Katia Brandão Cavalcanti

Quando afirmamos que entre corpo e corporeidade existem muitas questões, estamos nos apoiando nos estudos de neurocientistas como FranciscoVarela e colaboradores que procuram ampliar o campo de investigação da chamada “mente corpórea”. Esta perspectiva, inspirada na fenomenologia de Merleau-Ponty, reconhece que “a cultura científica ocidental requer que tomemos os nossos corpos simultaneamente como estruturas físicas e como estruturas experienciais vividas – em suma, tanto como externos e como internos, biológicos e fenomenológicos”. Ressalta-se ainda que o eixo fundamental que articula essas duas estruturas corporais é a corporeidade, que por sua vez assume este duplo sentido: “acompanha o corpo como uma estrutura experiencial vivida e também como o contexto ou o meio de mecanismos cognitivos”. Os autores são enfáticos quando afirmam que a corporeidade tomada nesse “duplo sentido” tem estado ausente da ciência cognitiva, quer seja na discussão filosófica quer seja na investigação prática. E mais: “tanto o desenvolvimento da investigação em ciência cognitiva como a relevância desta investigação para as preocupações humanas vividas requerem a tematização explícita deste duplo sentido da corporeidade”.

A grande dificuldade nossa é compreender que só podemos observar um determinado fenômeno se tivermos uma teoria adequada para tal. Esta foi a lição que Heisenberg aprendeu com Einstein: “Observar significa que construímos alguma conexão entre um fenômeno e a nossa concepção do fenômeno”. No caso das relações entre corpo e corporeidade, o grande obstáculo para a pesquisa está na dificuldade em abandonarmos conceitos que nos acompanharam por longo tempo. É muito mais fácil aceitar novos conceitos do que abandonar os antigos. Para aprofundar os estudos da corporeidade com a neurofenomenologia e as demais neurociências, exigindo familiaridade com o princípio de indeterminação, nos deixa num estado tal de perplexidade, podendo até nos imobilizar para a necessária investigação.

Não quero dizer com isto que estou livre dessa perplexidade... Pelo contrário, já são 15 anos de muitas angústias, desde que conclui a minha pesquisa do Pós-Doutorado, em 1994, que tratou dessa temática. Como Einstein, acredito na beleza dos modelos teóricos e das metáforas, além de um “profundo sentimento cósmico religioso”, para encontrar forças para prosseguir nessa busca...