LAZER: TERRITÓRIOS E TERRITORIALIDADES EM QUESTÃO*

Katia Brandão Cavalcanti

Indagar sobre os territórios e as territorialidades no campo epistemológico ou fenomenológico do lazer significa tentar estabelecer relações que estão implicadas na complexa configuração de movimentos que expressam desejos de prazer e envolvem poder para discipliná-los.

Muitos são os percursos que poderemos fazer para entrar no jogo da problemática que o tema enseja. Muitas são as possibilidades de questões que podem ser formuladas para impulsionar um processo de busca. Optamos pela dialogicidade entre os fenômenos território e territorialidade do lazer, na qual a materialidade do território revela a emocionalidade da territorialidade. Assim, podemos perguntar: como surge o território do lazer na vida humana? Como atuam as diversas territorialidades para a territorialização do lazer na contemporaneidade do século XXI?

A história sociológica do lazer está repleta de teorias sobre o surgimento de um tipo de território temporal, no qual a sua ocupação é considerada lazer. Importante destacar que em 1957, em Annecy, França, a Unesco promoveu um encontro internacional para discutir o “Projeto de estudo comparativo sobre a evolução das formas e das necessidades de lazer em diversos países”. Naquela época, buscava-se uma definição de lazer que permitisse o diálogo entre as nações. Sob a coordenação do sociólogo francês Joffre Dumazedier, foi então adotada uma definição de lazer que se tornou mundialmente conhecida:

Lazer é um conjunto de ocupações às quais o indivíduo pode entregar-se de livre vontade, seja para repousar, seja para divertir-se, recrear-se e entreter-se, ou ainda, para desenvolver sua informação ou formação desinteressada, sua participação social voluntária ou sua livre capacidade criadora após livrar-se ou desembaraçar-se das obrigações profissionais, familiares e sociais (Dumazedier, 1973, p. 34). 

Tratava-se de uma definição operacional, provisória, reconhecida como instrumento de trabalho sociológico para a realização do estudo comparativo sobre o lazer em vários países, objeto de discussão daquele encontro internacional. Esta definição chegou ao Brasil em 1973 com o livro Lazer e Cultura Popular, que reúne vários artigos do autor publicados entre 1955 e 1959. Em 1979, com a publicação da Sociologia Empirica do Lazer, ao discutir as definições existentes de lazer, Joffre Dumazedier ressalta que é mais válido e mais operacional considerar o lazer “conteúdo do tempo orientado para a realização da pessoa como fim último” (Dumazedier, 1979, p. 91). Destaca ainda quatro propriedades que caracterizam o lazer como tal: liberação; gratuidade; prazer e individualidade.

Esta trilha sociológica foi seguida por grande parte dos estudiosos do lazer no Brasil e no mundo. As ressonâncias dessa concepção na educação e na animação sociocultural parecem manter limitadas as ações às atividades e aos conteúdos culturais para a ocupação desse tempo disponível. A discussão do lazer dentro desse paradigma sociológico não abre perspectivas para as questões de construção, desconstrução ou resconstrução dos territórios e das territorialidades do lazer como projetos de subjetividade e de subjetivações (Guattari, 1990).

Os estudos da corporeidade à luz da teoria quântica e da transdisciplinaridade nos conduziram à autopoiese de Maturana e Varela, abrindo novas possibilidades de configurações para o estudo do lúdico e do lazer. Mais recentemente, o encontro com a Psicanálise tem permitido avançar em zonas nebulosas do inconsciente, procurando compreender a auto-organização pulsional do ser humano em relação ao corpo e à corporeidade.

Ao indagarmos sobre a origem do território do lazer na vida do ser humano, tomamos como eixo norteador a noção de ecopoiese de modo amplo e diferenciado que nos permite pensar em teias, redes, rizomas. Uma Ecologia Planetária nos faz transcender os limites da Terra para refletir sobre a origem do universo.

Jogar ou não jogar dados? Eis a questão.  Ao recusar o princípio da incerteza na sua teoria da relatividade para tentar descrever os momentos iniciais do universo, Einstein assim se expressou: Deus não joga dados! Entretanto, na atualidade, o físico inglês Stephen Hawking afirma que “Tudo indica que Deus é um grande jogador. O Universo poder ser imaginado como um gigantesco cassino, com dados sendo lançados ou roletas sendo giradas a todo momento” (Hawking, 2001, p. 79). A explicação cientifica é que quando o universo é grande, há uma enorme quantidade de lançamentos de dados e a média pode ser prevista. É por este razão que as leis clássicas funcionam para os sistemas grandes. Para os sistemas pequenos o princípio de incerteza é muito grande e a média dos resultados não pode ser prevista. Para a vida humana, a aleatoriedade não pode ser aplicada.

Prosseguindo com a metáfora do jogo, destaca o físico que o universo continua lançando seus dados de modo aleatório, devendo ter várias histórias possíveis cada uma com sua probabilidade. Embora isto pareça ficção científica, já é reconhecido como fato científico. Sobre a origem do universo, afirma-se que deve ter ocorrido durante uma grande explosão e que se encontra em plena expansão.

Sobre a origem da vida humana, podemos afirmar que também surge de uma grande explosão de energia e que continua se expandindo infinitamente. Prosseguindo com o eixo ecopoiético que orienta a nossa caminhada ao encontro dos territórios e das territorialidades do lazer, nos aproximamos de uma Ecologia Fusional como fundamento conceitual para compreender o nascimento do primeiro território lúdico vivenciado pelo ser humano no ambiente acolhedor do útero materno. O novo ser que inicia a sua trajetória humana vivencia um território superprotegido de intimidade corporal profunda com a mãe, alimentando-se da mais intensa e amorosa sensorialidade. Os estudos de Gerda Verden-Zöller, Ximena Dávila e Humberto Maturana têm se dedicado a acompanhar cuidadosamente as configurações lúdicas que emergem na relação mãe e filho nessa fase como nas seguintes. Para o neurocientista Miguel Nicolelis, do Instituto Internacional de Neurociências de Natal, deveríamos ter um olhar mais cuidadoso para a Educação Intrauterina, quando as mães e os familiares deveriam brincar amorosamente com o pequeno ser que se prepara para o convívio corporal com o mundo exterior.

O nascimento da criança marca o início do processo de diferenciação da fusionalidade na segunda forma de experienciação do território lúdico. Com a perda da plenitude fusional do interior do útero, a criança procura compensar com outras sensações fusionais que envolvem o contato de todo o seu corpo com o corpo da mãe. Este espaço intermediário entre a mãe e o filho foi denominado por Winnicott de “espaço potencial”, apropriado aos registros da ludicidade nos primeiros meses de vida da criança. Este território lúdico vai se ampliando para além do corpo da mãe à medida que “objetos transicionais” vão se introduzindo neste campo fusional entre mãe e filho. Os fenômenos lúdicos que ocorrem nessa fase e nesse território fusional foram denominados por Winnicott de “fenômenos transicionais”.

No processo de constituição desse território lúdico primário e estruturante da vida afetiva do ser humano, é de fundamental importância as funções de sustentabilidade emocional e de manejabilidade sensorial geralmente exercidas pelas figuras paterna e materna respectivamente, visando criar um campo de suficiente confiabilidade para as vivências espontâneas do lúdico pela criança.

Com o aparecimento da linguagem surgem também as estruturas simbólicas que vão dando um novo colorido às experiencialidades da criança nesse território lúdico que continua se expandindo e se diversificando ao longo da vida. A aproximação com uma Ecologia Simbólica nos propiciará compreender a multiplicidade de sentidos que são criados para os projetos de subjetividade e nos processos de subjetivação.

Na companhia de uma Ecologia Emocional buscamos elementos conceituais para dialogar sobre o movimento das territorialidades que nos conduzem à territorialização do lúdico e do lazer na vida humana. Que significa territorializar o lúdico e o lazer? Utilizamos como metáfora um “arquipélago de conteúdos culturais do lazer” no qual suas ilhas representam territórios culturais institucionalizados e as águas oceânicas a sua volta representam a diversidade das territorialidades pulsionais desejantes de pertencimento lúdico.

A navegação nesse oceano de territorialidades do imaginário lúdico autocriador gera muitas expectativas com relação aos territórios culturais politicamente estabelecidos. Ao aportar nessas ilhas de cultura, algumas formas de acoplamento estrutural são possíveis num continuum entre a repressão/normatização e a expressão/singularização.

Tomando a direção da expressão da subjetividade humana como singularidade vamos nos apoiar numa Ecologia Ludopoiética para refletir sobre os objetos e fenômenos ludopoiéticos na relação território e territorialidade do lazer. A identificação e reconhecimento do fenômeno lúdico como um sistema autopoiético nos conduziu à formulação de propriedades específicas implicadas na emergência de sua configuração como tal.

Examinamos as principais teorias sobre o jogo e o lúdico: Schiller, Huizinga, Duvignaud, Caillois, Fink, Csikszentmihalyi, Maturana e Verden-Zöller. A partir de um estudo comparativo foi possível reconhecer cinco propriedades como estruturantes do fenômeno ludopoiético: autotelia, autoterritorialidade, autoconectividade, autovalia e autofruição. Autotelia refere-se à intencionalidade, à finalidade da busca para vivenciar o lúdico. Autoterritorialidade diz respeito ao processo de conversão espaço-temporal no cotidiano para a vivência do lúdico. Autoconectividade indica as articulações ecossistêmicas que permitem as expressões singulares do desejo lúdico. Autovalia configura o sentido ontológico e existencial do lúdico para o ser humano. Autofruição revela o estado emocional de fluxo como experiencialidade máxima de realização humana que a vivência do lúdico pode propiciar.

Metaforizado como o desabrochar de uma flor de cinco pétalas, encontramos no núcleo do fenômeno ludopoiético, correspondendo ao seu aparelho reprodutor, um fenômeno específico que reconhecemos como arquetipoiese, ou seja, a fonte geradora dos arquétipos ludopoiéticos. Pistilos e estames representam respectivamente a energia feminina de anima com a imaginação e a energia masculina de animus com a ousadia.

A ludopoiese é uma vivência ontológica primordial e estruturante do território autopoiético do lazer. Como a aranha tece a sua teia, esses territórios existenciais do lazer são construídos com elementos pulsionais das experiencialidades ludopoiéticas significativas que foram corporalizados ao longo da vida. A matéria-prima utilizada para esta construção é autoproduzida pelo próprio Ser com a singularidade de sua própria vida. Assim, as estruturas fusionais, simbólicas, emocionais e ludopoiéticas que permanecem pulsantes no campo da corporeidade, quando em contato com territórios culturais do cotidiano, podem realizar um acoplamento estrutural e definir uma configuração territorial singular ou não para a vivência do lazer.

Prosseguindo com a nossa navegação no oceano das territorialidades ludopoiéticas, destacamos o encontro com a diversidade dos objetos ludopoiéticos que se revelam nos territórios culturais formais ou informais da vida cotidiana ou da extraordinariedade do lazer. O modo como se estabelece as relações simbólicas com esses objetos define a autonomia que se tem para autoproduzir o território existencial adequado à corporalização da ludopoiese. Não havendo condições para exercer esta autonomia, a tendência é permitir que a pressão cultural crie as condições para a emergência do antilazer.

Para concluir nossa caminhada reflexiva pelos territórios e territorialidades do lazer, trazemos novamente o físico inglês Stephen Hawking para dizer juntamente com ele que:

“É melhor viajar com esperança do que chegar. Nossa busca de descobertas alimenta nossa criatividade em todos os campos, não apenas na ciência. Se chegássemos ao fim da linha, o espírito humano definharia e morreria. Mas não creio que um dia sossegaremos: aumentaremos em complexidade, se não em profundidade, e seremos sempre o centro de um horizonte de possibilidades em expansão”.

Assim, da Ecologia Ludopoiética prosseguiremos para uma Ecologia da Humanescência!

Referências

CAILLOIS, Roger. Los juegos y los hombres: la máscara y el vértigo. Trad. Jorge Ferreiro Santana. México: Fondo de Cultura Económica, 1994. 

CSIKSZENTMIHALYI, Mihaly. A psicologia da felicidade. São Paulo: Saraiva, 1992.

DAMÁSIO, António. Em busca de Espinosa: prazer e dor na ciência dos sentimentos. Adaptação para o português do Brasil: Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

DUMAZEDIER, Joffre. Lazer e cultura popular. Trad. Maria de Lourdes Santos Machado. São Paulo: Perspectiva, 1973.

_______ . Sociologia empírica do lazer. Trad. Silvia Mazza e J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva/SESC, 1979.

DUVIGNAUD, Jean. El juego del juego. Trad. Jorge Ferreiro Santana. México: Fondo de la Cultura Económica, 1980

FINK, Eugen. Le jeu comme symbole du monde. Paris: Éditions de Minuit, 1966

GUATTARI, Félix. As três ecologias. Trad. Maria Cristina F. Bittencourt. Campinas: Papirus, 1990.

HUIZINGA, Johan. Homo ludens. O jogo como elemento da cultura. Trad. João Paulo Monteiro. São Paulo: Perspectiva, 1971

HAWKING, Stephen. O universo numa casa de noz. Trad: Ivo Korytowski. São Paulo: Arx, 2001.

MATURANA, Humberto e VERDEN-ZÖLLER, Gerda. Amar e brincar. Fundamentos esquecidos do humano. Trad. Humberto Mariotti e Lia Diskin. São Paulo: Palas Athena, 2004.

MATURANA, Humberto; VARELA, Francisco. De máquinas e seres vivos. Autopoiese: A organização do vivo. Trad. Juan Acuña Llorens. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.

SCHILLER, Friedrich. A educação estética do homem, numa série de cartas. 3ª ed. Trad. Roberto Schwartz, Márcio Suzuki. São Paulo: Iluminuras, 1995.

* Palestra de abertura no XI Seminário Lazer em Debate, Natal, 2010