“Buscando cidadania hoje: uma escuta a vozes jovens”
Eunice Macedo, MA
IPFP – Instituto Paulo Freire de Portugal / FPCEUP – Centro de Investigação e Intervenção Educativas)
eunicemacedo_58@hotmail.com
Bolseira da FCT. ref: SFRH / BD / 36172 / 2007
Palavras-chave: Cidadania; Voz; Educação.
Resumo: Este trabalho discute modos de construção da(s) cidadania(s) de jovens do 12º ano, do curso Científico Humanístico, em Portugal, em escolas e comunidades em relativa desvantagem, na intersecção de classe, género, regionalidade e desempenho escolar… Escutam-se as pessoas jovens acerca de questões específicas e amplas que afectam as suas vidas. Teoriza-se cidadania e voz. Uma cidania jovem configurada em valores de interdependência e solidariedade com o mundo, e que emerge do cruzamento entre voz e igualdade de condição. Este conceito de voz, significado como expressão, legitimação e acção, contém: i) a possibilidade de expressar-se e ser ouvido/a, como direito; ii) a possibilidade da sua voz ser reconhecida como legítima, o que supõe reconhecer significado às experiências, histórias e visões de mundo das pessoas jovens; e iii) a possibilidade de fazer diferença, pela agilização das suas propostas quando válidas. Por sua vez, a igualdade de condição como pré-requisito para a emersão de voz e cidadania em educação, é suportada pelo respeito e reconhecimento cultural, pelo acesso a recursos, cuidados e solidariedades, pelo poder de influência na tomada de decisão e pela escolha informada de trabalho e aprendizagens ponteciadores de satisfação pessoal, num enquadramento colectivo. Argumenta-se que a falta de escuta das vozes jovens: i) constitui um lacuna da democracia pois limita as suas possibilidades de cidadania – alimentando um pensamento reprodutor e não transgressivo da ordem social, e ii) desperdiça contributos cruciais para a participação das pessoas jovens na construção/transformação dos seus modos de vida e para a melhoria da escola. O trabalho de consulta jovem foi feito a partir de Discussão Focalizada em Grupo e entrevistas individuais.
“Desenvolvimento solidário pela cidadania ambiental: na comunidade indígena areal-Amazônia”
Cláudia do Socorro Gomes da Silva
Universidade Federal do Pará
claudias@ufpa.br
Ana Lúcia Bentes Dias
Universidade Federal do Pará
bentesana@ig.com.br
Palavras-chave: educação, cidadania ambiental, identidade cultural e desenvolvimento solidário
Resumo
Consideramos fundamental a compreensão de dinâmicas culturais que apresentam pactos com a natureza, baseados na solidariedade e no viver cooperativo. Sendo assim, este manuscrito objetiva apresentar resultados das experiências com uma comunidade formada por indígenas, do município de Santa Maria do Pará, da região Amazônica brasileira. O trabalho baseia-se, sobretudo, no conceito de cidadania ambiental como um conjunto de condições que nos permitem a defesa e luta para a continuidade da vida, em suas múltiplas dimensões: biológica, física, social, cultural, ambiental, etc. O diagnóstico realizado, na aldeia Areal, demonstra que a comunidade luta com acentuada motivação pela permanência e continuidade da sua identidade indígena e são exemplos de resistência histórica. Hoje reivindicam legitimidade e legalidade de direitos, junto à sociedade e aos órgãos oficiais, em especial destacamos: a demarcação de território (reserva ambiental) e a escola diferenciada e bilingue (língua portuguesa e língua tupi-tenetehara). Por conseguinte, identificamos dois aspectos primordiais, por um lado, os saberes culturais próprios da comunidade contribuem para a preservação e conservação não somente da sobrevivência cultural, mas também física dos mesmos. Por outro lado, o desenvolvimento autónomo e responsável contribui para a sustentabilidade ecológica, sendo realizado por eles através de atividades como: a agricultura familiar, a pesca artesanal, a agroecologia, o extrativismo vegetal, etc. Essas práticas corroboram a nossa tese da posição da comunidade como salvaguardas de “pequenas” faixas da natureza.
“Escolas irmãs: Diálogo Transmarino”
Amélia Rosa Macedo
Agrupamento de Escolas Adriano Correia de Oliveira, Avintes - Portugal
Professora Coordenadora do Centro de Recursos/Biblioteca Escolar do Agrupamento
arosamacedo@gmail.com
Palavras-chave: ler, práticas dialógicas, cidadania planetária, multiculturalidade referencial, «voz», projecto, acção, intervenção, impacto, resultados.
O projecto «Escolas Irmãs: diálogo transmarino» emerge da oportunidade de parceiros educativos, que partilham o mundo das globalizações comunicando na mesma e tão diferente língua, o lêem e o apreendem de forma diversa, poderem recorrer a práticas dialógicas e, de um ponto de vista reflexivo e crítico, irem reconstruindo e materializando facetas de uma «cidadania planetária».
Quando, à maneira de Paulo Freire «ninguém ensina ninguém, todos aprendem com todos», promovemos um «diálogo transmarino», em termos de «escolas irmãs», propiciando o encontro entre alunos e alunas de escolas públicas com referências multiculturais diferentes, o que podemos esperar? As suas «vozes»? E depois, o que fazemos e o que faremos com elas? Projectos? Acção? Intervenção? Com que impacto? Com que resultados?
“Programa Educação para a Cidadania Planetária: a experiência na rede municipal de Osasco/Brasil”
Marilisa Gasparini
Supervisora de Ensino da Secretaria de Educação do Município de Osasco
marigasparini@terra.com.br
Palavras-chave: Cidadania Planetária; Osasco; EMEF Manoel Barbosa; Escola Cidadã; Currículo; participação.
Esta apresentação está organizada em cinco partes: conceitualização, contextualização, processo de desenvolvimento do projeto, processo avaliativo e alguns resultados.
O Projeto Educação para a Cidadania Planetária (PECP) tem por objetivo construir novos referenciais prático-teóricos de uma educação para a cidadania planetária, respeitando as diferenças e as diversidades constitutivas de todo grupo humano, partindo sempre da realidade local por meio de um processo dialógico e democrático no qual todos têm direito a voz e as decisões são sempre tomadas entre os participantes após um processo de problematização que se estende de acordo com o ritmo e as necessidades do próprio grupo.
Neste breve relato procuraremos apresentar um pouco da experiência do PECP do município de Osasco, Grande São Paulo, em desenvolvimento na Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Professor Manoel Barbosa de Souza. Trata-se de uma parceria entre o Instituto Paulo Freire e a Secretaria de Educação do município, como parte do Programa de Educação Cidadã (PEC-Osasco). Essa escola está localizada em uma região periférica de Osasco, com inúmeras dificuldades estruturais, econômicas e culturais, no bairro Jardim Bonança. O Bairro fica na região norte do município. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2002, o bairro apresenta um dos piores índices de pobreza, de alfabetização e de escolaridade do município.
O PECP/Osasco teve início em uma reunião no dia 09 de setembro de 2009 com as gestoras de todas as unidades educacionais da rede municipal para a apresentação da proposta, discussão dos critérios a serem adotados para a escolha da escola e levantamento do interesse das escolas presentes em participar do projeto.
As escolas interessadas se inscreveram e após algumas visitas e reuniões, ocorreu o anúncio da unidade educacional escolhida e o início da organização dos trabalhos na EMEF Manoel Barbosa, em diálogo com o Conselho de Gestão Compartilhada.
De novembro de 2009 a novembro de 2010, o PECP realizou, na Escola Manoel Barbosa, 30 encontros semanais de formação teórico-prática com todos os segmentos escolares (professores, funcionárias, alunos, gestores e comunidade), discutindo temas de interesse local e relevância social: Direitos Humanos, Solidariedade, Escola Cidadã, Leitura do Mundo, Universalização da Cultura, Preservação do Meio Ambiente, Uso Consciente da Água, Ética e Cidadania, entre outros. Além de desenvolver atividades autogestionadas e de interações na Rede Social.
O PECP realizou diferentes ações de Leitura do Mundo. Dentre elas, uma saída a campo para pesquisar a realidade local, em maio de 2010.
Em fevereiro de 2010, o PECP/Brasil organizou o I Encontro Internacional do PECP em Osasco e a visita de parceiros de Portugal e da Itália à EMEF Prof. Manoel Barbosa para conhecer a unidade e iniciar o processo de intercâmbio.
No mês de maio de 2010, a escola recebeu a visita da delegação do Canadá e, no mês de junho deste mesmo ano, foi realizado, em Portugal, o II Encontro Internacional do PECP.
De março a agosto de 2010, o PECP-Brasil contou com a participação de duas intercambistas de Taiwan nos encontros na EMEF Prof. Manoel Barbosa, o que permitiu aos participantes conhecer e dialogar sobre o sistema educacional de Taiwan e compartilhar saberes e aprendizagens com as jovens pesquisadoras daquele país.
Atualmente, a escola está iniciando um trabalho de intercâmbio entre alunos com o Centro de Recursos/Biblioteca de Avintes/Portugal para tratar da diversidade cultural e cidadania.
A Escola Manoel Barbosa participa também do Projeto Escola Cidadã de Osasco (PEC-Osasco), com assessoria do IPF, no contexto do qual diversos segmentos escolares são formados continuadamente sobre gestão compartilhada e democrática da escola, sobre a elaboração de seu projeto eco-político-pedagógico, sobre a participação das crianças nesse projeto, bem como no processo de reorientação curricular que acontece em toda a municipalidade. O PECP procura dialogar com todas estas experiências, fazendo com elas interfaces e buscando elaborar uma proposta curricular que, efetivamente, contribua para o exercício da cidadania planetária. Este currículo da escola, construído nesta projeto pesquisa e formação, já tem sido discutido com familiares e professores da escola e assim continuará acontecendo, de forma a garantir que o mesmo seja conhecido e receba a contribuição de toda a comunidade da EMEF Professor Manoel Barbosa. Desta forma, todos esperarmos e buscamos, sem espera, consolidar um novo currículo desta escola, que servirá de referência a outras unidades educacionais do Brasil e de outros países.
Por sua vez, o processo avaliativo desenvolvido no PECP/Osasco/Brasil também é processual, dialógico e formativo. Com a participação de todos os envolvidos por meio de leituras, análises, problematizações, críticas e sugestões, busca-se contribuir com a construção de um currículo que transforme pessoas em cidadãs comprometidas com uma vida melhor para o bairro, a cidade, o pais e o planeta movidas pelo espírito social, científico e solidário, sem perder de vista seu caráter amoroso entre as pessoas e os povos.
Alguns resultados concretos, que revelam mudanças de atitudes a partir deste projeto, já podem ser observados, principalmente, com base nos depoimentos registrados por pessoas da comunidade escolar:
“O PECP me fez perceber como eu mudei como pessoa, como ser humano. Não estou falando só do papel da bala ou do palito do sorvete que temos que jogar no lixo... O PECP vai além disso: me ensinou a ouvir e a ser ouvida. Participo das reuniões todas as sextas-feiras na EMEF Manoel Barbosa e estou muito feliz com isso.” (Cláudia Aleluia – Mãe)
“Para mim está sendo muito importante participar do programa porque eu aprendo coisas novas, conheço pessoas novas, até mesmo de outros países. Na Leitura do Mundo eu pude aprender um pouco mais do bairro, do que as pessoas da comunidade pensam sobre a escola, se conhecem sobre cidadania... Um exemplo de algo que eu vi e gostaria de mudar é o lixão. Uma criança sozinha não consegue mudar aquilo, mas várias crianças juntas conseguem, com o apoio da escola. Ele pode diminuir se a gente pode fazer, coletivamente, as coisas certas. Isso não depende só das crianças nem só da escola. Depende da comunidade, do bairro e da cidade.” (Ana Júlia – Educanda)
“Eu entrei no PECP para saber sobre o assunto e porque sabia que aprenderia a ter a harmonia de um cidadão. Bateu uma luz forte me dizendo que se ficasse eu seria uma cidadã melhor. E se eu me tornei uma cidadã melhor, vocês de fora também serão cidadãs ou cidadãos melhores, que não destroem a natureza, não estragam a comida e não poluem o mundo. Hoje eu quero agradecer a todos por essa oportunidade e dizer que a cidadania não é só ser cidadão... É ser livre, humano e ter coração.” (Jaíne da Silva Lisboa – Educanda)
“O PECP é uma construção em grupo que tem apresentado para os funcionários, educadores e educandos novas maneiras de ver o mundo. Tem nos mostrado de que forma podemos contribuir para uma Cidadania Planetária. (...) Para que o homem possa voltar a se relacionar harmoniosamente com o ambiente, é importante que as pessoas tenham algumas noções básicas sobre os ecossistemas e sua importância, ou seja, aprendam como os seres vivos se integram com o ambiente, passem a considerar cada ser um componente importante no equilíbrio da natureza e saibam avaliar as conseqüências que as ações indiscriminadas da espécie humana podem causar ao meio ambiente.” (Soraya Silva Santos – Funcionária, e Viviane Gomes Elias - Professora)





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Desenvolvimento solidário pela cidadania ambiental: na comunidade indígena areal-Amazônia
Desenvolvimento solidário pela cidadania ambiental: na comunidade indígena areal-Amazônia
HILDA (funcionária da EMEF Manoel Barbosa):
De que forma o modo de vida sustentável da comunidade indígena Areal-Amazonia pode ser referencia pra outras culturas? Que ações seriam necessárias para isso? Em primeiro lugar, no Brasil, desde o século XVI os indígenas ficaram expostos ao processo colonização e susceptíveis às doenças, às “guerras”, à aculturação, à escravidão, mesmo diante de tantas adversidades conseguiram "resistir" não somente culturalmente e fisicamente. No início da colonização eram aproximadamente dois milhões, mas hoje são estimados em 350 mil índios, dos quais 210 mil estão na região Amazônica.
Os resistentes conseguiram e conseguem influenciar de forma não hegemônica a viscosidade da cultura Amazônica através dos mitos, crenças, língua, encantados, artesanato, culinária, medicina alternativa, danças, canções, e outras. Tudo isso é exemplo de resistência, de luta, de busca de cidadania. O segundo ponto é o cuidado e recolhimento do valor dos seres humanos e dos bens naturais (recursos hídricos, plantas, animais, etc.), que recusa uma visão cartesiana, utilitarista e antropocêntrica em que o homem é considerado senhor e dominador da natureza. A ligação com a Terra é um ponto forte, pois eles sentem-se unidos a ela, ou melhor, parte dela, comum na cultura indígena. Há o reconhecimento de que a Terra não somente nos dá a vida, mas também acolhe-os na "morte", os antepassados estão e são a própria Terra, atos destrutivos e aniquiladores contra a Terra e seus filhos e filhas é uma espécie de homícios e suicídio contra os outros seres e contra nós mesmos, este sentido de pertencimento ao planeta, nossa casa comum (oikos) é a base da cidadania planetária (Gadotti, 2000). Hilda, pensemos juntas em ações que poderiam ser exemplos para nós a partir das experiências de comunidades indígenas?
1. Um “pacto” com a natureza que conserve ao máximo os bens naturais, como a agroecologia, a pesca artesanal, o extrativismo vegetal, etc. Nós, por exemplo, poderíamos ter hortas e pomares com árvores frutíferas em nossas casas, escolas, parques, comunidade, no espírito da "cidade educadora". 2. A garantia das “necessidades” mínimas necessárias à sobrevivência e não o "desejo" consumistas que impactam a natureza, a partir de um modelo imposto pelo mercado, pelo consumismo. 3. A cooperação solidária, em que o trabalho de alguns são partilhados entre todos e todas, crianças, idosos, etc. Os valores de solidariedade, cooperação, bondade, partilha, comunhão e outros são fundamentais na formação da cidadania. E por fim, o amor, o cuidado, o respeito... à vida.
Cláudia Gomes.
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