30 de setembro de 2009

um dia de rara beleza

De muitas aprendizagens

De conhecermos pessoas novas

Que já conhecíamos há tanto tempo

Sem nunca termos visto de perto.

Dia de convivermos com simplicidade

De dialogarmos diálogos profundos

De compartilharmos tristezas e alegrias

Que foram sempre nossas

 

Fomos ao Buraco do Sapo

Um lugar inesquecível

Que não deveria existir

Tamanha a miséria, a pobreza

Tamanho o sofrimento

O desalento

A quase total falta de perspectivas:

 

Subindo a rua

Saia do asfalto e vire à esquerda

Encontrará o início de um caminho

Que só vai terminar no pé do cemitério

Quando nasce o morro

De onde se vê as obras da nova empresa

Que invadirá o antigo campo de futebol

E que entupiu o córrego que evitava as enchentes

Hoje tão frequentes

No lado de cá

 

Uma escadaria de cimento disforme

Com pedras, com alguns buracos

Que dificulta a mobilidade segura

De qualquer mortal

 

Siga em frente, sempre descendo

Curva à esquerda, à direita.

Barracos de todos os lados

à direita, à esquerda, acima e abaixo.

 

O caminho vai ficando afunilado

Da mesma forma que as oportunidades

Dos que ali um dia chegaram

Buscando abrigo... refúgio...

Tentando driblar a sorte

E enganar a falta de casa, de teto e de lar

A falta de educação, de emprego, de quase tudo...

Equilibre-se pelas passagens improvisadas

Que enchem de lama os pés dos moradores

Que ficam marcados como os habitantes de lá

Pois vão deixando suas pegadas nas calçadas

Da cidade limpa

 

Cumprimente algumas crianças descalças

Que saem do caminho para você passar

E que ficam imóveis esperando para ver o que acontece

Até que você pergunte os seus nomes, as suas idades

E do que gostam de brincar

 

Meninas de sete, oito, nove e dez anos

Algumas que estudam

Outras da mesma idade que não estão na escola

Além de alguns meninos do mesmo tamanho

Correndo e brincando também descalços

Alegres como outros meninos bem vestidos

Daquela e de tantas outras cidades do nosso planeta

 

Ao reconhecerem a diretora da escola

Visitando o buraco do sapo

Nome do lugar onde vivem

Falam festivos e orgulhosos

 

  • “Diretora... eu moro lá embaixo!

  • No fim do barranco!

  • Lá depois da curva...”

 

E saem correndo com imensa energia

Com pedaços de madeira nas mãos

Como se fossem espadas guerreiras

Com as quais poderão enfrentar e vencer

A dura batalha da vida

E a herança de miséria que receberam

Da sociedade planetária

Da qual todos fazemos parte

 

E no fundo mais fundo do buraco

Mergulhada na desesperança

No desejo insustentável das drogas

De frente para a vegetação afogada em lama

Quase nem mais sentindo

O mau cheiro do lugar

Ali vivem famílias inteiras

Trancadas em pleno dia em seus lares

Protegendo-se do frio e dos visitantes

Como aquela família que pudemos conhecer

Feita de homem, mulher e cinco crianças

Uma mais pequena que a outra

Sem nada entender

Sem nada esperar

Sem mais acreditar que aquela situação deplorável

Que nem sabem definir

Um dia poderá mudar...

 

Mas nós brigamos com a desesperança

E nos indignamos diante da injustiça

Sonhadores e educadores/as que somos

Que nunca deixam de esperançar

Mesmo diante do cenário do Buraco do Sapo

Onde ratos invadem os quintais

E se misturam às pessoas

Imersas na dor de uma vida sem qualidade de vida

E sem vida de qualidade...

 

Até por isso seguimos trabalhando

E plantando nesses caminhos sementes de mudança

Que colhemos nos quintais da história

Que infelizmente se repete

Mas que felizmente também nos prova

Que mudar é possível

Que um outro mundo é possível

Que uma outra educação é possível

E que por isso mesmo estamos no caminho certo

Ao buscarmos a cidadania planetária

Tomando mais um  banho da realidade

Que já conhecíamos, que já sabíamos

Mas que reencontramos

No Buraco do Sapo

Onde humanos se misturam à paisagem urbana

Desumana... desumana, mais que desumana!