onde a continentalidade age como um dos fatores que promovem a desertificação. A áreas mais quentes do globo também são as que concentram desertos, mas estes não são exclusivos das áreas quentes ou dos interiores continentais. Temos o Saara como exemplo de deserto quente e de interior, mas também temos a Patagônia como exemplo de deserto frio e costeiro.

Progressão da seca do mar de AralNavio encalahado no mar seco

Os desertos podem ser criados ou estendidos com predominância de forças naturais (principalmente meteorológicas) ou humanas. A esses gêneros de desertificação denominamos "desertificação climática" e "desertificação ecológica (ou antrópica)". O autor separa fortemente esses gêneros, mas é impossível negar a influência humana no clima desde a revolução industrial (ou até antes) e é impossível ignorar e apoio de forças e características naturais (não humanas) nos processos antrópicos.

Processos antrópicos já mostraram o poder de secar um mar interior e acabar com a vida marinha e a atividade de pesqueira que sustentou, inclusive, grande companhias. O mar de Aral em 2008 foi reduzido a 10% da sua área de 1989, pelo desvio de rios para irrigação.

Temos hoje 33.000.000 km² de desertos e áreas degradadas em processo de desertificação no mundo, destes, 650.000 km² foram adicionados nos últimos 50 anos.

Mapa da Desertificação

Felizmente a desertificação não é um processo irreversível o Saara cresceu nas últimas duas décadas, mas esse crescimento é o resultado de avanços e retrocessos do deserto. Com planejamento e recursos poderia-se reforçar o retrocessos para reduzir o deserto até onde o clima permitir.

Polígono da Secas

Vários são os exemplos de áreas degradadas e desertificadas no Brasil, mas pela área e aridez, nenhuma é mais dramática que a vizinhança do polígono das secas no nordeste. Esta área depende de uma cuidado especial não apenas na manutenção de sua hidrografia, mas também na irrigação, pois o sal do sub-solo pode inviabilizar a atividade agrícola e também dificultar o retorno da vegetação nativa. Mesmo em condições extremas, o semi-árido brasileiro apresenta oásis, conhecidos como brejos, fruto de condições especiais nas proximidades das serras, que sustentam e sustentaram grande número de pessoas, como os seguidores de Antônio Conselheiro. Por outro lado a descida das serras, no sentido do vento, torna-se ainda mais seca pelo efeito de sotavento. Brejos e sotavento mostram que desertos não são necessariamente uniformes, e apodem conter diversos pontos de maior e menor aridez em sua área de ação.

Mudanças Climáticas

Existe um grande debate sobre "para onde vai o clima global", se para um aquecimento ainda maior ou se para o resfriamento. Entretanto, os dados do IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change) são claros, a temperatura aumentou no último século com forte influência de ações antrópicas, comprovadas pela sobreposição de modelos prevendo a temperatura em continentes e mares, com e sem interferência humana. Mesmo sendo difícil prever a evolução do clima, muitos apontam para uma curva de aquecimento que pode ser mais intensa ou mais branda dependendo das decisões tomadas globalmente. Essa teoria é a defendida pelo IPCC e já é perigosa o suficiente para diversas espécies animais e vegetais que terão seu ambiente modificado. O desequilíbrio ambiental e a extinção imediata de algumas espécies como corais aumentará ainda mais o risco de extinção de espécies não diretamente afetadas pela temperatura. Com o aumento da temperatura média também teremos aumento das chuvas torrenciais e de ventos fortes, o que levará milhares a morte em países pobres. Doenças transmitidas por insetos, como a febre amarela e doença de chagas, chegarão além dos trópicos.

Variação da temperatura global

Por outro lado alguns cientistas defendem a idéia de que este aquecimento é apenas o sinal de uma nova era do gelo e que de acordo com a frequência das anteriores esta já deveria ter iniciado. Pessoalmente creio que o desequilíbrio climático pode levar a uma nova era do gelo, mas não estaríamos correndo este risco se não tivéssemos afetado o equilíbrio climático, pois o histórico da temperatura global, registrado no gelo, mostra uma estabilidade única e duradoura nos últimos 10 mil anos.

Linha do tempo da temperatura global

A camada de ozônio é uma importante proteção contra a incidência de altas frequências luminosas conhecidas como raios UV. Essa camada é mais notável na proteção contra ações degenerativas em seres vivos, mas também influi no aumento da temperatura mádia do planeta, pois absorve luz que poderia ser refletida na superfície do planeta e a transformada em calor. Apesar de 1000 vezes mais potente que o gás carbônico, seu efeito na troposfera decai rapidamente é não é uma influencia importante para o efeito estufa.

O aquecimento global tem ocorrido pela intensificação do efeito estufa, que é uma importante ferramenta para equilibrar a temperatura global e manter uma média de temperatura que permita a existência de florestas tropicais e largos oceanos vivos e navegáveis. O problema está na intensidade deste efeito, potencializada pelo aumento da concentração de "gases do efeito estufa", que são, principalmente, o vapor de água, gás carbônico, metano e ozônio.

A influência desses gases no efeito estufa é:

  • vapor d'água 36 a 70%
  • gás carbônico 9 a 26%
  • Metano 4 a 9%
  • Ozônio 3 a 7%

A concentração gás carbônico tem aumentado desde a revolução industrial pelo uso de combustíveis fósseis, como o carvão mineral e o petróleo, trazendo carbono que estava fora do "ciclo de carbono" a milhões de anos. O ciclo de carbono é o caminho fechado que o átomo percorre de sub-produto da respiração de um ser eucarionte ou da combustão de combustível orgânico → para a atmosfera (onde ele age no feito estufa) → absorção por um organismo fotossintetizante → fixação na forma de carboidrato → possível reassimilação por outro ser → e, finalmente, sub-produto da respiração de um ser eucarionte ou da combustão de seu sub-produto, o que reinicia o ciclo. Enquanto não temos a reintrodução de carbono fossilizado, qualquer aumento da concentração de gás carbônico na atmosfera é, provavelmente, temporário, fruto da diminuição da biomassa, que pode ser recuperada pelo crescimento de vegetação destruída (queimadas seriam um bom e frequente exemplo deste quadro). O uso de combustíveis fósseis reintroduz carbono que não tinha espaço no ciclo estabilizado e exige que uma quantidade maior de vegetação para que seja assimilado da atmosfera. O problema esta em dois pontos: no espaço limitado que temos para florestas densas e na derrubada de florestas para necessidades de uma população humana cada vez maior.

O metano, não tão citado quanto o gás carbônico, é 20 a 25 vezes mais potente que o gás carbônico para o efeito estufa. Esse gás é produto natural da decomposição de resíduos orgânicos, mas o aumento de sua concentração na atmosfera está diretamente ligado ao aumento da criação de bovinos.

Opinião

O mundo capitalista vive da produção de externalidades. Não se reconhece que tudo tem um custo, para que os empreendimentos não tenham que pagar por isso. Dos problemas emocionais do trabalhador até a ilha de lixo do pacífico, passando pelos problemas respiratórios de idosos e crianças nos grandes centros. Tudo são externalidades causadas pela produção e uso de bens. Sem o reconhecimento da externalidade não existe o financiamento da sua solução ou estimulo do seu fim. Já ouve a proposta de um imposto por cabeça de gado para reduzir o estimulo a compra e produção de carne bovina, mas não tornou-se lei.

O problema do aquecimento global não será tão impactante para os mais ricos, será sim para pobres e espécies fortemente ligadas ao seu eco-sistema equilibrado. As soluções são viáveis, técnica e economicamente, mas batem de frente com inúmeros interesses capitalistas como a abertura de um novo canal de escoamento de produção no ártico semi-derretido e na necessidade de se produzir e consumir cada vez mais e num ciclo mais rápido para atingir metas de crescimento econômico noticiados como único caminho para o emprego e fim da pobreza. Nem mesmo as estrelas do debate sobre o aquecimento global são isentas. O próprio documentário de Al Gore "Uma Verdade Inconveniente" deixa de lado a questão do metano, talvez porque ele mesmo seja dono de fazendas de gado. Esse ponto é tratado em "Uma verdade Mais que Inconveniente" de Karen Soeters.