16/06/2011 - 17:47 | João Paulo Charleaux | Santiago

Mais de cem mil estudantes secundaristas e universitários das principais regiões do Chile participaram nesta quinta-feira (16/06) de uma onda de marchas e protestos que já é considerada uma das maiores já realizadas desde a volta da democracia ao país, em 1990.

Em regiões como Valparaíso, no litoral central do Chile, 90% das escolas e universidades estão com suas atividades paralisadas. Sindicatos e federações de professores uniram-se aos estudantes e engrossaram as marchas que, só na capital Santiago, reuniram, nas primeiras horas da tarde, mais de 50 mil pessoas. A multidão presente ocupava mais de 20 quadras de extensão.

A onda de protestos está sendo considerada um dos mais duros testes para o presidente chileno, Sebastián Piñera que, no ano passado, deu início ao primeiro governo de direita eleito democraticamente no país em 50 anos. O maior empresário da história do Chile e um dos homens mais ricos da América Latina é acusado pelas organizações de estudantes de privatizar a educação e reduzir o papel do Estado no setor. O governo se defende acusando os estudantes de estar a serviço de interesses partidários menores.

O Opera Mundi conversou por telefone com a principal líder do movimento, Camila Vallejos, presidente da Fech (Federação dos Estudantes da Universidade do Chile), minutos antes do início da marcha pelo centro de Santiago, que terminaria poucas horas depois com dezenas de estudantes presos em violentos choques com a polícia.

Segundo Camila, os estudantes não desistirão da mobilização enquanto o governo não se comprometer a alterar profundamente o modelo educacional chileno. Parte desta mudança só pode ocorrer, entretanto, com uma reforma constitucional, o que deve deixar Piñera entre a ameaça de uma longa e desgastante manifestação estudantil ou uma complexa engenharia parlamentar, que leve o tema ao Congresso.

"O Estado aporta hoje apenas 20% da receita das principais universidades chilenas. Em alguns casos, este percentual não passa de 5%. A Constituição determina que as famílias dos estudantes devem arcar com os custos de estudo de seus filhos. Isso impossibilita estudantes menos favorecidos de ingressar nas universidades públicas e, ao mesmo tempo, deixa sem recursos um setor que se dedica a fazer pesquisas. Para que estas possam acontecer, é necessário investimento e política de Estado", disse Camila. "Este é um círculo vicioso que só será rompido com muito protesto e permanente mobilização social".

Ao contrário do que ocorre no Brasil, onde as universidades públicas são mantidas com impostos cobrados sobre produtos consumidos por todos os brasileiros, no Chile, os estudantes pagam mensalidades nas universidades públicas e, se não podem pagar, carregam por décadas a dívida de um financiamento estudantil.

A educação privada é parcamente regulada pelo Estado, acusam os estudantes, que veem uma "voracidade mercantilista capaz de transformar a educação em mercadoria". Na marcha de hoje, em Santiago, grande parte das faixas e cartazes denunciavam a privatização da educação no país.

A pauta completa de reivindicações dos estudantes chilenos pode ser lida aqui.

Quebra-quebra

Apesar da tônica pacífica da manifestação, violentos choques foram registrados nos arredores do Palacio de la Moneda, sede da presidência do Chile. Enormes caminhões do GOPE (Grupo de Operações Especiais) dos Carabineiros, a polícia chilena, dispararam potentes jatos de água contra colunas de manifestantes que tentavam chegar à sede no Ministério da Educação.


Grupos de encapuzados responderam jogando tinta, paus e pedras contra os policiais que se protegiam atrás de escudos. A imprensa local registrou saques a lojas do centro da capital e depredação de semáforos, postes de iluminação, pontos de ônibus e outdoors.

Ontem, a cavalaria dos Carabineiros investiu contra estudantes que protestavam no Parque Florestal, região central da capital. A revista semanal The Clinic, a mais lida do país, publicou uma série de fotos mostrando como um policial a cavalo investiu contra uma estudante até que ela caísse no chão.

A mesma sequência é mostrada aqui, em vídeo, pelo jornal chileno La Tercera.

Horas antes do início da marcha, o vice-presidente Rodrigo Hinzpeter já responsabilizava os estudantes por qualquer distúrbio que fosse registrado ao longo do dia no centro. De forma clara, Hinzpeter disse que os estudantes já haviam dado mostras de que eram "pessoas interessadas em atentar contra a ordem pública".

Vários políticos chilenos de direita passaram a semana rebatendo a tese de que a mobilização dos estudantes é pacífica. Para eles, a simples ocupação de uma escola já seria um ato de violência, passível de ser reprimido pela polícia.

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Os estudantes acusam o governo de criminalizar os movimentos sociais e reduzir o espaço de interlocução com a sociedade civil. “Quando colocado contra a parede, este governo tem recorrido ao uso da truculência para reprimir as demandas legítimas da população”, disse Camila ao Opera Mundi.

"Há uma campanha permanente de desprestígio dos estudantes organizados e isso passa, em grande medida, por um apoio massivo dos meios de comunicação. Nossos únicos canais são algumas rádios e as redes sociais. Do contrário, os grandes meios estão interessados apenas em defender os interesses dos grandes empresários e do governo, mas a população percebe que a reivindicação dos estudantes é legítima. Isso ficará cada vez mais claro, queiram eles, ou não", disse Camila.